Diretora Cleuza Santos Bizarria: 70 computadores aguardam reparo | Albari Rosa/ Gazeta do Povo
Diretora Cleuza Santos Bizarria: 70 computadores aguardam reparo| Foto: Albari Rosa/ Gazeta do Povo

Planejamento

Falta projeto pedagógico, diz especialista

O projeto Um Computador por Aluno (UCA) representa não apenas um avanço na área de educação, mas uma mudança social. Para que isso se concretize, contudo, é necessário aprimorar a estrutura das escolas e a formação dos professores. A avaliação é do pesquisador Antônio Carlos Conceição Marques, mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), que estudou as primeiras experiências do UCA no Brasil.

Para Marques, o maior problema está na falta de um projeto pedagógico voltado para o uso do computador em sala de aula. "Os cursos de formação dos professores se baseiam no mero usar o laptop. É preciso uma mudança de paradigma, pensar a distribuição do tempo e o currículo das escolas a partir do uso da tecnologia", avalia. No atual cenário, onde o principal aparato de ensino ainda são o quadro negro e os cadernos, o pesquisador acredita que o computador acaba sendo apenas uma ferramenta a mais.

Na opinião de Marques, o UCA pode ter um alcance bem maior do que apenas servir como aparato educacional. "Se bem conduzido, esse projeto pode representar uma revolução social. A partir do momento que o estudante ganha um computador e pode levá-lo para casa, possibilita que sua família também seja incluída digitalmente".

Para os professores, a experiência de utilizar o computador na sala de aula é uma novidade com a qual ainda estão se adaptando. "No começo tive bastante dificuldade, já que eu não tinha muito conhecimento de informática. Mas com a ajuda de outros professores e dos próprios alunos fomos nos adaptando", diz a professora Sirlene de Farias, que tem 14 anos de magistério e há quatro atua na Escola Cícero Bittencourt Rodrigues, em Santa Cecília do Pavão.

Já os estudantes aprovaram a entrada da tecnologia, ainda que ela não sirva apenas para o aprendizado. "O computador ajuda nos trabalhos, mas, quando posso, aproveito para jogar um pouco também", admite Cleverson de Oliveira, aluno da 7ª série do Colégio Jerônimo Martins. (AG)

Brasil

Outros estados têm a mesma dificuldade

As dificuldades técnicas enfrentadas com o programa Um Computador por Aluno (UCA) não se restringem apenas às escolas paranaenses. Em estabelecimentos de dois outros estados, as diretoras também apontaram entraves para garantir o bom funcionamento dos computadores. Demora no atendimento e problemas no acesso à internet foram os principais problemas relatados em Terenos, no Mato Grosso do Sul, e Tiradentes, em Minas Gerais. A exemplo de Santa Cecília do Pavão, as duas cidades estão inseridas no UCA Total.

Diretora da Escola Estadual Antônio Valadares, em Terenos, Gilvânia Borges Antero conta que a empresa responsável pela rede de internet é de Minas Gerais. Em junho, ela entrou em contato com a empresa devido a problemas com a conexão. Os técnicos só foram ao município resolver a situação na semana passada. A manutenção dos computadores é de responsabilidade da Secretaria de Estado da Educação, porém, quem faz o reparo na maioria das vezes é um funcionário da própria escola. "Se formos mandar para a secretaria demora muito. Como esse funcionário já arrumou vários computadores, é mais fácil deixar com ele".

Em Tiradentes, o programa está em funcionamento há aproximadamente um ano e meio. Até o ano passado, a Escola Municipal Alice Lima Barbosa também enfrentava dificuldades técnicas com as máquinas. "No começo os computadores travavam, muitos deram problema. Agora está resolvido", conta a diretora Marilza Gomes de Almeida. Com a designação de dois técnicos de informática dentro da escola, os computadores danificados deixaram de ser entregues à Secretaria Municipal de Educação. (AG)

Santa Cecília do Pavão - Os quase mil estudantes do município de Santa Cecília do Pavão, na Região Norte do Paraná, começaram o ano de 2010 com uma novidade alvissareira. Cada um deles, juntamente com os professores, recebeu um laptop para auxiliar nas atividades dentro e fora da sala de aula. Passados nove meses, a empolgação dos alunos permanece, mas atenuada pelos primeiros problemas que o programa Um Computador por Aluno (UCA) apresenta. Dificuldades na assistência técnica e falta de controle sobre o conteúdo utilizado pelos estudantes são alguns dos entraves enfrentados pelas escolas selecionadas pelo governo federal para integrar o projeto.

