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GEADA NEGRA 40 ANOS

Memórias talhadas no gelo

Leitores que presenciaram a tragédia de 1975 contam o que viram e o que pensam hoje do episódio que marcou o Paraná

  • PorDiego Antonelli e José Carlos Fernandes
  • 17/07/2015 22:00
Depois do “dia da neve” que maravilhou Curitiba, cafezais paranaenses amanheceram queimados numa extensão jamais vista. | Reprodução/A.Kaiser
Depois do “dia da neve” que maravilhou Curitiba, cafezais paranaenses amanheceram queimados numa extensão jamais vista.| Foto: Reprodução/A.Kaiser

Há exatas quatro décadas, a Geada Negra dizimou as lavouras cafeeiras do Paraná, então o maior produtor brasileiro, com 850 milhões de pés. O “dia D”, 18 de julho de 1975, data em que os termômetros despencaram abaixo de zero, ainda está na memória dos que viram “o Norte se acabar”. Não é exagero: trata-se de um dos maiores golpes que atingiram as lavouras do país. Seus efeitos, tamanhos, ainda estão sendo digeridos.

A série

A série de reportagens Geada Negra foi veiculada pela Gazeta do Povo entre os dias 12 e 14 de julho. As reportagens contaram como a geada impactou a formação do Paraná até os dias de hoje. Pessoas que viveram aqueles dias de 1975 contaram como foi ver todos os pés de cafés queimados e como a vida delas mudou por causa da Geada Negra.

Leia a série completa.

O fenômeno climático legitimou a voz dos setores da sociedade que pediam o fim da monocultura cafeeira – à revelia das consequências que traria para a imensa população rural paranaense. A ocupação do campo reduziu 60% nos 40 anos que se seguiram– passou de 4,5 milhões de pessoas para 1,5 milhão.

A nova política agrícola afetou também as cidades, que receberam os órfãos das lavouras. Curitiba cresceu a índices de 5,3% ao ano na década de 1960, quando a falência das lavouras era uma crônica anunciada; e 4,8% ao ano na década de 1970. São índices altos demais quando se é preciso prover saúde e escola para os recém-chegados.

A série de reportagem Geada Negra 40 anos, publicada pela Gazeta do Povo entre os dias 12 e 14 de julho, motivou muitos leitores a contarem suas experiências vividas em 1975. Confira alguns relatos:

O Fusca

“Lembro-me bem daquele dia [18 de julho]. Morava em Nova Esperança [Norte do Paraná]. O meu Fusquinha ficou congelado, não pegava de jeito nenhum. Foi uma tragédia para a região.”

Valdir Francisco, artista plástico.

Não se apagará

“Eu tinha 7 anos na época e morava em um pequeno sítio em Ivaiporã [Norte do Paraná]. Lembro que algum tempo depois da geada foi arrancada toda a plantação de café, pois secou tudo. Passava-se um cabo de aço em volta do tronco do café e puxava com um trator. Não restou outra alternativa senão mudar para a cidade, já que meu pai tinha falecido e éramos em seis irmãos. É uma lembrança que não se apagará. “

Osvaldo Seixas.

Tchau, colegas

“Foi um dos dias mais gostosos da minha infância. Pudemos brincar no gelo, artigo de luxo na lavoura. Uma tia encheu uma vasilha de gelo com açúcar para a gente chupar. Foi em Lidianópolis [Norte do Paraná]. Os pés de café abasteceram os fornos por anos. Em 1976, a gente perguntou para a avó ‘que planta era aquela?’. Ela disse: ‘Feijão soja’. Depois vieram os pôsteres, mostrando cafezais carregados, mas lá em Rondônia. Os colegas da escola começaram a ir embora. Em cidades como Arapongas, apareceu o primeiro prédio. A paisagem mudou.’

Edson Ribeiro da Silva, professor.

Cheiro do frio

“Depois de 18 de julho de 1975, nunca mais fui o mesmo. Retirados os eventos familiares, talvez seja a data mais marcantes de minha infância. Nasci em Paranavaí, vivi três anos em Londrina, morava em Apucarana [no ano da geada].

Pés de café foram cortados. Para que dessem fruto de novo, seriam necessários três anos.Acervo Museu de Londrina/R. Kretch

Tinha 9 anos. Mesmo com todo aquele frio, fomos para a rua brincar. Naquele dia, as brincadeiras eram pisar na grama e ouvir o barulho do gelo quebrando, ver as roupas duras nos varais, passar a mão sobre os carros para tirar a espessa camada de gelo, arrancar lascas de gelo de torneiras e beber a água quase congelada, criar vapor com ar que saía da boca e sentir o cheiro do frio. Parece estranho, mas se frio tem cheiro, aquele foi o dia em que eu o conheci.

