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 | Ilustração: Felipe Lima
| Foto: Ilustração: Felipe Lima

Quando eu era criança, um dos adjetivos a que as meninas recorriam para falar mal de uma colega era "exibida". Duas meninas reunidas contra uma terceira podiam gritar em coro os versinhos escatológicos:

"Exibida colorida

Come casca de ferida

Bem na hora da comida!"

Em algum ponto ao longo dos últimos anos a palavra exibida se perdeu. Ninguém mais é xingada de exibida porque se exibir é normal. Os meninos também, desde a mais tenra idade, estão liberados para mostrar-se em toda a sua glória. Por glória entenda o que você quiser: ser bonitinho, fazer gracinhas, fazer palhaçadas, até ser malcriado.

As adolescentes atualmente são grandes exibidas. E aí não faço nenhum julgamento de valor. O contexto social e cultural em que estão imersas estimula a autopromoção através da imagem e por isso seria injusto colocar toda a responsabilidade nas costas delas. Se em décadas passadas os adolescentes escreviam poemas ou compunham canções, hoje é a imagem que prevalece como forma de expressão. Meninos e meninas que se fotografam fazendo caras e bocas e postam suas imagens nas mídias sociais são mais burros que os que escreviam poemas? De jeito nenhum. O entorno é que mudou, não o cérebro humano.

Os adultos também andam incrivelmente exibidos, postando imagens de tudo que acham engraçadinho ou charmoso: o novo corte de cabelo, o prato que vão comer no restaurante chique, o novo carro. A justificativa é que a imagem é compartilhada apenas com os amigos. Só que o Facebook alterou a noção de amizade: no "Face", amigo pode ser qualquer um que envie um pedido para... ser seu amigo! Com as mídias sociais, as pessoas ficaram mais exibidas e, consequentemente, mais chatas.

No caso dos adolescentes parece haver uma peculiaridade. Eles não se entediam vendo imagens de seus pares. Milhares de fotinhos de meninas fazendo boquinha de peixe, fingindo que vão beijar a câmera ou virando a cabecinha de lado ao estilo Paris Hilton circulam entre eles e ninguém se cansa de olhar. Os meninos fazem cara séria para os selfies desajeitados. São dezenas de fotos parecidas entre si e a turma toda não resiste à tentação de fazer mais uma.

Nesses autorretratos de jovens e adultos tudo é posado. "Strike a pose" (faça pose), já cantava Madonna há uns 20 anos. Todo mundo sonhando que está na capa da Vogue. De perfil, queixo baixo, olhar enviesado – naturalidade? Para quê? As fotos dos paparazzi que pegam as celebridades desprevenidas deixam qualquer um feio. Todo mundo quer ser celebridade, mas celebridade de capa de revista, fotoshopada e perfeitinha.

Pergunto-me o que me causa desconforto nisso tudo. Acho que é essa falta de naturalidade, essa uniformização de sorrisos e elegâncias planejadas, essa fragilidade a que estão se expondo os que se exibem, especialmente a meninada. A casa do exibido só tem paredes de vidro. Ele está dando a cara para bater o tempo todo. Será analisado e julgado. Mas por tão pouco! Não é a luta por uma causa que está em questão, é apenas uma imagem. É muito barulho por nada.

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O leitor Ricardo Maldonado me avisou que Fagner gravou Fanatismo em 1981 e não em 1984, como escrevi na coluna da semana passada. Fica registrada a correção.

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