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 | Ilustração: Felipe Lima
| Foto: Ilustração: Felipe Lima

Vamos ser francos: fofoca é um hábito deplorável, mas parece que todo mundo fofoca. Como diria Cole Porter, os chineses fazem isso, os canadenses fazem isso, os gregos e os quenianos fazem isso, e os brasileiros... Sim, os brasileiros, você sabe bem, também fazem. Todo mundo faz fofoca, provavelmente uns mais e outros menos. O que determina a frequên­­cia da prática deve ser a combinação de personalidade, cultura e religião.

A família pode nos ensinar que fofoca é cruel e deselegante, a religião pode nos dizer que é perda de tempo e até o meritíssimo juiz pode nos alertar que isso vai acabar nos custando caro. Mas o principal é a nossa consciência dizer alguma coisa. Se ela cala, nós falamos.

Tenho notado um efeito terapêutico na fofoca. A pessoa está estressada, desanimada com seus problemas e então cruza com um conhecido, "troca ideias" sobre a vida alheia e se sente mais relaxada. Pode ser uma fofoquinha inofensiva. Aliás, abro parênteses: refiro-me aqui ao comentário superficial, do tipo: "Fulana foi demitida"; "Minha faxineira pegou o marido com outra", ou "Esse casal está gastando muito". Todos comentários dispensáveis, é claro. Mas não entram na categoria mais raivosa da fofoca, aquela que emite juízo de valor negativo ("Fulano age como um grosso"; "Beltrana é uma incompetente"). Aí a fofoca vira "falar mal". Fecho parênteses.

Já vi registros de pesquisas aparentemente sérias sobre a fofoca. Uma delas veio do Instituto Max Planck, de Berlim. Concluiu que a fofoca ajuda a formar uma imagem de cada pessoa com quem convivemos e isso é necessário quando se vive em grupos. Através da troca de informações sobre a vida alheia compõe-se um retrato do alvo da fofoca e também do fofoqueiro. Nós sabemos bem disso, não é, leitor? O fofoqueiro se expõe muito. Ao fim de um período ele acaba sendo tão penalizado por sua tagarelice quanto suas vítimas.

Vítimas – esse é o problema da fofoca. Ela faz vítimas. Aposto que o professor Manfred Milinksi, o tal que estudou a fofoca lá em Berlim, não se debruçou sobre o efeito desagradável do diz que me diz que sobre quem é o assunto. É horrível ser assunto de fofoca e ponto final. Não importa que a humanidade precise dela, como teorizou outro pesquisador, o americano Frank T. McAndrew, na revista Scientific American. Qualquer coisa sobre nossa vida pessoal comentada por outros será uma pequena ou grande agressão para nós. Aliás, daí poderia surgir o melhor parâmetro para quem sabe que vai sucumbir à tentação da fofoca de vez em quando: imaginar como se sentiria o assunto da fofoca se entreouvisse, por acidente, o que se falou dele. Vai ficar triste, chocado, indignado? Se a resposta for sim, sugere-se manter a boca fechada.

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