A história do UCA começou em 2007, quando cinco escolas em diferentes estados receberam o projeto em caráter experimental. Com o objetivo de aprimorar o aprendizado e incentivar a inclusão digital, todos os alunos e professores das escolas receberam um computador portátil com acesso à internet.

Apesar da expansão do UCA nos anos subsequentes, o programa ficou restrito a uma parcela ín­­­­fima da comunidade escolar. Segundo dados do Ministério da Educação, são 131,1 mil estudantes atingidos, o equivalente a apenas 0,3% dos 41,3 milhões de alunos da rede pública nacional. Mes­mo porcentual do Paraná, onde há 8,5 mil alunos beneficiados.

O Paraná entrou no projeto em 2010. Santa Cecília do Pavão foi, inclusive, um dos seis municípios brasileiros selecionados para o UCA Total, em que todas as escolas da cidade são inseridas no programa. Uma delas é a Escola Municipal Cícero Bittencourt Rodrigues, onde estudam mais de 300 crianças de 1.ª a 4.ª série. Segundo a diretora Cleuza Santos Bizarria, a incidência de problemas técnicos com as máquinas é alta. "Nós não temos assistência técnica. Dependemos de dois profissionais que atendem toda a prefeitura", relata. Na sala da direção está uma parte dos cerca de 70 computadores danificados que ainda aguardam reparo.

As dificuldades para conseguir assistência se repetem no Colégio Estadual Jerônimo Martins, onde foram distribuídos 595 computadores no início do ano. O diretor Élio Francioli aponta outras dificuldades a serem contornadas, como a falta de controle sobre o conteúdo acessado pelos estudantes na internet. "Alguns pais vieram nos devolver o computador porque os filhos estavam vendo material inapropriado. Não existe um filtro, por isso nós temos que estar em cima e conversar com os pais, para que também fiscalizem".

Ainda de acordo com Fran­cioli, o colégio não dispõe de uma rede elétrica suficiente para atender a todos os computadores caso eles necessitem ser carregados simultaneamente. Situação que se repete em cerca de 600 escolas estaduais, segundo o pesquisador Antônio Carlos Concei­ção Marques. "Se todos os computadores forem ligados juntos, as escolas pegam fogo", diz o professor, que pesquisou o UCA no seu mestrado em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Na Escola Municipal Mauro Portugal, em Campo Largo, estudantes e professores receberam os computadores no início do ano, mas ainda não há internet disponível. "Ainda não conseguimos conectar o servidor da escola", informou a coordenadora do UCA, Silmara Lopes de Quadros. Com isso, o uso se restringe a jo­­gos educativos. Na Escola Mu­­­nicipal Maria Aparecida Me­­deiros, em Enge­nheiro Beltrão, a diretora Maria Helena Prebeki de Lima aguarda a chegada dos equipamentos, adquiridos no ano passado.

Responsabilidade do programa é repassada para estados e municípios

No final do ano passado, o governo federal modificou a sistemática do programa Um Computador por Aluno. Ao invés de selecionar as escolas para repassar os computadores, o Ministério da Educação transferiu aos estados e municípios a aquisição dos equipamentos. Com isso, prefeitos e governadores interessados passaram a adquirir os laptops com recursos próprios, por meio de pregão ou financiamento através do Banco Nacional de Desenvol­vimento Econômico e Social (BNDES).

Na primeira etapa, os cerca de 140 mil computadores distribuídos pelo Ministério da Educação custaram R$ 550 cada um, o que representa um investimento de R$ 82 milhões com o programa. No Paraná, para onde foram repassados 5,8 mil laptops, os cálculos apontam para uma despesa de R$ 2,4 milhões. Já os equipamentos ofertados aos estados e municípios neste ano terão um custo menor, que varia de R$ 344 a R$ 376 conforme a região.

O pesquisador Antônio Carlos Conceição Marques critica a nova conduta adotada pelo governo federal. "Ao transferir a responsabilidade do programa às prefeituras, está se ampliando a possibilidade de uso político dos computadores. O Computador por Aluno deve ser um projeto da nação", defende.

A reportagem solicitou à assessoria de comunicação do Ministério da Educação um posicionamento a respeito dos problemas com manutenção e controle de conteúdo dos computadores do UCA. Não houve resposta por parte do órgão.

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