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 | Felipe Lima
| Foto: Felipe Lima

Eram velhos amigos. Conheceram-se jovens, iniciantes em suas profissões. Ambos vindos de longe para fazer carreira na capital. Os anos passaram, os dois progrediram, tornaram-se figuras importantes. Aqueles senhores levavam muito a sério o trabalho que faziam, que era o que lhes dava projeção na sociedade, pagava as contas e supria suas necessidades de se expressar.

Passaram-se décadas desde o início da amizade – exatamente três décadas. Os dois estavam no auge e a amizade continuava. “Provada na adversidade, confirmada na abundância”, como deve ser. Mas as circunstâncias os colocaram em lados opostos. Um criticou o outro publicamente. Não uma, mas várias vezes. Sua profissão exigia. Se ele poupasse o amigo, estaria falhando com suas obrigações. E não queria falhar.

É inquietante supor que a partir de uma fase da vida não se faz novas amizades

Um dia aquele que foi alvo de críticas apareceu tarde da noite para acertar as contas. Trazia um garrafa de uísque e uma explicação: “Vim porque não estou mais em idade de mudar de amigo”. Discutiram muito, beberam muito, não chegaram a nenhum acordo. Foi um desabafo. A amizade prosseguiu, com alguns períodos de “cara virada” quando um dos dois se irritava.

Soube dessa história outro dia e me chamou a atenção a justificativa para persistir na amizade dada por aquele que se considerou ofendido: “não estou mais em idade de mudar de amigo”. Nas entrelinhas se lê: “se a esta altura da vida eu abandonar um amigo, não farei outro para substituí-lo”. É inquietante supor que a partir de uma fase da vida não se faz novas amizades. O pensamento me martela a cabeça. Concluo que não é esse o problema. Amizades sinceras podem surgir sempre. Mas elas exigirão um empenho e uma paciência muito grande, que pode ser que não tenhamos mais. Preguiça, talvez. Mas uma preguiça justificável.

Mudar de amigo envolve duas grandes operações. A primeira é deixar para trás uma história compartilhada e uma intimidade conquistadas ao longo de anos. A segunda é dar início a uma amizade nova, que pode não ir para a frente, que exigirá um trabalho danado até que a intimidade alcance aquele nível em que é possível conversar sem falar quase nada.

Faz sentido que a certa altura da vida, quando há muita história acumulada atrás de nós, seja mais agradável prender-se aos velhos amigos para quem não é preciso explicar tudo nem recuperar continuamente trechos antigos da nossa biografia que o recém-chegado desconhece.

Tenho em casa o exemplo da situação oposta à dos velhos amigos. Por onde passa, meu filho adolescente faz novas amizades. Com isso, vai deixando a maioria dos “antigos” camaradas para trás. Uma mudança de escola traz consigo um universo de novos encontros, novas descobertas e coloca uma pá de cal em amizades feitas na escola anterior, que não eram tão sólidas.

Ao contrário dos adultos, que sabem que os contatos feitos em um novo ambiente (como um emprego) provavelmente não vão se transformar em amizades para a vida toda, meu filho está sempre cheio de expectativas e crente nas possibilidades ao se deparar com uma nova turma. Da maioria dos garotos e garotas com quem cruza no seu dia a dia, ele se desliga sem cerimônia. Um ou outro permanece, talvez aquele que – quem sabe – atravessará décadas com ele, tornando-se o amigo da fase da vida em que não se faz mais amigos.

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