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Jamil Zugueib Neto

O Tratado de Zugueib

Jamil se pergunta o que leva os homens a se matarem por uma terra ou mesmo por um time de futebol. Para responder, subiu montanhas, cruzou oceanos e vasculhou a própria memória. Nela encontrou a “Guerra do Pente”

  • Rosana Félix e José Carlos Fernandes
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O fim do conflito entre árabes e judeus está longe de acabar. Mas na casa número 1 de uma pequena rua do Abranches, atrás da Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, a paz é possível. E não é de hoje. Ali mesmo, no quintal, debaixo de uma cerejeira e do latido da cachorrada, o psicólogo social Jamil Zugueib, 62 anos, já promoveu uns tantos colóquios sobre o Oriente Médio e outros embates da hora.

Veja as fotos dos bastidores da entrevista

Jamil Zugueib Neto mostra os pontos principais da Guerra do Pente na Praça Tiradentes. Assista

?Sou um libertário?, gaba-se entre baforadas de Marlboro o homem calvo de cabelos longos, em golas de padre, sotaque indecifrável ? uma figura que parece saída dos livros de Milton Hatoum ou Raduan Nassar. É meio Che Guevara meio monge João Maria, mas tão familiar quanto nosso vizinho árabe mais próximo, e não são poucos. O ?turco? Jamil, como é chamado ? sem se importar com o erro que costuma deixar sírios e libaneses a três palmos do chão ? tem de fato um deserto e mais 1001 histórias no currículo.

Professor do curso de Psicologia da UFPR, pesquisador de comportamento em situações de conflito social, fez trabalhos em hospitais psiquiátricos e no Instituto Médico Legal. Nos anos 1990, iniciou um intercâmbio de estudos no Líbano, o que lhe permitiu proezas como subir a montanha e ter com os ?drusos?, etnia ?nada confiável? da qual tanto seu pai falava.

À moda árabe, há dois anos devolveu a hospitalidade brindando os conterrâneos com seus estudos sobre uma história que presenciou na infância, ocorrida em 1959, na Praça Tiradentes ? a Guerra do Pente. ?Foi uma manifestação de xenofobia, sim?, afirma, sobre o quebra-quebra iniciado num bazar libanês, mobilizando cerca de dois mil manifestantes no Centro. Foram 181 casas comerciais. E um exemplo da bestialidade das massas.

Você já sofreu discriminação por ser árabe?

Não. Mas por ser um pouco diferente dos curitibocas, sim. [risos] A culpa de algum curitibano ser tão arredio deve ser do pinhão. Só pode ser essa a explicação. Tem alguma coisa ali...

O que significa seu nome em árabe?

Jamil quer dizer ?bonito?, ?gente boa?. Zugueib se refere às penugens de um passarinho. Mas aqui sou o turco Jamil, o Turquinho. Acho carinhoso.

Já rolou algum conflito com as origens?

Bom, já fiz de tudo na vida. Fui, inclusive, jornalista em uma revista de turismo. [risos] Corria atrás de anúncios e falava com gente de todas as etnias. O árabe me parecia o mais pão-duro. Foi quando comecei a idealizar. Gostaria que fossem mais graduados. Acho que a gente podia ter representatividade cultural mais forte. Por exemplo, o nosso vice-presidente, Michel Temer. Ele é árabe, mas o que ele tem de árabe? De quem mais dá para falar? Do Maluf? Nem pensar.

Como é uma casa libanesa?

A principal marca é a ?anfitrionice?. As famílias são muito alegres e gostam de receber bem. A mulher árabe, pelo menos em países como Síria, Egito e Jordânia, é muito forte e tem orgulho dos filhos. É parecida com a mãe italiana ? histriônica, berra, chora, fica junto. Mas a família árabe, quando é um pouco mais intelectualizada, tem um quê de melancolia. Acho que é porque muitos vivem no sonho do despontar da cultura árabe do ano 1000. O grande Salah Ad-Din (1138-1193) ainda é o paradigma do guerreiro valoroso e honrado. Foi um grande líder contra as Cruzadas, defendeu Jerusalém e a tomou dos cristãos sem matar ninguém. Dominou grande parte do mundo árabe. Tinha uma tradição da palavra, da honra, de lutar com dignidade.

