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José Carlos Fernandes

Ao pé do viaduto tem uma aldeia

Casa de passagem no Rebouças perde ares de abrigo e se revela laboratório de convivência entre indígenas de etnias e reservas diferentes

  • Porjcfernandes@gazetadopovo.com.br
  • 29/12/2016 23:01
 | Hugo Harada/Gazeta do Povo
| Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

Meninos, eu vi.

O indígena Nei Silva, 28 anos, estudante de Educação Física na UFPR, fala em caingangue com a veterana Madalena Rufino, 73 anos. A mulher traja vestido vermelho, tem tranças e ares de entidade. Na minha ignorância passaria por uma divina cherokee. Ela quer saber o que são aqueles caras-pálidas na sua frente. Depois é a vez de Nei conversar com a líder Luiza Rakaja Venhy, 35 anos, que reclama o abandono do sistema de saúde, da Funai e a quem mais possa dizer respeito a tutela sobre os índios do Brasil. É tenso.

Nei – estagiário da Secretaria Municipal de Direitos Humanos – faz o papel do juiz de paz na taba. Media. Explica. Usa com maestria um emaranhado de sons anasalados, tão difíceis que diante deles o alfabeto cirílico parece moleza. Detalhe: toda essa conversa não se dá numa reserva do Sudoeste, mas na Rua Engenheiros Rebouças, embaixo do Viaduto do Colorado – via de acesso à Rodoferroviária, à Avenida Mariano Torres, ao Shopping Müller. Naquele ponto exato, debaixo das nossas barbas de lenhador, há uma tribo.

Ao se dar conta desse fato inesperado, a gente se sente, sei lá, um personagem de Hector Babenco em Brincando nos campos do Senhor. Talvez o pintor Gauguin, às voltas com os aborígenes do Taiti. Ou a fotógrafa Claudia Andujar perdida na selva entre os ianomâmis. Cabral na Terra de Santa Cruz? Sobretudo, a gente se sente tolo e distraído.

Oficialmente o local se chama Casa da Passagem Indígena, funciona faz dois anos e integra o programa nacional de atendimento às populações vulneráveis – aqui praticado à revelia dos selvagens que querem passar uma borracha nos mais pobres. Em vez de albergues imensos e insalubres, pequenas unidades, dotadas de assistência social personalizada, ares domésticos e alguma esperança.

Por força dessa política, a cidade encontrou um ponto de mutação. Tem agora abrigo para mulheres, lésbicas e transexuais; para moradores em situação de rua que não se separam de seus cachorros, para idosos que viviam no sereno, para mendicantes prontos para recomeçar suas vidas. E lugar para os índios. Só que os índios, sabe-se, são outro departamento. Aos fatos.

Tudo o que imaginamos sobre o “índio de terminal” está errado

Faz uma eternidade e mais um dia que caingangues, guaranis, o que sobrou dos xetás fizeram da Rodoferroviária um dormitório – em visitas à capital para vender artesanato. Até que em novembro de 2008 dois índios encontraram no local a mala em que estava o corpo da menina Rachel Genofre, 8 anos, vítima de um assassinato ainda não esclarecido. Os salvadores de seu corpo foram vistos como anjos, o que fez com que lhe reclamassem alguma justiça. Não era certo que tivessem como teto o buraco da escada de um terminal de ônibus.

O protesto teve eco, mas a coisa piorou. A partir de 2013, os investimentos do PAC da Copa expulsaram os índios de vez das cercanias do guichê da Viação Cometa ou da Princesa dos Campos. Restou-lhes seguir rumo ao vão do Viaduto do Capanema, às margens do Rio Belém, à mercê de todas as cacas que correm soltas, das profundezas às margens. Foi preciso muito alalaô dos militantes para lhes arranjar destino melhor – numa sede desativada de um Projeto Piá, vizinho do “Colorado”. Assim está.

Ali acontece uma experiência que desafia os cânones da assistência social. Fascina antropólogos, educadores e ativistas, a exemplo de João Vitor Fontanelli Santos, 29 anos, Ubirajara Zoccoli, 58 anos, e Igo Martini, 46 anos. Ouvi-los é se entregar a narrativas de Indiana Jones. Vitor esteve entre os dâw do Alto Rio Negro. Bira é autoridade nos fulni-ô. Igo, secretário de Direitos Humanos, apelidado de “o pai dos refugiados”. Em 2016, o trio deu de descobrir o Brasil índio que circula de rodoviária em rodoviária. Entendeu que esses viajantes não são trecheiros sem rumo, tampouco foragidos dos cercadinhos a eles destinados. São perpetuadores de uma cultura de andanças, que passa para os filhos, assim como um dia seus pais o fizeram.

