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Guerra do Paraguai

“Voluntários” de uma pátria despreparada

Reportagem: Diego Antonelli
Fotos: Marcelo Andrade
Parte 2:

Ao invadir o Mato Grosso em dezembro de 1864, Solano López estava convicto de sua atitude. Bastava olhar para o exército paraguaio, com cerca de 70 mil homens prontos para a batalha. No Brasil, as tropas não chegavam à metade do contingente do adversário: 18 mil membros. A Argentina, por sua vez, tinha seis mil soldados, segundo o historiador Francisco Doratioto.

Se o império brasileiro não quisesse sair derrotado, era preciso reverter o quadro. Nessa época, não havia obrigatoriedade do serviço militar. O alistamento só passou a ser obrigatório por lei em 1908. A “solução” foi baixar o decreto 3.371 de 7 de janeiro de 1865, determinando a formação dos Voluntários da Pátria. Ou seja, civis que não tinham recebido qualquer treinamento militar durante a vida foram recrutados para uma sangrenta batalha. Era permitida a participação de todos os cidadãos maiores de 18 anos e com menos de 50.

Imagem - Soldado voluntário da pátria
Voluntário da Pátria

“Os Voluntários da Pátria foram uma resposta natural buscando mobilizar a população. No começo teve uma resposta espontânea da população, mas depois muitos foram forçados a ir para a batalha”, afirma Doratioto. Todos que se apresentassem ganhariam 300 réis diários depois da guerra e mais 2,5 alqueires de terra. Eles teriam baixa depois de terminada a guerra – se assim fosse de sua vontade. As famílias dos voluntários que morressem no campo de batalha, ou em consequência de ferimentos, teriam direito a uma pensão vitalícia. Os que ficassem inutilizados por ferimentos receberiam soldo dobrado.

Além de se valer dos “voluntários”, o Brasil conseguiu aumentar para 60 mil a 70 mil homens no primeiro ano das hostilidades com o uso do efetivo da Guarda Nacional. No país, calcula-se que entre 120 mil a 150 mil homens foram mobilizados para a guerra. Alguns pesquisadores chegam a estimar que 200 mil brasileiros foram para a batalha.

O historiador Ricardo Salles, autor de Guerra do Paraguai – Escravidão e Cidadania na Formação do Exército, ressalta que as tropas dos voluntários eram pouco preparadas antes de ir para os campos de batalha. “O corpo dos voluntários foi engrossado pelo da polícia e o recrutamento de civis.”

Uniformes militares

Imagem - Soldado Argentino
Soldado Argentino
Imagem - Soldado Uruguaio
Soldado Uruguaio
Imagem - Soldado Paraguaio
Soldado Paraguaio
Imagem - Soldado Brasileiro
Soldado Brasileiro

Insuficiente

Porém, o efetivo mostrou-se insuficiente. Uma das respostas encontrada pelas forças imperiais foi arregimentar escravos de propriedade do Estado e alguns de propriedade particular (libertados em troca dos serviços na guerra). “Escravos também se apresentaram ou foram recrutados. Muitos fugiam e se alistavam como homens livres, outros eram libertados para a guerra por seus senhores, como substitutos, isto é, no lugar de outra pessoa; em troca de indenização pelo governo”, explica Salles.

Segundo ele, entre 7% e 10% dos combatentes eram formados por pessoas libertas. Salles salienta ainda que um número elevado de soldados, não menos que 50 mil (alguns estimam em até 100 mil) não voltaram. Muitos morreram em consequência de doenças, fome, variações climáticas e exaustão física.

“Desajustados” encorparam as tropas do Império

O recrutamento para encorpar as tropas de voluntários recaía, geralmente, sobre a população mais humilde. “Pobres, vadios, mendigos, ciganos, enfim, os que não estavam ajustados às normas da sociedade imperial eram os que mais sofriam”, diz o historiador Edilson Brito.

A partir de julho de 1865, o processo se intensificou de tal modo que qualquer indivíduo passou a ser passível de recrutamento. “Para o governo, o recrutamento deixou de ser uma profilaxia social usada para restringir a mobilidade dos pobres livres, ou uma forma de punição aos ‘indesejáveis’ da sociedade. Em relação à população, deixou de ser uma eventualidade para tornar-se um medo constante.”

Segundo Paulo Queiroz Duarte, o primeiro batalhão de voluntários (743 homens oriundos do Rio de Janeiro), embarcou para o Rio Grande do Sul em 5 de março de 1865, dois meses após o decreto. O Ministério da Guerra alistou 10 mil voluntários no primeiro ano.

Militares Brasileiros

Imagem - Diário de Guerra - Tríplice alicança é formada

Em fevereiro de 1865, os colorados conseguiram derrubar os blancos do governo uruguaio e mantiveram a aliança com Argentina e Brasil na ofensiva contra o Paraguai, formando a Tríplice Aliança. Os objetivos dessa união, assinada em 1º de maio de 1865, eram: derrubar a ditadura de López; ter livre navegação nos rios Paraguai e Paraná; anexar o território reivindicado pelo Brasil no nordeste do Paraguai e pela Argentina no leste e no oeste paraguaio.

O mito Solano López

Imagem - Solano Lopez - Créditos: Aurelio García
Solano López - Pintura de Aurelio García

Na visão histórica nacionalista difundida por anos pelo governo paraguaio, Solano López, morto em 1º de março de 1870, é visto como um mártir, que tentou desenvolver o Paraguai de forma autônoma. “Nessa perspectiva, ele é o que os paraguaios queriam que tivesse sido. É um herói inventado”, diz o historiador Francisco Doratioto. Segundo o também historiador Herib Caballero, da Universidad de Asunción, López divide opiniões até hoje. “Para alguns foi um tirano que foi culpado pela guerra. Para outros é o máximo de nacionalidade.” Para o especialista, é preciso interpretar López em seu tempo como um homem imbuído de ideais românticos, convencido que tem de sacrificar sua vida pela pátria. “A visão clássica é de que sua entidade é um herói. Dentro da visão antilopista, se quis culpar ele pela guerra durante muito tempo. É impossível que uma só pessoa seja responsável por uma guerra que reuniu tantos países.”

Divisão paraguaia

Imagem - Luiz Floretin, 69 anos, aposentado
Luiz Floretin, 69 anos, aposentado

O aposentado Luiz Floretin, 69 anos, acha que López não soube dialogar com outros países durante a guerra. “O Paraguai não tinha tropa militar para entrar nesta guerra. Muitas pessoas morreram de enfermidades, fome e sede. Foi uma lástima para o país.”

Imagem - Victor Velasquez, 28 anos, estudante
Victor Velasquez, 28 anos, estudante

Victor Velasquez, 28 anos, estudante de sociologia na capital paraguaia, considera López um homem fiel, “que defendeu a terra guarani”. “O Paraguai estava em processo de desenvolvimento. Pelos padrões da época, era uma potência na região. Um conflito marcado pelo interesse econômico. Se não tivesse a guerra, creio que haveria outra forma para estrangular o crescimento paraguaio.”