Como os árabes veem o Brasil?

Acham que é o Éden. Carnaval, caipirinha, churrasco e dinheiro para ganhar. Além do futebol. Na Copa do Mundo, em Damasco torciam pelo Brasil. Vi cidades cheias de bandeiras. Sempre criamos estereótipos, principalmente quando estamos muito longe. Aqui estamos no bairro Abranches, muito longe. [risos]

A gente pensa na cultura, lembra de João Bosco e Wally Salomão... Vocês não se dizem árabes o tempo todo, a exemplo de outras etnias...

É do árabe a vontade de se abrir para outros povos. Por isso caba sendo mais extrovertido. Tem a ver com o deserto. Quando chegava o comerciante, era bem tratado, discutia-se o preço e depois os dois tomavam chá para saber das notícias de onde o forasteiro vinha. A relação é de clientelismo. Vocês já leram Árvore do Dinheiro, de Emil Farhat? É um livro belíssimo. Uma das fantasias no Líbano era de que aqui dava dinheiro nas estradas.

O pessoal do Ministério dos Transportes deve ter lido...

Os árabes são considerados os bandeirantes do século 20. O Marechal Rondon achou um livro em árabe no meio da Amazônia. Dizem também que muitos libaneses lutaram na guerra de fronteiras com a Bolívia, junto com os brasileiros. Os judeus pagavam impostos para o mundo árabe, mas eram melhor tratados do que foram pelos cristãos na Santa... Santa o quê mesmo? Ah, Santa Inquisição.

Como seu pai libanês reagiu ao saber que você iria estudar Psicologia...

O sonho do meu pai era que eu fosse militar. Eu iria para a Aeronáutica. Mas a leitura de Monteiro Lobato fez com que eu me interessasse pelo mundo grego, e, já no ginásio, pela Filosofia. Um dia falei com o padre Emir Calluf para saber a diferença da Psicologia e da Psiquiatria. Pronto, escolhi. Meu pai ficou triste: ?O que é esse troço? Que coisa horrorosa. Vai ficar pobre.? [risos]

Ele viveu para ver essa casa atrás da Pedreira Paulo Leminski?

Sim... tenho até uma carta em que ele me diz que aqui [Abranches] era um perigo, e que eu não o escutava ... Meu pai viveu 94 anos. Aos 90 ainda dirigia e batia o carro para burro.

Seu pai, enfim, foi determinante, como nos livros do Milton Hatoum e Raduan Nassar...

Tenho passaporte libanês, mas sou brasileiro. Meus pés estão aqui, nas várzeas do Rio Iguaçu. Tal qual o Caetano Veloso falou: pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei. Meu pai colocava música árabe aos domingos, comíamos kibe e ele ficava lembrando do Líbano. Falava muito da etnia drusa, que realmente era muito perigosa. Isso ficou gravado na minha memória. Mais tarde, para saber quem eram os drusos, fui até lá e subi a montanha. Me atenderam. Mas há um ditado: ?Para comer, vá na casa de um druso. Para dormir, na casa de um cristão.? Um druso te trata muito bem, mas pode te matar à noite.

Você virou objeto da sua própria pesquisa?

Fiquei emocionado com minha pesquisa. Eu nem imaginava chegar lá. Começaram a vir imagens, o que tenho parecido com meu pai, com a família. Mas brasileiro é diferente. Depois, em viagem à Síria, onde tudo é esturricado, eu estava louco para vir embora. Minha terra tem palmeiras onde cantam o sabiá. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Gosto muito de pássaros, e lá tinha dois ou três passarinhos vagabundinhos.

Qual o lugar da loucura e da histeria no estudo?

Eu trabalhei muito em hospital psiquiátrico. Agora, pesquiso resistência psíquica em tempos de guerra. O que faz alguém gostar tanto de uma terra a ponto de defendê-la com a própria vida? Sei lá: é como um torcedor do Coritiba e um atleticano. A camisa rubro-negra só se veste por amor. Atlético até morrer [risos] Comecei essa história com o Lampião, lá na infância...

Conte para nós...

