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Francisco Razzo

A caricatura da discórdia

  • 15/10/2014 21:03
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Pessoas não muito afeitas à política me perguntam como identificar e diferenciar as ideologias de esquerda e de direita. De imediato respondo: evite esses termos. São gastos pelo tempo e pelo imaginário da discórdia. Já não passam de espantalhos, e resquícios da polarização ideológica da Guerra Fria – embora sejam bem mais antigos. De todo modo, são inevitáveis. Muita gente os adota.

De intelectuais catedráticos a meninos na puberdade, muitos fazem questão de ser identificados como de esquerda ou direita. Leem autores considerados de esquerda ou direita, descrevem com nostalgia como a vida em países de esquerda ou direita é magnífica, escolhem políticos, escolas, roupas e, no extremo, até namoradas e namorados. Isso para não falar do risco de se ter uma sogra de esquerda ou direita.

Até ontem, pegava muito mal estar associado à direita; hoje, virou motivo de orgulho. Por outro lado, os desacreditados intelectuais de esquerda precisam reafirmar que a esquerda não teme dizer seu nome. Como o futebol está em baixa no país do futebol, trata-se de uma questão de identidade. Prova de que o desejo de autoafirmação política ultrapassa os limites dos rótulos.

Nesse sentido, torna-se inevitável o uso desses termos – pelo menos no que diz respeito à tentativa de identificar alguém que tem orgulho em ser chamado assim. Para evitar a paixão desmiolada dos adjetivos ideológicos, é preciso mapear os lugares-comuns de ambos os grupos. Não é difícil fazer um inventário dos termos elementares mais usados por eles.

Sempre e invariavelmente, quem se orgulha da esquerda chamará de "fascista" todos aqueles que não são ou desprezam a esquerda. Não interessa se o seu oponente for um liberal defensor da economia de mercado, um entusiasta do Estado mínimo, um católico distributivista ou um anarquista convicto. Para quem é de esquerda, não ser de esquerda é ser fascista. O que significa: ser simpatizante de ditador nacionalista, elite branca e torturador xenofóbico.

Por outro lado, os de direita adotam o termo "comunista" para os seus desafetos. O comunismo tem nesse contexto o mesmo peso constrangedor de chamar alguém de nazista. Não interessam as radicais diferenças históricas entre os dois regimes totalitários, não interessa a variedade histórica dos "comunismos". Só interessa uma coisa: a associação ao imaginário de morte e terror. Ser comunista é ser genocida e totalitário. E é isso o que seu amigo de direita pretende dizer quando chama você de comunista.

A esquerda odeia a "classe média" mais que tudo. Ódio explícito: a classe média é a razão para toda desgraça do país. Da enchente à falta d’água, do trânsito nas metrópoles à violência relacionada ao tráfico de drogas, do caso de suspeita de ebola à cracolândia. Não interessa: a classe média é o bode expiatório da esquerda. Se você, da classe média, for roubado, sequestrado ou queimado por bandidos, lembre-se sempre: para o seu amigo de esquerda, a culpa será sempre e inevitavelmente sua.

Já a direita tem uma tendência menos explícita para identificar culpados. Por isso, está sempre à procura de "agentes ocultos" e tem preferência por explicações de teor conspiratório. A culpa não é totalmente sua, você é só mais um idiota útil servindo à Nova Ordem Mundial, ao Foro de São Paulo ou ao marxismo cultural, cujos agentes estão infiltrados na Igreja Católica, no MEC, na Maçonaria, na festa junina. Enfim, a sua única responsabilidade é a de ser um idiota.

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