Ser paranaense, especialmente do Norte, na década de 70, era ter uma relação umbilical com o café. Entre as minhas lembranças de infância, a fazenda de café é uma das principais: o terreirão e as casas dos moradores formando pequenas vilas.

Estima-se que 300 mil agricultores ficaram sem emprego. Seu destino: a periferia das grandes cidades, onde muitos ficaram expostos à pobreza e à violência.Adriano Justino/Reprodução

Mas o que me torna mais saudosista é a recordação do cheiro de café na torradeira de bola, colocada muitas vezes em cima de um fogão a lenha. Depois, o grão era moído manualmente, com moedor à manivela, para finalmente ser passado em coador de pano. Marcel Proust escreveu que o olfato e o paladar nos levam ao passado. Toda vez que sinto o cheiro do café e o provo, a memória me leva para o Norte do Paraná.

O principal do 18 de julho de 1975 não foi o que ocorreu naquele dia, mas o desencadeamento do evento. Muitos saíram do campo e foram para as cidades. Muitos saíram de cidades pequenas e foram para maiores. Muitos saíram de cidades grandes e foram para a capital. Muitos saíram do Paraná. O 18 de julho nunca mais saiu das vidas de quem morava no Paraná naquela época.

Como paranaense, tenho convicção de que nunca mais fui o mesmo. Sinto ainda nos meus ossos o frio de 18 de julho . Minha alma paranaense mudou profundamente.”

Ricardo Rocha de Oliveira, 49 anos, engenheiro civil, professor da Unioeste. Mora em Cascavel.

Porcenteiros

“Eu lembro bem daquela manhã [18 de julho de 1975]. Quando a mãe abriu a porta da velha casa de madeira em que vivíamos, lá fora tudo estava congelado – as roupas no varal, a água no tanque e as plantas no quintal. Nós morávamos na Rua Guimarães Rosa, hoje um bairro nobre em Goioerê [Noroeste do Paraná]. Naquela época, até boiada passava na rua.

Já adolescente, entrei para o Grupo Teatral Águas Claras de Goioerê, o Grutac. Pesquisamos a vida de agricultores que eram chamados de ‘porcenteiros’ [ganhavam 40% do que colhiam]. Eles viviam com suas famílias em colônias . Eram explorados pelos latifundiários. Quando buscavam seus direitos, acabavam perseguidos e até assassinados. Com o trágico fenômeno da geada, os porcenteiros foram os mais prejudicados.

Sobre o espetáculo teatral O Porcenteiro, o Grutac ganhou vários prêmios e viajamos pelas principais capitais e festivais de teatro amador. Talvez o sucesso da peça tenha sido gerado pelas emocionantes histórias de vida de muitas pessoas do campo que foram abandonadas após aquele fenômeno meteorológico.”

Igo Martini, secretário de Direitos Humanos de Curitiba.

Mecanização

“Com certeza, a mecanização ajudou a minguar a cafeicultura. Porém, se não houvesse a Geada Negra de 1975, talvez o processo tivesse sido menos traumático. Há de se lembrar também que muitas pessoas tiveram sucesso se estabelecendo em outros lugares e dando oportunidade aos filhos de estudarem, o que não era possível no campo.”

Mário José de Souza, de Paranavaí, em Curitiba desde 1976.

Vida nova

“Meu avô materno perdeu algo em torno de 70% da fazenda... Meu pai era mestre carpinteiro e veio para cá [Curitiba] em 1978, já que na minha cidade [Ivaiporã] as coisas ficaram difíceis. O pai trabalhou em obras e acabou como professor no Detepar – dava cursos de pedreiro, encanador, eletricista, etc. Formou muita gente que vivia da agricultura, mas que teve de mudar de vida.”

Rô Santos, profes sora de História em São José dos Pinhais.

Tristeza

“Eu nasci em São Pedro do Ivaí [Norte do Paraná]. Quando veio a última geada [1975], acabou o fôlego da minha família. Tivemos que mudar do Paraná para São Paulo. Nós e muitas outras pessoas. Momento triste no estado.”

Fausto Viana, representante comercial.

Sempre

“Meus avós e bisavós sempre me contavam essa história [da Geada Negra] com muita dor. Para eles foi irreparável.”

Bruna Corcini, jornalista.
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