Minha avó por parte da mãe, uma russa-prussiana, contava muitas aventuras do Lampião. Foi sobre ele o primeiro livro que comprei, aos 14 anos. Sempre fui fascinado por figuras marginais, na linha dos ?rebeldes primitivos?, dos quais fala o historiador Eric Hobsbawm. São os bandidos de honra, como o Lampião e o Robin Hood. Sabe como é que o cara entrava para o cangaço? Rompia com a namorada e fugia com o bando. O Lampião virou cangaceiro depois uma briga por causa de um bode. Loucos daqui e de lá. Muda o imaginário. Muda a vestimenta do delírio.

E as massas? São seu tema...

A massa é perigosa. Gustave Le Bon as estudou. O Freud também. No anonimato essas pessoas são um perigo, pois têm a possibilidade de jogar a agressividade. Na turba, o controle intelectual é baixo. É muito fácil despertar o nacionalismo nessas horas. As pessoas ficam numa posição protopolíticas. O narcisismo junta com a bandalheira.

Como você vê as revoltas da Primavera Árabe?

Formidável. Em Damasco, na Síria, floresceu porque o povo não aguentava mais o Bashar Assad. Claro que saem na imprensa mentiras sobre o mundo árabe, como na execrável Veja. Tem gente que manda dinheiro para o Hezbollah, claro, mas não há quem, morando aqui, vá servir o exército em Israel?

Alguma rusga com os judeus?

Tenho amigos judeus, trabalho, estudo com eles. O que faz o homem é a palavra dele, a conduta. Em Jerusalém pedi informação na rua para um hassídico, que é bem radical. Ele não respondeu, cutuquei com o dedo. Ele quase cuspiu na minha cara. Se me desse um tapa eu revidaria. Seria uma briga feia...

Seria uma Guerra do Pente em Israel...

[risos] Sim, mas lá o clima é muito mais pesado. As feridas estão abertas desde as Cruzadas...

Você pesquisou a Guerra do Pente. Essa história lhe pertence?

Lá pelas tantas, comecei a relembrar da minha infância no Uberaba, no meio de ucranianos. Eu escutava: ?Hei, turquinho, veio roubar o Brasil?? A recordação da Guerra do Pente veio junto.

Foi mesmo uma manifestação de rejeição aos árabes na cidade?

Claro... Saibam vocês que saiu no jornal do Líbano algo como ?quebra-quebra contra os libaneses em Curitiba?. O Gemayel chegou a se manifestar, dizendo: ?Libaneses, protejam meus irmãos que estão em Curitiba?. Os manifestantes gritavam um refrão: ?O Brasil é de brasileiros, não é de estrangeiros?. Havia o preconceito contra o árabe, tachado de fechado, de dinheirista.

Mas guerra poderia ter acontecido no bazar de um judeu da Tiradentes?

Sem dúvida. Não podemos esquecer que havia a campanha ?Seu talão vale um milhão?. Era dinheiro para burro. O pessoal pedia nota. O cara pediu para o árabe, eles se estranharam e o sujeito falou um palavrão, e palavrão para um muçulmano. Eles não admitem. Foi por causa disso que tudo começou. Mas era xenofobia. Tanto é que no segundo dia da guerra, quando os manifestantes desceram a Praça Tiradentes, assustando os árabes da Casa 3 Irmãos, na Dr. Muricy. Um deles deu um tiro no chão. Foram dando murro no sujeito até a Praça Zacarias. Ele foi parar no hospital, em estado grave. Depois virou bagunça. A massa não tem forma, vai pelo impulso.

Onde você estava em 8 de dezembro de 1959?

Eu tinha uns 11 anos e estava na casa de uma tia. Lá pelas 6 horas da tarde, meu tio falou que estava comendo o pau na Tiradentes porque um turco vendeu um pente e o cara pediu a nota. No dia seguinte, vi a loja do árabe quebrada. Tinham arrancado até as portas.

Tudo se deu em que ponto da praça?

