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Miguel Sanches Neto

Vestida para casar

  • Por
  • 22/09/2008 21:03

Tinha ficado para tia, embora ninguém mais se importe com a idade das pessoas, e algumas mulheres até tirem partido da madureza, e da grande oferta de produtos e tratamentos estéticos. Mas, criada numa família do interior, ela achava que mulher se casa bem quando se casa antes dos 20, conseguindo ainda salvar a reputação casando-se até os 25. E ela já completara 30, sem nunca ter sequer namorado.

No empresa, onde a competição feminina não se restringia às promoções de cargo, era conhecida por chorar diante de qualquer problema. Bastava uma reclamação de cliente e ela corria para o banheiro, voltando com os olhos rubros e a maquiagem retocada. Sabiam como havia sido seu dia pelo tom da maquiagem. Quanto mais carregada, mais vezes tinha se escondido no banheiro para controlar uma crise.

Uma amiga, colecionadora de aventuras masculinas, e até de algumas femininas, segundo os comentários das casadas, e que freqüentava a faculdade de Psicologia, saiu-se com uma explicação, na frente de todos, para os problemas emocionais da outra: "Você sofre de ausência do pênis. Por isso toda a insegurança".

A solteirona se derramava em lágrimas, não conseguindo controlar os uivos, ouvidos em todo o andar, apesar da porta fechada do banheiro, onde ela correndo se escondera. Nenhuma amiga a consolou nos mais de 60 minutos gastos para retocar a maquiagem. Voltou com os lábios borrados de batom, muita sombra e muito ruge, equilibrando-se num olhar esquivo.

Passou a não conversar com as amigas. E a aparecer, logo de manhã, com a face pintada de forma intensa. Também desfilava com umas roupas mais coloridas e pretensamente sensuais, os bustos estourando a blusa floral de decote comportado. A estudante de Psicologia comentou ao vê-la assim pela primeira vez: "Isso me lembra festa junina!" E todas riram.

Mas a solteirona não se desconcertava mais, estava com a alma calejada. No dia seguinte, apareceu com as unhas pintadas de roxo, estrelinhas incrustadas no esmalte. Se chorava, fazia isso em casa, mas sabia disfarçar, pois os olhos não denunciavam as crises.

Tinha agora um projeto qualquer, uma vida secreta que lhe dava esta força. Apesar da aparência exagerada, da fama de louquinha, passou a subir na empresa, pois se dedicava com afinco ao trabalho. Teria enfim encontrado o Sr. Pênis? – as amigas se perguntavam e riam.

Foi um período curto de sossego. As colegas instalaram um sistema coletivo de espionagem contra ela. Confessaram falsas aventuras amorosas, na esperança de que ela revelasse seu segredo. Convidaram-na para sair no fim da tarde. Ela aceitou algumas vezes, mas só ficou ouvindo os comentários desbocados sobre os homens das mesas próximas. Nenhuma palavra disse sobre si nem sobre ninguém. E o brilho nos olhos indicava ou loucura ou realização amorosa. E isso inquietava o grupo. Começaram a oferecer carona para a solteirona, que sempre recusava. Com o pretexto de comemorar o aniversário dela, deram uma festa no clube ao lado da empresa, dizendo que podia trazer quem quisesse. Ela apareceu sozinha. Nem a mãe fora. Uma das amigas, sempre que podia, passava em frente à sua casa, mesmo tendo que fazer um desvio longo, mas nunca a surpreendeu com alguém no portão.

Numa manhã de sol, ela apareceu com uma aliança na mão direita. Ninguém teve coragem de perguntar nada. Mas conversavam entre si sobre o mistério. Enfim encontrara não um namorado, mas o noivo? Deveria constar na parte interna da aliança a identidade do amado. Se ela tirasse a aliança para fazer algo, poderiam ao menos tentar descobrir o nome. Alguém notou que depois deste advento, a maquiagem feérica abrandou um pouco.

As demais estavam arrasadas. A amiga mais feia, a solteirona da turma, com um mau gosto gritante para se vestir, moradora de uma vila distante, essa mulher não só sem atrativos mas coloridamente repulsiva estava sendo amada. Quem seria o louco? Só faltava ser um homem distinto, obcecado pela vulgaridade. Rezavam para que fosse alguém desclassificado e, isso ninguém confessava nem para sua própria consciência, um macho violento. Todas as manhãs, estudavam o rosto sob a maquiagem para descobrir as marcas da agressão. Nunca viram nada.

Pela primeira vez em anos, não apareceu no trabalho. As amigas torciam para que tivesse levado uma surra. Chegaria estropiada no outro dia, com um braço engessado ou algo assim. No fundo, todas temiam que tivesse se casado, sem falar nada a ninguém. Viria com a aliança na mão esquerda e um olhar de vitória.

Foi o gerente quem trouxe a notícia. Uma matéria de jornal, em que ela aparecia vestida para casar. As amigas gelaram de raiva ao ver a foto. Mas logo souberam de tudo e se acalmaram.

Ela tinha comprado um vestido de noiva num brechó, explicara para a polícia. Vestia-se à noite e tomava o rumo do cemitério, em busca de um jovem falecido décadas atrás. Havia uma foto dele no túmulo e ela se apaixonara pelo morto. Tinha vivido uma paixão intensa entre restos mortais. Dançavam, bebiam. (Ela fora presa com duas taças e um champanhe popular, os policiais desconfiavam que para fins de magia negra, ela explicara que apenas para brindar com o noivo). Na hora da prisão, entregou-se pacificamente. Podiam fazer com ela o que quisessem. Tinha sido feliz este tempo todo. Casara várias vezes com o homem de sua vida. Quais mulheres tinham experimentado esta emoção?

Tudo esclarecido, no dia seguinte foi solta, voltando imediatamente à empresa, agora com uma aura sagrada. As amigas não comentam nada sobre ela, nem mesmo a observam, enquanto ela se move altivamente, como se protegida pelo marido póstumo.

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