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Abraham Weintraub
Ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub fala sobre liberdades individuais, marxismo cultural, período à frente do MEC e seu futuro político| Foto: Agência Senado

Ex-ministro da Educação no governo de Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub atualmente ocupa o cargo de diretor-executivo do 15º Distrito do conselho administrativo do Banco Mundial desde julho de 2020, pouco mais de um mês após deixar o posto de ministro. De lá para cá, tem acompanhado o dia a dia da política brasileira e se manifestado, principalmente pelas redes sociais, a respeito de diversos assuntos – o principal deles: as liberdades individuais em tempos de pandemia.

Recentemente, junto com seu irmão, Arthur, Weintraub, e uma equipe formada por advogados, produtores de conteúdos e demais profissionais, criou o Farol da Liberdade, uma associação sem fins lucrativos que tem como objetivo debater assuntos que envolvem direitos e garantias individuais e questionar judicialmente condutas de governantes que possam ser vistas como ilegais do ponto de vista das liberdades individuais.

Atualmente nos Estados Unidos, Weintraub disse à reportagem que seu tempo no exterior está se encerrando e que pretende voltar ao Brasil no máximo até 2022. Quanto ao futuro político, ele não confirma quais são seus planos, mas não descarta possível candidatura para o Executivo ou Legislativo.

Nesta entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Abraham Weintraub falou sobre liberdades individuais, monopólios econômicos e culturais, marxismo cultural, o período à frente do Ministério da Educação e seu futuro político.

Liberdades individuais e pandemia

Abraham Weintraub: É muito claro que na pandemia a vida de todos mudou. Mas mudou de uma forma drástica, sem consultarem as pessoas. Você não foi consultado para que sua vida fosse virada do avesso. Nós não demos poderes supremos para falarem que não podemos sair de casa para andar no parque, para vender fruta, para plantar, para trabalhar.

Em uma sociedade onde todo mundo tivesse a mesma voz e os mesmos direitos, todo mundo poderia opinar: a maioria decide, respeita-se o desejo da minoria e a gente segue a vida. Mas isso não aconteceu. Desde coisas menores a maiores, nossa vida está de ponta-cabeça.

Você não pode mais falar o que pensa; não tem mais acesso à informação (porque as Big Techs fazem parte desse movimento – se você for pesquisar, coisas que você encontrava antes, não encontra mais); não pode mais se locomover livremente... Na minha opinião, perdemos a liberdade, e para voltar vai ser difícil.

Vai ser difícil porque como ninguém deu autorização para que tudo isso fosse feito, como vai ser feito para que nos devolvam a liberdade que tínhamos? A gente entregou essa liberdade sem discutir, com medo, com ameaças, algumas pessoas foram presas... E agora temos que tentar reconquistar uma parte do que foi tirado. Para isso, a primeira coisa é conscientizar as pessoas.

Essa restrição de liberdade já é um “novo normal”. Há muito tempo, antes da pandemia, já se vinha alegando que o mundo precisava se adequar, que precisava de um novo paradigma. E a pandemia foi usada como subterfúgio para instituir essas mudanças. Hoje essa agenda não está aí só para salvar vidas, tem uma agenda maior de transformação do mundo ocidental.

Eu não sou contra as restrições para conter a Covid-19, sou contra o processo como foi imposto. Eu não sou contra restringir a circulação de pessoas, e sim à forma: como decidir o que é prioritário, como devem ser feitas as restrições?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) fala que tem que fazer atividade física sem máscara, aí a pessoa é proibida de andar sozinha no parque mesmo com máscara. Isso é baseado no que? Quem deu poder para as pessoas algemarem um cidadão com seus plenos direitos, que não tem passagem pela polícia, só porque não está andando como alguém determinou? Você tem as garantias e liberdades individuais e elas não têm sido respeitadas.

Atuação da polícia na pandemia

Abraham Weintraub: A polícia garante a manutenção do establishment. Não estou falando do policial – a função da instituição polícia é garantir que as regras sejam obedecidas. Eles obedecem quem está no controle.

O policial em si provavelmente é contra esse movimento de restrição das liberdades individuais, mas ele sozinho, se ele se rebelar, vai ser esmagado pelo sistema, pelo mecanismo. O indivíduo é esmagado pelo mecanismo. Ponto. O policial é uma pessoa de classe média, que tem um ofício, tem uma casa, provavelmente um carro ou uma moto. Ele tem alguma coisa a perder. E quando há um movimento totalitário, ele vai atrás do indivíduo que se rebela.