A Tiradentes era a Turcolândia [risos], como diziam. Mas começou onde hoje tem a loja Xiquitas era o Bazar Centenário. Do lado tinha uma um corredor, onde funcionava a Casa Feres, ?pequena por fora, grande por dentro?. Na época, o Osmann de Oliveira trabalhava na Rádio PRB2. O pessoal da periferia o ouvia muito. Ele estava passando no momento do quebra-quebra, lá pelas 17 horas, começou a transmitir e ata bateu o microfone na cabeça de um manifestante que ia jogar um paralelepípedo no Feres. Um delegado, que também era turco, ligou para a emissora pedindo para cortar a cobertura. Mas o pessoal das periferias já tinha ouvido. No dia seguinte, às 8 horas da manhã, o povo se aglutinou na Praça Tiradentes outra vez. Um cara gritou ?quebra? e começou tudo de novo.

Foi guerra com planejamento...

Parou quando a garoa veio [risos]. O Luiz Geraldo Mazza, inclusive, abriu a série de crônicas publicadas pela Gazeta do Povo, nos 300 anos de Curitiba, fazendo gozação: ele conta que o tanque de guerra que veio do Boqueirão quebrou e os manifestantes queriam empurrar... [risos].

O Ale, um dos filhos do Haji, fala que havia inveja porque a loja estava crescendo, pagava caminhonete para fazer propaganda nos bairros. Outra hipótese é que o cliente do pente teria dito que foi na Casa da Pechincha, de um judeu, e que lá fora bem atendido. Uma provocação. Chegaram a dizer que tudo nasceu de uma orquestração do Partido Comunista.

Loucura...

Outra condicionante é que havia gente saindo do trabalho naquela hora. E um boteco do lado da loja. Os caras do bar entraram na onda. É o lúmpen proletariado de qual falo. Atrás vieram os desocupados, os loucos pirados de tudo que é espécie. A Maria do Cavaquinho estava lá. O Sacarrolha. O Chupeta. Provocavam os meninos para jogar mais pedra. Os abilolados são atraídos pela massa. Me lembra o que li sobre a Queda da Bastilha. Uma das pessoas que atiçaram a rebelião foi uma mulher pirada, que acabou num hospício, comendo fezes. Quando liberaram Paris daquela loucura via-se bêbado de tudo o que é lado. Aqui não foi muito diferente.

O que mais surpreendeu na pesquisa?

Achava que o Haji tinha ficado marcado. Imagine o que significou para um ?turco? ter loja toda quebrada, ainda mais nas vésperas do Natal. [risos] Mas em três dias ele já estava trabalhando. Era um sujeito que adorava os filhos. Colocou-os para estudar no Santa Maria, o melhor colégio da época. Ali, os garotos fizeram contato com a alta burguesia da cidade. Haji tinha prazer de receber os amigos dos filhos na casa de fundos da Tiradentes. Ele servia almoço para turma toda e era criticado na comunidade por isso.

Que interesse esse episódio despertou no Líbano?

Estive numa universidade maronita. Acabei contando a história para doutorandos. Eu estava falando de um recalque, mas também da vontade de vencer, o que para o libanês é muito forte. Haji partiu para frente, assimilou o Brasil, isso agradou muito, porque é um valor para os libaneses. Me vejo assim: sou um libertário, tenho a cultura árabe, mas sou brasileirinho da silva.

Estamos sempre à espreita de uma guerra do pente...

A etnização do mundo está perigosa. O mundo está caminhando para uma agudização de sentimentos. E tem o individualismo. Hoje mesmo na CBN ouvia sobre o Dnit. Como o povo aceita isso, cadê a UNE? Os diretórios acadêmicos não fazem nada. No meu tempo era filme, debate, hoje fazem gincana. São crianças. Acho que estou velho.

Você se incomoda muito com os shows da Pedreira?

Um pouco. Extrapolam o som, as janelas da minha tremem. Por que não trocam os horários? Podia começar às 18 horas e acabar às 23 horas. O José Carreras cantou aqui uma vez. Fui, voltei cedo, uma beleza. Teve um de heavy metal na Pedreira que durou até de manhã. Não dá.

O Tratado de Zugueib

Jamil se pergunta o que leva os homens a se matarem por uma terra ou mesmo por um time de futebol. Para responder, subiu montanhas, cruzou oceanos e vasculhou a própria memória. Nela encontrou a “Guerra do Pente”

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