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– Você está parecendo um me­­ni­­no revoltado – me diz mi­­nha mu­­lher ao entrar na biblioteca.

Lanço contra ela o meu pior olhar. Estou ouvindo música na potência máxima. Um conjunto de rock nacional, eu que gosto apenas de Bach, não porque entenda alguma coisa de música clássica, mas porque Bach é minha forma de rezar sem palavras ou crenças.

Como não respondo nada e seguro firme o meu olhar reprovador, ela sai indignada com a música ensurdecedora.

É fim de tarde, os vizinhos não podem reclamar. Talvez tenham identificado algum adolescente nos visitando. Não imaginam tratar deste senhor prestes a sediar a velhice.

Erguemos o volume da música porque queremos matar o mundo ao nosso redor. Então, não incomodem quem está neste processo sério de destruição de tudo que não caiba na pequena bolha em que se isolou.

Ouço todos defendendo o silêncio, eu próprio sou um obcecado pela ausência total de barulho, por isso gosto tanto das madrugadas. Mas reconheço em público o direito que todo cidadão tem de passar algum tempo completamente imerso num útero de ruídos.

O som alto nos salva. Ele nos livra de tantas angústias. Queríamos gritar contra algo ou contra alguém. Dizer uma porrada de verdade ao mundo – a palavra porrada, do ponto de vista da escrita, é uma espécie de insubordinação sonora. Mas como não temos força psicológica para vociferar, erguemos o som, erguemos mais o som, e erguemos ainda mais o som...

– Por que você não ouve essa gritaria com fone de ouvido? – alguém pode me recriminar.

Não tem o mesmo efeito. Queremos incomodar o mundo com a música. Ouçam. Estou pê da cara. Meu aparelho diz isso a todos vocês. ISSO. E mais ISSO. Estão entendendo?

Assim desagradamos quem nos acha sempre tão cordeiros. É preciso irritar a vizinha que vê o seu programa na televisão. O rapaz ao lado que estuda flauta. A família que está em alguma tarefa séria. O nosso filho ainda bebê que dormia até o início desta barulheira. A todos temos uma única coisa a dizer: ISSO.

Se não aprovam nosso gosto musical, melhor ainda. Somos desse jeito, temos os piores problemas de origem, meus caros. Os incomodados que ergam o volume de seus próprios equipamentos. Vamos transformar o bairro num grande concurso de alto-falantes. A poluição sonora neste poente tão doloroso. Todos com os aparelhos ligados, num grande festival de insolências.

No período em que eu morava com meus pais, a família sabia que, quando eu erguia o volume da vitrola, era para se afastar de mim. Eu estava em uma de minhas crises. E eu vivia em crise.

Minha mãe garantia meu direito de ficar na sala, esquecido do mundo poeirento lá fora, vagando na nave espacial daquela música de maconheiro, eu que nunca nem fumei cigarros. Meus cabelos longos, minhas roupas extravagantes, meu hábito de ler durante o dia, tudo me dava o aspecto revoltado que aquela música denunciava.

Meu padrasto entrava puxando a tomada da vitrola e lá vinha um de seus discursos, que eu devia era arrumar alguma coisa útil para fazer.

Como a casa era dele, eu me submetia ao seu poder, mas, assim que ele saía, voltava a ouvir a música na mesma altura enquanto minha mãe vigiava o portão, temendo o retorno do censor. Eu ouvia repetidamente os meus poucos e irritantes discos.

Agora, quando tenho a idade do meu padrasto naquela época, sou eu que reclamo do som alto da televisão em casa, dos hábitos musicais de minha filha, embora ela ouça suas músicas com o fone de ouvido. Então, num momento de revolta, ao sentir um ódio violento contra tudo e principalmente contra mim, um ódio sem razão, pois não estou irritado com nada específico, quero o direito de escutar um disco a todo volume.

Cansei de ser cordato. De cumprir as tarefas. De me preocupar se na casa vizinha tem alguém doente, querendo dormir. Se meu filho vai ou não acordar. Se vão aprovar minhas escolhas musicais. Quero dar um esporro no mundo.

Não agüento muito tempo neste estado. Toco no máximo uns dois CDs, e então apago o aparelho. Um silêncio tão acolhedor me envolve enquanto a música continua vibrando em meu corpo, numa memória física das ondas de som que me envolveram naquele período de dedicação completa a elas. Estou ainda vibrando. É uma sensação boa. Uma leveza inacreditável. E eu, tão duro e desajeitado, sigo para casa ensaiando alguns passos. Não chego ao ridículo de querer dançar, mas meus pés se fazem alados. Há uma vontade imensa de levitar.

Só não entendo por que todos me olham com raiva quando chego com esta vibração interior.

– O menino já desceu da casinha na árvore? – minha mulher me pergunta.

– Não, não desci. Vou dormir lá esta noite – respondo ainda ouvindo o som alto do meu coração.

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