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 | Foto: Lucília Guimarães / Arte: Felipe Lima
| Foto: Foto: Lucília Guimarães / Arte: Felipe Lima

O para-brisa do carro do ba­­charel em Direito e car­­torário Fernando Gui­­marães, 73 anos, vale por sua carteira de identidade. Ali está lavrado: "Sou filho de Jorge, saravá". O homem foi sempre assim – um anarquista, dos pa­­ra-brisas ao resto da carroceria. Vi­­rou apóstata quando era guri de suspensórios e ainda conhecido como filho do grande jornalista Acyr Guimarães, um dos pioneiros desta Gazeta do Povo. De­­ta­­lhe: capitulou a fé às vésperas da Primeira Comunhão.

Gostou. Aos 20, com a naturalidade de quem ia às matinês do Thalia, enveredou-se para o espiritismo, debaixo do olho vesgo da família. E passava dos 40 quando rodopiou no centro Ed­­mundo Ferro do Pilarzinho, de onde só saiu para abrir o seu próprio espaço – o Pai Maneco, uma chácara de 8 mil metros quadrados na Estrada Nova de Colombo. Ali, descansou na paz lá de Aruanda, uê. Sequer tem problemas com a vizinhança: o terreiro é colado de muro no Cemitério Santa Cândida.

E lá se vão 20 e tantos anos. Nesse tempo, o Pai Maneco se transformou num endereço cult da capital, onde artistas, intelectuais e principalmente universitários dividem a tenda com pobres de Marré e herdeiros do quilombo de Zumbi. É só olhar a pilha de sapatos para ver – são crocks, all stars, scarpins e rasteirinhas compradas nos atacados da Pedro Ivo, todos democraticamente num canto. Não verás um lugar como esse. Saravá.

A moçada, diz-se, chega ali atraída por dois itens do kit básico da umbanda: a liberdade de expressão e a música de bradar os céus. A roda de tambores do Pai Maneco é tão animada que deve levar muita gente a pedir ao santo, de lambujem, que o próximo carnaval fique a cargo da casa. Como são 2 mil visitantes por semana, noves fora, as linhas do além devem estar congestionadas "Ai de ti Sapucaí."

Mas os músicos dali não são só bambas. São malabaristas. Sape­­cam de tudo um pouco, incluindo um ponto "que veio" do poeta Paulo Leminski. O hit "Pomba Gi­­ra Blues", de Anderson Lima e Ga­­briel Teixeira, à moda Blindagem, esbanja suingue com a letra que fala de macumba e da "moça bonita", seguida de refrão maneiro: "Me acende uma vela, farofa amarela, com o nome dela..."

Claro, o Pai Maneco está no Twitter. E o site da instituição tem cerca de 10 mil visitas mês. Quando a Cultura Afro-brasileira for, aruê, disciplina juramentada, muito professor vai encontrar ali o conteúdo de que precisa – da biografia dos orixás ao significado de palavras gostosas feito doce. Repita comigo: babalorixá, alguidá, juremá, patuá, sarabumba...

Foi no site, aliás, que dia desses Fernando atiçou os espíritos que rondam o terreiro e adjacências, do Ogum das Águas ao Ci­­gana Soraya. Num texto escrito a navalha, o babalaô protestou contra a violência das encruzilhadas da vida. Motivo: em 25 de outubro, depois de uma partida de futebol, o estudante João Henrique Mendes Viana acabou atropelado e morto, vítima da guerra das torcidas.

A mensagem abalou geral. O local, até então uma espécie de república hippie com passe livre, começou a se transformar numa laboratório de humanidade. Pipocaram e-mails de fiéis dispostos a fazer giras que façam o mundo girar. São pedagogos querendo alfabetizar, profissionais de saúde pondo já o avental branco por cima das saias rodadas. Tem quem se habilite a ensinar como se faz um currículo. Emprego, sabe cumé, tá difícil até para o Caboclo.

Pois que fiquem à vontade. Fernando Guimarães segue na rotina. Às segundas-feiras, toma banho de ervas e faz jejum. À noite, recebe o Preto Velho. De terça em diante, prepara-se para se virar em três: logo logo vai ter contraturno no estabelecimento, a quem interessar possa. Mas alto lá, sempre à moda: sem governo e com fúria de atabaques.

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