Estou aprendendo coisas aqui no quintal de casa. Estes poucos metros quadrados, com algumas plantas, constituem também uma de minhas universidades. E tiro todo o proveito deste espaço em que posso ficar de bermuda e chinelas, pronto para aprender.

Para aprender é preciso tirar um pouco de roupa. Porque aprendemos com o corpo, com a pele, e as roupas em excesso bloqueiam o contato físico e fazem tudo passar pelo intelecto.

O aprendizado em que estou empenhado não tem nenhuma função. Leio livros que me seduzam, tomo notas em cadernos vadios, que depois se perderão, ouço alguma música, fuço na internet, sento no chão da varanda da biblioteca à noite, com meu filho, e olhamos a lua e as estrelas, enfim essas coisas todas que não servem para nada e que, no entanto, são tudo.

Estive longe do quintal, trabalhando mais do que devia, e agora aproveito o retorno. Antes de poder ficar mais tempo por aqui, tomamos algumas providências, como se fosse para receber alguém importante.

Trocamos a grama nos lugares em que ela fora invadida pelas azedinhas, uma erva daninha que cobre e sufoca tudo. Recolhemos em um pequeno canteiro as muitas bromélias dispersas em vários vasos. Arrancamos uma moita de bambuzinho ornamental que se encontrava arruinada. Replantamos os agapantos. Estas e outras providências jardineiras aconteceram para a minha volta.

Como passamos por um período de muita seca, tais mudanças geraram um problema. Todas as noites, vou aguar as plantas, o que me toma mais de uma hora de trabalho. Nesta tarefa, sinto o cheiro doce da terra. Molho as mãos e os pés com a água que escorre da mangueira, e fico zanzando pelo quintal na semi-escuridão.

Outra medida preparatória foi trocar as lâmpadas queimadas do jardim, para que eu pudesse aproveitar melhor o espaço que separa a casa da biblioteca. Mas mesmo com todas as luzes dos muros laterais acesas, há pouca iluminação.

Venho, por tudo isso, dormindo mais tarde, embora continue acordando cedo. O ter mais tempo para minhas coisas me deixa com uma gulodice maior de tempo. Mas acredito que tal comportamento logo passe, é apenas um deslumbre próprio de novo rico, de alguém que ficou subitamente rico de tempo – porque esta é a única riqueza que me interessa.

Nesta nova vida, dá para ficar sentado no banco da varanda da biblioteca. É um banco rústico, de madeira reaproveitada, que compramos alguns anos atrás, e que permaneceu meio despovoado. Agora, ganhei de minha mulher um futton e almofadas para ele, num tecido impermeável, da cor de jeans desbotado. Sentado ali, lendo ou trabalhando no netbook, passo parte de minhas manhãs. Acompanho assim a vida do jardim. Os passarinhos que vagam pela grama. A florada da romãzeira. O barulho dos carros subindo a rua onde moro, atento a uma sinfonia urbana e campestre.

Leio. Tomo nota. Preparo aulas. Atualizo o blog. Busco in­­formações. Nada sério. Nenhum projeto mais consistente. E nunca aprendi tanto como nestas últimas semanas de retorno ao quintal.

A opção, é claro, significou perder uns dinheiros que entravam todo mês. Para comemorar, gastei nossa pequena reserva e fiz umas contas adicionais. Lembro-me sempre de uma história que me contaram. Que um restaurante só dava certo se o dono fosse generoso, ou na qualidade ou na quantidade de comida servida. Se ele começasse a controlar tudo, numa postura de mesquinharia, o negócio produzia prejuízo.

Não sei se isso funciona para restaurantes, não sou do ramo, mas talvez funcione na vida pessoal e na artística. Quanto mais generoso – conosco e com os outros – mais somos agraciados.

Estou apostando nisso de maneira mais consciente. Então, eis-me aqui distribuindo grandes porções de tempo a afazeres sem fins lucrativos. Respondendo todos os e-mails, e fazendo outras coisas gratuitas.

Viver sem um centro. É nisto que estou empenhado. Até esta crônica está saindo assim. Apenas escrevo ao correr do que me ocorre enquanto os dedos se movem no teclado.

Quando a comecei, queria falar de uma coisa que aprendi nestes novos dias. Daí me perdi, fui e voltei, agüei as plantas, lembrei de uma velha história sobre generosidade, para enfim chegar ao aprendizado.

Eu havia notado que alguns passarinhos, os sabiás principalmente, mas também os bem-te-vis, ficavam no parapeito das janelas altas da biblioteca bicando nervosamente o vidro fechado. Na primeira vez, levei um susto. Pensei que fosse um pica-pau. Espaçadamente, vejo um pica-pau no jardim.

Logo descobri que era sabiá. Bicava que bicava o vidro. Saí da biblioteca e o espantei. Ele voltou. Concluí que, preso a uma ilusão, ele quisesse entrar. Os vidros receberam um filtro para evitar o sol nos livros e isso faz com que eles reproduzam as plantas do quintal. O passarinho, imaginando-se preso, lutava para fugir.

Isso aconteceu umas poucas vezes nos últimos anos, mas agora que estou na biblioteca mais tempo durante o dia, percebo que é algo freqüente.

Conversando com uma amiga que mora numa chácara, relatei o fato e dei a minha explicação. Ela disse que não era nada do que eu estava pensando. Acontecia muito na casa da chácara dela, onde alguns vidros tiveram que ser cobertos com papel. O passarinho se vê refletido e briga consigo mesmo, achando que é um inimigo. Ele está ali lutando com a sua própria imagem. E só os machos fazem isso, no seu instinto de defender o território. Estes malditos machinhos briguentos.

Desde esta descoberta, tenho tentado sorrir para mim mesmo quando me vejo num espelho – que alguns também chamam de texto.

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