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José Carlos Fernandes

Clarissa é de morte

  • Porjcfernandes@gazetadopovo.com.br
  • 30/05/2013 21:03
 | Foto: Antonio More – Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Antonio More – Arte: Felipe Lima

A pesquisadora Clarissa Grassi, 36 anos, já nem dá bola para as bobagens que lhe dizem os conhecidos. Estuda arte tumular. Por isso, chamam-na de "relações públicas dos mortos", "guria do cemitério" e de "noiva cadáver" – numa alusão à deliciosa personagem de animação com Helena Bonham Carter. Tudo bem, são esses mesmos debochados que a enchem de mimos quando viajam por aí. Trazem-lhe caveirinhas do México e qualquer sorte de suvenires fúnebres que encontrem pelo caminho. Adoram exibi-la, dizendo que têm "uma amiga que entende tudo sobre as tumbas."

Clarissa não sabe precisar muito bem quando tudo começou. Talvez ainda pequena, ao se mudar para um casarão de sete quartos, na Rua Capitão Souza Franco, na capital. Ali assistiu à agonia da avó, Clara. Em vez de se abraçar às bonecas, observou cada escara, o fêmur da parenta à mostra, o ritual diário de banhos, as lágrimas pelos cantos. Foi seu primeiro encontro com a morte e, de carona, a visita ao Cemitério Municipal. Não tirou o olho das lápides e queria porque queria saber quem eram as pessoas que viviam quietinhas nas quadras 32 ou na 67. "Cruz em credo", ouviu.

A menina cresceu e deixou estar. Até se ver de repente mulher feita, fotografando feito uma predestinada cada adorno do Cemitério Municipal. A pessoa é para o que nasce, diz o caboclo. Clarissa se tornou uma expert. É membro da Associação Brasileira de Assuntos Cemiteriais, a Abec. Fonte para a imprensa – seu telefone não para de tocar no feriado de Finados. Autora do livro Um olhar: a arte no silêncio, lançado em 2006, com fotos e histórias do mais famoso "campo santo" de Curitiba. Prepara um segundo volume. E há dois anos promove visitas guiadas pelo Municipal. Não adianta chorar: os quatro cemetery tour previstos para 2013 já estão com inscrições encerradas.

Depois dessas visitas, me permitam, Clarissa "quase morre" de tanto responder e-mails, com perguntas que bem podiam ser feitas a Nosso Senhor. Os participantes querem saber mais e mais sobre a mártir Maria Bueno, se santa ou mais ou menos santa? Choram tardios a morte de Luci, a garotinha de 5 anos, esculpida em carrara, carregando cravos na barra do vestido. Pedem informações urgentes sobre o ferreiro Berti e sobre o fidalgo Pierino Riva, morto aos 21 anos, com ares de Rodolfo Valentino. Ambos foram homenageados em esculturas de bronze, e com tanto garbo que fazem dos "cemitérios parques "de hoje em dia a invenção mais sem graça da humanidade. Tudo culpa da novela A viagem, da Ivani Ribeiro. É meu palpite.

Não para aqui. Como inúmeros "nomes de rua" descansam mais ou menos em paz no Municipal, diante do túmulo como o do Barão do Cerro Azul, Ney Braga, Vicente Machado, ressuscita, súbito, o interesse pela História do Paraná. A pesquisadora abastece os participantes do tour, embora esteja longe de se limitar a um gabinete de curiosidades sobre os inquilinos ilustres dos cemitérios.

Clarissa se ocupa de fato em entender o que esses locais dizem sobre nossa cultura e nossos medos. Cada santo de pedra, casa capelinha, cada adorno é um enigma da pirâmide. Daí os gracejos que recebe – tendemos a fazer piada daquilo com que nos ataca os nervos. Damos aquela risada de abstêmio ao saber que alguém bateu com as botas. Serei eu o próximo? "Estamos sempre fugindo desse assunto", repete a mulher de voz maviosa, juba leonina e inteligência a ponto de bala.

Ela manja pra caramba. Jean Delumeau, Phillipe Ariès são seus chapas. Soma milhagens, debruçada faz anos sobre as lápides, epitáfios e exéquias. Fala de cemitérios como o São João Batista, Catumbi, do Carmo e da Penitência, com a naturalidade de quem explica onde fica a Praça Tiradentes. E nos faz ver como está tudo impresso ali, da arquitetura às crenças sobrenaturais, o higienismo, a hospitalização e o esquecimento da morte. "O cemitério é o espelho da cidade".

Entre um choque de realidade antropológico e outro, ainda bem, Clarissa ilustra o papo falando de um Anjo do Apocalipse lindo e sexy de algum cemitério perdido pelo mundo. Diz o nome do escultor, o sentido disso e daquilo. A gente fica vidrado, sem frios na espinha e outros efeitos colaterais. Daí, vai ver, vem o sucesso das visitas guiadas.

Um alerta – a arte tumular está com os dias contados. Se o dono de um jazigo incrível não tiver herdeiros, o local pode virar poeira, dando lugar a algum caixote de mármore, feio, frio e malvado. Não há nenhuma proteção histórica aos túmulos. Senhores políticos, "Deus castiga". "O da atriz Rosina Carboni já desapareceu", cita Clarissa, nos deixando cheio de remorsos. Ou fingindo de morto, nossa especialidade.

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