De modo que tudo o que imaginamos sobre o “índio de terminal” está errado. Não são mendigos – o endereço da maioria deles é Rio das Cobras, Nova Laranjeiras, Paraná. As crianças que carregam entre uma trouxa e um lote de cestos não precisam ser abrigadas pelo Conselho Tutelar – como se pensava. Não estão famélicos nem à mercê das drogas. Têm cultura alimentar, princípios de higiene e regras de convivência dignas de uma cartilha da ONU. Dependem dos préstimos de um abrigo, é verdade, mas se ocupam de erguer o melhor dos mundos naquele pequeno espaço que lhes coube em Coré-etuba, cidade que tem próximo de 4 mil indígenas autodeclarados.

A área da Casa de Passagem soma pouco mais de mil metros quadrados. A população é circulante – nenhum hóspede pode esquentar lugar por mais de 20 dias. Mesmo não sendo propriedade privada deles, os que chegam plantam pés de gabirobas, pitangas, ingás e ipês. Quem passa de carro e olha para baixo vê os curumins brincando – para inveja da piazada que não sabe mais como é que faz. Dá para ver também o adolescente caingangue de cabelo azul, a índia tatuada, o grafite com temas geométricos na fachada. Com esforço, dá para entender que a feiura dos varais armados nas cercas diz muito pouco sobre o processo civilizatório às avessas praticado naquelas divisas.

A dizer. No prédio cabem não mais de 70 pessoas, mas os acordos entre os hóspedes garantem abrigo para até 130 almas, em casos extremos. Palavra de ordem – nenhum índio dorme para fora. Mais – na contramão dos espartilhos da ação social, a casa é mista e casais podem dormir juntos. Cabe aos inquilinos boa parte da limpeza. A comida é feita com banha e dividida, no melhor do estilo “a paz é possível”.

Não é perfeito, evidente, mas a “casa dos índios” desponta como o equipamento mais barato e menos problemático da paróquia. Mesmo assim, seus moradores são alvo de ligações desaforadas para o 156. Querem que lhes deem chá de sumiço. “O povo nos vê como incômodo. Há caingangues circulando pelo Brasil inteiro, mas sofremos um estigma”, lamenta o índio Nei, coração já pela boca. Emociona-se. Ele virou um líder informal do entreposto indígena – um dos baratos desta cidade.

Dentre os planos para a casa, almeja-se que possa servir de posto de venda de artefatos em taquaruçu, para que não precisem ser trazidos das aldeias. De quebra, qualquer pessoa poderia se aproximar, para um lero que fosse. Mais? Indígenas como Nei Silva – natural da agora conhecidíssima Aldeia Condá, em Chapecó (SC) – poderiam ensinar a quem queira os labirintos do idioma caingangue. Outros indígenas dividiriam com a população a dança e a música. Que tal uma escola? Um museu? E pensar no que os moradores da casa poderiam fazer pelo castigado Rio Belém, caso lhes fosse permitido viver na área da Rede Ferroviária Federal, logo em frente. Tem sonhos de 2017 nascendo ao lado do pé de gabiroba. Que fique escrito.

Esta coluna é dedicada ao ativista Igo Martini, o incansável.
  • Nei Silva, o estudante de Educação Física que serve de intérprete para caingangues, e os moradores de dezembro.
  • Crianças e adolescentes são pouco mais da metade dos 70 hóspedes em média do abrigo. Eles vêm das reservas, a Curitiba, em companhia dos pais: tradição de fazer andanças.
  • Nei Silva, os hóspedes da casa e, ao fundo, o antropólogo João Vítor e o secretário de Direitos Humanos Igo Martini: aprendizado sobre os indígenas que pernoitam em terminais de ônibus.
  • A veterana caingangue toma tererê: respeito aos mais velhos move relacionamentos dentro da casa.
  • Falta de espaço e improviso convivem com regras sociais acordadas entre os hóspedes: comida e tarefas divididas, plantio de árvores no quintal.
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