Eu sou um exemplo clássico. Eu fui um cara que se destacou um pouco e veio um martelo pra bater na minha cabeça. A quantidade de processos que levei foi enorme. As estruturas do mecanismo todo foram usadas contra mim. Isso foi feito por que se julgam muito acima do cidadão.

Farol da Liberdade

Abraham Weintraub: O Farol da Liberdade é uma associação sem fins lucrativos com uma equipe de mais de 20 pessoas criada para defender a democracia. Há uma atuação em várias frentes, desde o campo da instrução e divulgação de ideias ao campo jurídico.

O Estado não existe, o Estado é tijolo, é prédio. Quando se fala por aí que o STF decidiu ou que a prefeitura decidiu, quem decidiu foi uma pessoa, e na pandemia essa pessoa ficou muito mais poderosa do que nós, as nossas famílias. Mas não há legitimidade para isso.

Tudo isso é uma discussão inclusive para evitar mais abusos, porque não vai parar por aí. Se chegamos até aqui sem resistência ou com pouca resistência, essa agenda vai continuar avançando. E o Farol da Liberdade entra como um veículo para informação e mobilização para reagir dentro da lei. Além disso, também é um veículo para entrar com ações judiciais contra atitudes que nós consideramos inadequadas. Somos contra a tirania.

O marxismo cultural e os monopólios

Abraham Weintraub: Nós acreditamos que todos os homens são iguais e que nascem livres, e a partir daí tem o livre arbítrio para fazer suas escolhas e arcar com as consequências positivas e negativas das suas escolhas. E isso está sendo questionado. Esse paradigma, que ocorre não só no Brasil, mas no mundo todo, acontece a partir da concentração de poder político, econômico e cultural.

Aqui no Brasil, a criação de monopólios foi acelerada nos governos passados, e quando há uma concentração econômica muito grande é natural que haja também interferência política.

Existe monopólios em diversos segmentos: proteína animal, banco, supermercado, chocolate, papel e celulose... Até recentemente, antes dessa revolução tecnológica, o próprio fluxo de informações estava restrito a pouquíssimos veículos. Esse é o modelo de concentração de poder. Não há concorrência.

Poderia haver imposto para monopólios, mas não fazem isso porque esses grandes monopolistas já estão num estado muito avançado de controle político, inclusive. Não pode haver uma concentração de poder tão grande a ponto de dissociar um grupo de pessoas da grande maioria da população.

Esse é o caso dos monopólios das Big Techs, que começou lá atrás com a Microsoft, que perdeu um pouco de espaço por causa da revolução tecnológica. O que tem de novidade é que passaram a incorporar o marxismo cultural – que diminui os direitos individuais – no discurso.

O núcleo é o indivíduo e, a partir daí, a família. Quando se quebra isso (e é o que prega o marxismo abertamente), enfraquece o indivíduo, e ele aceita qualquer coisa.

Essa crise toda, essa pandemia, está gerando uma concentração de renda brutal. Se pegar o balanço de lucro das grandes corporações, o lucro é exorbitante. Bilionários ficaram muito mais ricos, mas quem pagou o preço? Foram criados mecanismos para a base ter um mínimo de subsistência, mas a classe média, o cidadão que seria a base da democracia, está sendo destruída. Só há democracia quando há classe média, isso quem diz é Aristóteles. Um contingente grande de classe média permite lutar contra os oligarcas e garantir os direitos individuais. Tudo isso está sendo comprometido.

Quanto ao aspecto religioso, o marxismo é contrário à religião o tempo inteiro. Todo regime totalitário tem uma “religião própria” do Estado e não admite concorrentes. Regimes totalitários querem a religião do Estado.

O marxismo pode ser visto como uma religião: tem os dogmas, os “profetas”, a liturgia, tem os hinos que cantam... E eles não aceitam concorrência. Então acabar com o Cristianismo, com as religiões bíblicas, faz parte da agenda.

Normalmente as pessoas veem o marxista como alguém contrário aos grandes magnatas. Pensa-se que o marxismo é incompatível com um grande conglomerado industrial ou financeiro, porque um seria inimigo do outro. Só que não verdade, isso mudou.

Em algum momento os grandes monopolistas entenderam a força do marxismo cultural e houve uma aliança, conseguiram chegar numa simbiose. O atual movimento totalitário tem uma grande concentração econômica de forma privada através de monopólios; e o caminho do marxismo cultural. Os dois pressupõem a concentração de poder e o enfraquecimento do indivíduo.

