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Falhas aparentemente pequenas podem comprometer toda a investigação de um assassinato. Às vezes, a simples falta de um carregador de celular impede que os investigadores tenham acesso rápido à agenda de telefones e às ligações feitas pela vítima. Um aparelho quebrado no IML dificulta a produção de laudos. E a mera falta de iniciativa impede que a polícia saiba se a vítima sobreviveu ou não a um atentado. Veja nove situações encontradas pela Gazeta do Povo durante a análise da investigação de mil mortes ocorridas entre 2010 e 2013 em Curitiba:

1 - Repórter soube antes

Normalmente, o aviso de um assassinato à Delegacia de Homicídios acontece rapidamente. O Centro de Comunicações de Operações da Polícia Civil é o responsável por acionar investigadores e delegados para que eles se dirijam ao local do crime. Mas há casos em que a informação chega pela imprensa. No dia 28 de fevereiro de 2010, segundo registro dos investigadores no Inquérito no 2.301/11, um repórter de rádio avisou a delegacia sobre um homicídio no Tatuquara. O crime ainda não foi solucionado.

2 - A PM foi embora

Os policiais militares são os primeiros a chegar ao local do crime. Cabe a eles preservar a área para que nenhuma prova se perca. Em seguida chegam a Homicídios e os peritos da criminalística. Mas nem sempre a cena do crime é preservada de maneira adequada. Em 26 de março de 2011, a saída da PM do local do crime fez com que os investigadores ficassem impossibilitados de atender outra ocorrência de homicídio no Sítio Cercado, segundo relato nos autos no 24.757/11. Eles tiveram de aguardar a chegada do IML ao local, onde havia "grande concentração de populares".

3 - Sem carregador de celular

Os inquéritos revelam a falta de equipamento para os policiais trabalharem. Na investigação de uma morte em 30 de março de 2011, por exemplo, os policiais recolheram o celular da vítima. Em 4 de agosto, segundo o Inquérito no 28.805/11, eles disseram que o celular estava sem bateria e que não conseguiram carregá-lo. "Acreditamos que somente a Criminalística possa resolver esse problema", escreveram no inquérito. Três meses depois, a delegacia solicitou à Criminalística o exame pericial no celular. A análise foi feita em 13 de dezembro de 2011.

4 - Aparelho quebrado

A falta de estrutura na Polícia Científica também ficou evidente. Ao analisar o sangue de um jovem morto em 10 de fevereiro de 2010, o laboratório informou no Inquérito no 7.103/10 que não conseguia fazer exames para detectar maconha. O equipamento não estava funcionando. Na investigação de uma morte de 29 de fevereiro de 2012, a polícia solicitou aos peritos que analisassem um computador. A resposta deles, nos autos no 1.972/13, foi de que não podiam estipular prazo para o laudo, pois existia apenas uma licença da ferramenta para esse tipo de perícia e 2,5 mil solicitações pendentes.

5 - Lentidão prejudicial

Quando testemunhas resolvem falar, nem sempre os policiais fazem o seu trabalho com rapidez. No Inquérito no 10.759/10, a delegacia levou dois anos para pedir que fossem intimadas três pessoas que, segundo o suspeito, teriam participado do crime. E se há demora em requisitar provas técnicas pode ser que elas nem existam mais. No caso no 2.718/10, ao investigar a morte de um jovem dentro de um carro em 16 de março de 2010, policiais solicitaram dados da passagem do veículo pelos radares. O pedido oficial foi feito em 27 de junho de 2012. Porém, registros de imagens só ficam arquivados por seis meses.

6 - Onde foi o crime?

Nos casos em que a vítima morre depois de ser levada ao hospital, a polícia tem dificuldade em saber onde ocorreu o crime. A investigação da morte de um adolescente de 16 anos, em 15 de fevereiro de 2010, tramitou durante anos sem essa informação, conforme mostra o Inquérito no 2.803/10, embora o Siate pudesse prestá-la, já que foram os socorristas que atenderam a vítima. Mas a delegacia só enviou ofício ao Siate requisitando a cópia do registro da ocorrência em 10 de abril de 2013 – mais de três anos após a morte. A resposta não tinha chegado até o início de maio último.

7 - Morreu ou sobreviveu?

Em 12 de janeiro de 2010, na CIC, um servente de pedreiro de 37 anos foi baleado dentro de casa e encaminhado ao hospital. Ninguém sabe quem atirou nele. Catorze meses depois, em março de 2011, um novo delegado assumiu o caso no 1.980/11 e percebeu que a polícia jamais havia verificado se a vítima havia sobrevivido. O delegado mandou fazer a verificação, mas a equipe estava sem viatura. Mais dois meses se passaram até que a polícia descobriu que o pedreiro morreu poucos dias depois do atentado. O caso foi arquivado sem solução.

8 - Sem comunicação

Policiais do 11º Distrito Policial levaram um ano para descobrir que o suspeito por um homicídio estava preso. Eles investigavam uma morte ocorrida em 14 de março de 2010, cuja autoria se sabia desde 8 de abril de 2010. Por causa disso, a Delegacia de Homicídios encaminhou o caso no 4.732/10 ao distrito. Ao ir ao local onde o suspeito morava, em maio de 2012, os investigadores descobriram que ele estava preso havia um ano na Penitenciária Central. O suspeito é interrogado somente em 5 de junho de 2012.

9 - Trabalho duplo

Apesar do acúmulo de casos, a polícia já chegou a fazer trabalho duplo. Delegados abriram diferentes inquéritos para investigar a mesma morte. O homicídio de um jovem ocorrido em 8 de março de 2011, no Prado Velho, por exemplo, foi apurado em dois inquéritos distintos. Em um dos autos (no 28.176/11), aberto em 20 de julho de 2011, a vítima foi identificada pelo apelido; e em outro, de 23 de agosto do mesmo ano (no 31.185/11), consta seu nome completo.

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