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Não se pode dizer que o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida era de poucos amigos. Teve muitos. Inimigos é que não faltavam ao empresário colecionador de fortunas e desavenças judiciais. Nascido em Óbidos, no Pará, o jovem Cecílio do Rego Almeida (1930-2008) deve ter dedicado muitas serenatas às mocinhas da cidade, assim que chegou a Curitiba. Acostumado a cantar grosso, o poderoso empresário não deixou de ouvir uma serenata que lhe tirou o sono, numa longínqua noite de 1986.

Governador do Paraná por quase um ano, João Elísio Ferraz de Campos organizou uma caravana de empresários, políticos e jornalistas para conhecer o sistema de transporte ferroviário da Vale do Rio Doce, no Pará e no Maranhão. Na primeira classe da aeronave, o governador e o suprassumo do PIB paranaense. Na classe econômica e festiva, digamos assim, um grupo de importantes jornalistas da imprensa local e nacional.

Na volta da expedição, o avião fez uma escala em Ipatinga (MG), para reabastecimento de energias, inclusive etílicas, onde a comitiva se hospedou numa pousada composta de vários chalés. Durante um generoso jantar festivo, o sempre perfeito anfitrião João Elísio Ferraz de Campos foi um dos primeiros a se retirar. Seguido de Cecílio do Rego Almeida, que se acomodou num chalé isolado e solitário. Fazia muito calor e os prolongados brindes pediam algo mais. Quem sugeriu o algo mais foi o jornalista Cláudio Lachini, diretor da Gazeta Mercantil: "Vamos fazer uma serenata para Don Cecílio?" Por que não? A pedidos, o então secretário de Comunicação Geraldo Bolda foi acordar João Elísio. O irreverente governador não podia perder uma serenata daquelas, mesmo vestindo algo parecido com um cuecão.

Com João Elísio à frente, os alegres rapazes da imprensa se dirigiram à janela do chalé de Don Cecílio, que foi acordado com a Bandiera rossa, o hino do Partido Comunista Italiano. Avanti o popolo, alla riscossa / Bandiera rossa, Bandiera rossa / Avanti o popolo, alla riscossa / Bandiera rossa trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Evviva il comunismo e la libertà!

Quando a janela de Don Cecílio entreabriu-se, a letra do hino comunista ganhou versos aditivos: Avanti popoli / cantiamo aria / reforma agrária!.

E continou o refrão: O comunisti, alla riscossa / Bandiera rossa trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Evviva Lenin, la pace e la libertà!.

Don Cecílio quase pulou da janela, injuriado: "Bando de comunistas!" Tomado pela fúria, completou os impropérios com o dedo apontado para o primeiro baderneiro à frente: "Até tu, João Elísio?"

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