Aconteceu algumas vezes. Repórteres de outros estados perguntam como fazem para falar com o Dalton Trevisan: "Você tem o número da casa dele? É para uma entrevista". Fico besta. Sempre acho que Deus, o Obama e até a turma do BBB sabem que o Dalton não fala com a imprensa. A simples menção à palavra jornalista deve lhe dar urticárias na altura da glote.

Mas longe de mim roubar doce de criança. Vai lá que o felizardo consegue furar o cerco da Lapa. Crente em milagres, passo o contato de um chapa do Trevisan, que bate a ficha para o chefe e reproduz aos desavisados a resposta de sempre: "Não". Alguém deveria fazer um balanço sobre as esnobadas que o Vampiro dá.

Verdade seja dita, uns poucos eleitos vencem essa resistência – não para fazer uma reportagem, é claro, mas para um encontro vespertino, honraria que pagariam oferecendo-lhe a própria carótida, se preciso fosse. Não fofocam o que rola nesses papos com Dalton nem se a gente der de presente o LP Araçá Azul, do Caetano Veloso.

Tenho uma amiga que usou todo o seu talento de Amélie Poulin para conquistar a confiança do ilustre. Colocou flores à porta da casa onde ele vive na Rua Ubaldino do Amaral. Fez cara de camafeu. Deu certo, mas foi o que bastou para que o gato comesse sua língua. Não diz palavra sobre os cafés que toma com o vamp. Faz-se de desentendida, tirando da garganta a mais curitibana das interjeições. "Hã?"

Não se trata de nenhum mistério: existe um culto silencioso a Dalton Trevisan, um homem para poucos. Mas no meio dessa história tem um felizardo, para quem tudo isso não passa de uma conversa mole. "Ele é um tímido, só isso", repete aos quatro ventos o advogado Constantino Viaro, 75 anos, filho do pintor Guido Viaro, ao se referir a seu conhecido de uma vida inteira.

Tenho para mim que o Constantino devia contar "piada para fora", fazer um stand-up comedy cultural. Seu talento para narrar episódios divertidos da cena local tem um efeito iconoclasta. É de rachar ouvi-lo lembrar a noite em que o trágico Miguel Bakun, bêbado de cair, fez um discurso em honra do pinheiro do Paraná, mas estava diante de um chorão. De João Turin mexendo o café com o dedo sujo de barro. Do pai, Guido, que levou duas professoras a cantar ópera na fila de um açougue da Praça Zacharias. Ao tirar nossos deuses do altar, acaba por lhes dar carne e osso. Com Trevisan não é diferente.

As primeiras recordações que tem de Dalton são dos tempos de menino, em companhia do pai e da intelectuália. "Ainda advogava", detalha, sem pedir segredos da conversa. É tão sem censura que, em 1996, ao lançar o livro Guido Viaro, cometeu o que os membros da confraria daltoniana consideram crime de morte: publicou uma fotografia do amigo, de terno, de lado e no exercício das delícias do tabagismo. Sim, o Dalton tragou.

Em se tratando de Trevisan, Constantino pode tudo, incluindo o impossível. Em tempos idos, fez das tripas coração para que desfrutasse de reconhecimento, mesmo se comportando como o Ermitão de Muquém. Conseguiu que um bordel na Rua Carlos Cavalcanti fosse convertido, embora não seja bem essa a palavra, no Teatro Novelas Curitibanas. Debaixo de resistências do Dalton, trouxe o diretor Adhemar Guerra para dirigir adaptações e colaborou para que a montagem O Vampiro e a Polaquinha se tornasse o maior fenômeno da dramaturgia local.

Há cinco anos, abriu – com tutu próprio – o Museu Guido Viaro, na XV com a General Carneiro. Tem lá uma salinha dedicada a Trevisan. Nada do outro planeta. Em vitrines, expõe a biblioteca do escritor, de épocas e línguas mil: De zoete vijandin-dat (Holanda); Szajhácska (Hungria) ou Opowiadania wcale nie przykladne (Polônia). Entre as curiosidades, um conto datilografado, no qual aparecem os rabiscos que fazem do texto de Dalton o mais enxuto da paróquia. A gente olha e entende como o Vampiro tira sangue das palavras.

O saboroso é que o próprio ajudou a montar o espaço. Gosta tanto do seu memorial que, segundo contou um passarinho, não passa semana sem dar as caras, sempre depois das quatro. Não fica dando sopa, é claro, para tristeza dos abutres, mas tem colóquios reservados com os Viaro a respeito do que dizem os visitantes.

Graças ao Constantino, os índices de comunicação de Dalton com a sociedade ganharam watts de potência. Há quem procure o local para pedir sua participação em documentários, por exemplo. Recado dado, a resposta é aquela que a gente já conhece, mas nosso tímido costuma indicar o livro e a página em que o interessado pode encontrar o que ele pensa sobre o assunto. Vale por uma entrevista.

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