O maior obstáculo a isso são os valores judaico-cristãos com o racional greco-romano, que formam a base do ocidente. É isso que norteia o jeito da gente pensar, e nisso há uma força muito grande para o indivíduo.

A Bíblia tem um pressuposto muito forte que é o livre-arbítrio. Mais do que o livre-arbítrio, você é feito à imagem e semelhança de Deus. Então, de tudo o que há na terra, a coisa mais divina é o ser humano. Então o que é feito pela mão do homem é inferior à pessoa – logo, não posso me curvar diante de um ídolo, assim como não posso me curvar diante de um Estado que foi feito pela mão do homem.

Todo movimento totalitário, como o nazismo e o comunismo, tenta acabar com a força do indivíduo. E todo movimento totalitário odeia o Cristianismo, por que aí há a questão da unidade, do indivíduo. Quando você tem a unidade, você não vai acatar o partido. Karl Marx falava isso. A pessoa sempre vai procurar o que é melhor para os filhos e para a família, não para o partido – e isso enfraquece o movimento. E o que acaba acontecendo é que a família entra na mira.

Desde Adão e Eva, passando por Abraão até Jesus Cristo, há a questão do livre-arbítrio. Isso se repete várias vezes no velho e no novo testamento e dá uma força grande ao indivíduo. Tudo isso, no entanto, é destruído por meio do marxismo cultural. O novo normal é a aliança desses novos conglomerados com o marxismo cultural.

Ministério da Educação

Abraham Weintraub: Não saí frustrado do Ministério da Educação. A gente plantou coisas muito positivas quanto ao livro didático, ao Enem, e a principal que é quanto ao método de avaliação e exames. Em um ano de gestão, a avaliação do ensino médio melhorou mais do que nos 14 anos anteriores porque fomos fazendo não por amostragem, mas fizemos em todas as escolas. Agora sabe-se qual é a pior e a melhor escola no Brasil.

Houve uma resistência muito forte quanto a mim dentro do MEC. É um ambiente totalmente hostil.  No meu primeiro dia no MEC cheguei a levar um cuspe na orelha. Mas não me arrependo. Fiz o meu melhor, implantamos coisas bacanas. O método do Paulo Freire foi substituído no Programa Nacional de Alfabetização.

A única coisa que me arrependo nessa experiência é ter exposto minha família. Para eles não foi bom. Foram pra cima da minha família, das crianças. Como não abri margem para negociar, começaram a me ameaçar e depois ameaçaram minha família.

Uma cena famosa ocorreu em Santarém/PA. Eu tinha tirado uma semana de férias, estava sentado com minha família e militantes de uma ONG me reconheceram, me cercaram e começaram a protestar, a me ofender e me ameaçar na frente dos meus filhos. Eu estava com minha filha pequena no colo e eles gritando, me ameaçando.

Além disso, houve um monte de ameaças por telefone, por e-mail, por celular – inclusive dos meus filhos pequenos. Isso foi muito ruim. O medo: “papai vai ser preso?”. Tudo isso foi muito ruim. Eu não estava preparado, minha família não estava preparada para essa situação.

No dia em que fui embora [para os Estados Unidos], minha esposa chorou a noite inteira. Vim para cá e minha família se mudou para um lugar escondido com segurança privada. Só mais de 40 dias depois eles puderam vir para os Estados Unidos.

Leia também: Defesa de Weintraub lamenta intimação feita “pela mídia” e questiona decisão de Celso de Mello

Volta ao Brasil

Abraham Weintraub: Pretendo voltar nesse ano ou no ano que vem. Vou voltar e tentar ajudar nos rumos do país. Não sei qual é o papel que vai me caber. Eu não considero nem descarto o governo de São Paulo. Apenas estou disposto a ajudar. Se vai ser como parlamentar, se vai ser como um militante, não sei dizer ainda.

Temos um time, uma equipe que está crescendo. Estamos conversando com bastante gente. Sentimos que há uma demanda, há muito apoio ao que temos falado. Isso não tem a ver com a próxima eleição, e sim com um norte de posicionamento da sociedade. Eu acho que o Brasil ainda não vai ser Venezuela na próxima eleição.

Quanto ao Legislativo, também não descarto. Mas não é o mais importante. O momento do Brasil está tão incerto que o que mais importa é as pessoas se organizarem para não dependerem de uma só pessoa.

Live com Cristina Graeml

O ex-ministro Abraham Weintraub será o entrevistado da colunista Cristina Graeml nesta segunda-feira (12). A live está marcada para 18h30. Acesse o link abaixo, envie o seu comentário e acompanhe a live.

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