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Rodrigo Wolff Apolloni

Quinzinho e a experiência mística

  • Porrwapolloni@gmail.com
  • 07/07/2015 00:01

Sou apaixonado por religião. Não sigo nenhuma em especial, preferindo vadear pelas águas meio marotas daquilo que os especialistas chamam de “religiosidade fragmentária”, um compromisso com o sagrado manifestado em pequenas práticas supersticiosas resolvidas na correria. Vareta de incenso aqui, sinal da cruz acolá, tentativa de meditação, medo secreto de fantasma e de disco voador, apelo à benzedeira em caso de dor no joelho. Um sagrado diáfano e instrumental que, segundo a cigana da Praça Osório, arrisca ser o primeiro chamado de algo maior.

Enquanto a suprema revelação não vem, porém, testemunho coisas interessantes. Caso, por exemplo, da transformação de Joaquim – Quinzinho, para os chegados –, colega de trabalho que há alguns meses vivenciou uma experiência mística durante um acampamento na Serra do Mar. Fato é que o cidadão saiu para o fim de semana levando uma barraca e um engradado de cerveja no Gol Mil e, na segunda-feira, chegou ao escritório transformado.

Ele, que era um jaguara beberrão, mulherengo e praguejador, não é mais. Apenas mudou completamente. Anda mais quieto, mas sem estar amuado; traz um sorriso suave na cara que é quase o de um Buda de tenda esotérica; está mais solícito e mais paciente; passou, inclusive, a pegar leve nas peladas de fim de semana. Está até postando menos no Facebook. Verdadeiro milagre.

Quinzinho, que era um jaguara beberrão, mulherengo e praguejador, não é mais

Chato, mesmo, é que não entrega o serviço. Ao contrário de outros místicos fustigados pelo raio, não faz a menor questão de transmitir a boa nova. Se encontrou Jesus, um elemental ou um avatar de Vishnu, jamais saberemos. Simplesmente não catequiza: entrou na moita do Paraíso.

Ninguém, nem mesmo a mãe dele, sabe o que se passou naquele fim de semana nas fraldas do Marumbi. Encurralado pelos colegas, Quinzinho confessou apenas que era noite de lua cheia, arrematando a minguada revelação com um espantoso sorriso salvífico.

“Só pode ter sido um cogumelo que ele comeu”, opina a encarregada do almoxarifado. “Para mim, o caso é de abdução. Trocaram ele por um clone, por uma daquelas vagens alienígenas, saca?”, brinca o supervisor. Outro colega, temendo por sua alma, planeja levá-lo à igreja para que ele pare com esse negócio de ser tão feliz.

Vez por outra, me flagro olhando Quinzinho de soslaio, tentando descobrir qual é o santo que o santeia. Vez por outra, ele devolve o olhar, risonho da silva. Um dia, teologizo, boto uma barraca e um engradado de cervejas na Kombi e me mando para a Serra do Mar. E seja o que Deus quiser.

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