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Espaços culturais

Curitibano aprova concessão, mas admite desconhecimento

Pesquisa revela que 61% das pessoas acham positiva a terceirização do Ópera de Arame, da Pedreira Paulo Leminski e do Parque Náutico

A Ópera de Arame, um dos cartões-postais de Curitiba: concessão prevê obras de revitalização dos espaços | Daniel Caron/ Gazeta do Povo
A Ópera de Arame, um dos cartões-postais de Curitiba: concessão prevê obras de revitalização dos espaços (Foto: Daniel Caron/ Gazeta do Povo)

Seis em cada dez curitibanos aprovam a concessão da Pedreira Paulo Leminski, do Ópera de Arame e do Parque Náutico do Iguaçu para o gerenciamento da iniciativa privada. É o que revela levantamento exclusivo feito pela Paraná Pesquisas para a Gazeta do Povo entre os dias 2 e 6 de junho. Segundo o estudo, 61% dos entrevistados são favoráveis à medida e 65% aceitariam pagar mais para ir a eventos nesses locais caso a infraestrutura fosse melhorada.

Em 17 de abril, a prefeitura de Curitiba abriu um processo de licitação para terceirizar a gestão dos três espaços culturais por um período de 25 anos. O edital prevê investimentos privados de R$ 15 milhões em obras de revitalização das áreas e de readequação no caso do Parque Náutico, que se transformará em um novo local para shows, no bairro Boqueirão.

O trâmite ocorreu, entretanto, sem divulgação. O assunto só veio à tona no fim de maio, via redes sociais, e a repercussão foi imediata, com muitos protestos no meio cultural. Duas empresas apresentaram propostas para gerir os espaços: a Parnaxx e a DC Set. Os envelopes foram abertos no último dia 4 e o anúncio do vencedor deve ser feito no próximo dia 18.

Para o professor Paulo Chiesa, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o resultado favorável à privatização apontado pela pesquisa não revela necessariamente uma conivência do curitibano com a concessão de um bem público. Segundo ele, o panorama mostra que a população quer o patrimônio recuperado, independentemente da forma como será gerido – a Pedreira, por exemplo, está fechada desde 2008 por ordem da Justiça. "O curitibano não gosta de ver seus ícones destruídos. Há um apreço pelo bem público."

Para a professora Valquíria Renk, do curso de Turismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o estudo revela uma certa descrença do curitibano sobre o que o poder público pode fazer pelos espaços culturais. "O temor é que o espaço fique degradado", avalia.

Desconhecimento

A pesquisa também revela que a maioria da população desconhece a licitação. Dos 420 entrevistados, 64% disseram não saber do projeto de concessão dos espaços turísticos. Esse resultado, na opinião de Chiesa, é "extremamente negativo", pois mostra que há uma grande desinformação do morador frente a um fato polêmico que ocorre em ano eleitoral. "O curitibano aprova a iniciativa sem saber qual é o grau de consequência disso. Ele não tem a menor informação sobre o assunto." Para Chiesa, seria necessário que a prefeitura realizasse debates públicos sobre o assunto.

Para o vereador Jonny Stica (PT), um dos líderes do movimento A Pedreira é Nossa, o maior problema é a falta de divulgação da prefeitura sobre o processo licitatório. "Prefiro que [os parques] sejam geridos pelo poder público. Mas, se a intenção é terceirizar, que isso seja debatido com a população, e não que ocorra da forma como foi feito", diz ele, que entrou com uma ação pedindo a suspensão da licitação.

Frequência

54% dos entrevistados não visitam os parques

A pesquisa traz também um dado curioso: 54% dos curitibanos não frequentam os parques públicos da cidade. Além disso, dos 46% que costumam ir aos parques, 67% afirmam que vão menos de um dia por semana a esses locais. Apenas 5% dizem visitar os espaços de cinco a sete dias por semana. Dos 402 entrevistados, 51% afirmam que nunca foram a eventos em parques, na Pedreira Paulo Leminski ou na Ópera de Arame.

O resultado, entretanto, não deve ser visto de forma negativa, segundo o professor Paulo Chiesa, da UFPR. "Se quase metade diz que frequenta, estamos falando de um universo de 900 mil pessoas", lembra. Segundo ele, em alguns parques, regiões da cidade ou segmentos da população, a porcentagem pode ser maior. "Isso depende da distribuição dos espaços, da acessibilidade e do hábito de vida das pessoas."

A professora Valquíria Renk, da PUCPR, afirma que a degradação dos espaços também afasta os visitantes. "A tarifa de ônibus mais barata no domingo traz para os parques um público que, às vezes, não cuida bem do espaço e isso afasta o morador", opina, embora não exista nenhum estudo que relacione uma coisa a outra.

Ela acrescenta que no início dos anos de 1990 houve uma campanha para estimular visitas aos parques, pois se tratava de uma novidade. Hoje, segundo ela, isso deixou de ser novo e os curitibanos podem estar hoje optando por outros espaços, como os shoppings.

A favor

"Quem é contra não sabe como é difícil fazer show na Pedreira"

O diretor da produtora Seven Entretenimento Fábio Neves (foto) afirma que os parques e espaços culturais que serão terceirizados estão abandonados pelo poder público. Para ele, já que o poder público não dá a devida atenção para o setor cultural, a melhor forma é deixar a iniciativa privada gerir os espaços. "Nem em questões básicas, como educação e saúde, o governo investe", comenta.

A produtora que dirige já promoveu shows de artistas internacionais, como Pearl Jam e Avril Lavigne, em Curitiba. Ainda segundo ele, a situação na Pedreira Paulo Leminski é precária, em especial no palco. "Quem é contra a concessão é porque não sabe das dificuldades de se fazer shows naquele espaço", diz. No Ópera de Arame, segundo ele, a falta de cuidados fez a estrutura apresentar problemas no teto e na passarela que dá acesso à estrutura central.

Contra

"Curitiba não está em crise para ter de privatizar seu patrimônio"

Presidente da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) entre 1997 e 2000, Margarita Pericás Sansone (foto) é contra a concessão dos três espaços para a iniciativa privada. Na opinião dela, o poder público tem obrigação de investir e preservar os patrimônios da cidade. "Esses espaços nunca foram privatizados enquanto não tinham fama na cidade. Agora que todos conhecem, para que privatizar?".

Margarita questiona a justificativa da prefeitura, que aponta falta de recursos para gerir os espaços. Segundo ela, nem mesmo os países da Europa, em meio à crise econômica, precisaram terceirizar seus espaços públicos mais conhecidos. "Curitiba não está em crise para que isso aconteça. Faltam interesse e investimento da prefeitura. Daqui a pouco vão privatizar até as Ruas da Cidadania", ironiza.

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