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O sujeito estuda gramática, estuda literatura, estuda línguas, instala-se em um escritório confortável e escreve um livro. Mas o livro não tem alma e nunca vai causar uma impressão em alguém. Para desespero desse sujeito, existiu uma mulher chamada Carolina Maria de Jesus.

Ela nasceu há cem anos. Sem família e mãe solteira, catava lixo nas ruas de São Paulo para comprar comida para os três filhos. Não tinha dinheiro para mais nada. Nem para a comida dava direito. Vivia em uma favela por não ter outro lugar para morar, a favela do Canindé, próxima ao Rio Tietê. Era uma figura e tanto: inteligente, responsável, com princípios muito claros. Enxergava muita sordidez no seu entorno e por isso mantinha um olhar ao mesmo tempo compreensivo e irritado sobre os favelados. Eles bebiam demais, brigavam demais, eram promíscuos demais aos olhos de Carolina. Com frequência, quando se irritava com os vizinhos, ameaçava: "Vou colocar você no meu livro!"

Ameaça estranha aquela. Quem a recebia era em geral analfabeto e temia ser "colocado" em um livro, como se isso fosse uma bruxaria. A mulher que ameaçava tampouco havia estudado. Talvez tivesse frequentado a escola um ou dois anos, tempo suficiente para aprender a ler. E ler foi o que ela fez quando não estava buscando meios de sobreviver. Provavelmente ler e escrever fizessem parte da estratégia de sobrevivência de Carolina, que, despertada de madrugada pela fome ou pelas pulgas ou pelos gritos dos vizinhos bêbados, sentava-se para escrever. Diários, versos, músicas, de tudo ela fez. Os vizinhos percebiam sua mania e a consideravam estranha.

Em 1958, um jornalista foi ao Canindé escrever sobre um playground que o prefeito Adhemar de Barros havia instalado na favela. Em vez de crianças, encontrou homens desocupados fazendo arruaça no parquinho. Viu surgir uma mulher alta que chamou a atenção dos arruaceiros e despejou sua ameaça habitual: "Vou colocar o nome de vocês no meu livro". Audálio Dantas foi atrás dela para saber que esquisitice era aquela. Descobriu a favelada que escrevia. Que mantinha o orgulho e a dignidade dos que acreditam no valor do que fazem, por mais que aquele valor seja ignorado pelo mundo, como era o caso de Carolina.

Audálio emprestou um dos diários de Carolina, leu e chegou à conclusão de que tinha em mãos algo melhor do que qualquer reportagem que escrevesse sobre a vida na favela. Fez uma introdução, selecionou trechos e publicou no jornal Folha de S.Paulo. A editora Francisco Alves transformou tudo em livro. Em 1960 chegou às livrarias Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada. Foram 80 mil exemplares vendidos nos anos seguintes e traduções para vários idiomas.

Parece uma história de sucesso, mas não é bem assim. Se o clima político e social da época favoreceu a curiosidade sobre o relato da vida na favela, por outro o mundo intelectual não levava Carolina a sério. Ao contrário do que se vê hoje, em que toda forma de expressão é aceita como literatura (microtextos do Twitter, por exemplo), o cânone do início dos anos 60 era rígido. Muito se falou que Quarto de Despejo era uma farsa. O crítico Wilson Martins foi um dos que defendeu essa tese. Causava-lhe estranheza que uma mulher de pouca instrução usasse a norma culta ao escrever, ainda que de forma imperfeita. Audálio Dantas se viu atingido pelas suspeitas. Se o livro era uma farsa, ele era o farsante. Para se proteger, guardou os diários originais, mais tarde doados à Biblioteca Nacional.

Pode-se supor que a figura de Carolina também gerasse desconfiança (negra de mais de 40 anos, andrajosa), assim como sua origem (favelada que passou a vida longe da escola). Ela era tudo que o Brasil próspero fingia não existir.

Diários, que em tese não terão leitores, revelam o estilo do autor. Carolina escrevia com graça, com aquela intimidade que nos faz querer ir até o final. Por isso Quarto de Despejo sobreviveu, assim como Minha Vida de Menina, de Helena Morley, outro diário que, publicado, se transformou em um grande livro e que, de tão bom, levantou suspeitas sobre sua autoria. Uma menina no interior de Minas não podia ter feito algo tão maravilhoso quanto Minha Vida de Menina.

Sobre Carolina, a escritora que tinha talento, que tinha sinceridade, há muito que contar. Como Audálio Dantas, fui tentada a só reproduzir o que ela escreveu. Tão simples e tão forte. Mas o livro está aí, nas boas livrarias e sebos. Ela queria ser lida. Ela merece ser lida.

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