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Patrimônio

Fábrica de saudades

Desce o letreiro do Matte Leão, sobe o da Igreja Universal do Reino de Deus. Agora os paranaenses se perguntam se o prédio ícone da era da erva-mate, marco da economia do estado, também virá abaixo

  • José Carlos Fernandes
Operário retira letreiro do Matte Leão na esquina da João Negrão com Getúlio Vargas: golpe na memória fabril |
Operário retira letreiro do Matte Leão na esquina da João Negrão com Getúlio Vargas: golpe na memória fabril
 
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Fábrica de saudades

Houve um tempo em que, ao olhar uma embalagem, corria-se os olhos pelas letras miúdas para conferir onde era feito aquele produto. O município que tinha uma fábrica em suas divisas estava perto da prosperidade. Difícil um que não quisesse ter uma por perto, gerando riquezas e trazendo “forasteiros”, dois ingredientes que faziam de um lugar qualquer uma cidade. Não raro, ficava-se curioso em conhecer Piracicaba, porque lá se fabricava a pinga Tatuzinho. Ou Blumenau, por ser a terra das malhas Hering. Curitiba não fugia à regra.Durante todo o século 20, quem olhava as caixinhas de Matte Leão e Mate Real sabia que uma das maiores riquezas do Paraná era a erva-mate. Se para os de fora a informação podia não passar de curiosidade de almanaque, para os daqui era histórica: não havia como explicar o desenvolvimento do estado sem passar por essas empresas. Não é tudo. Um número incontável de paranaenses consumiu sua juventude a serviço da erva-mate. Para essa gente, ainda hoje, levar os filhos, netos e bisnetos para conhecer a antiga zona industrial do Rebouças, onde ficava a fábrica, é uma forma de justificar a própria vida. Foi ali que ganharam seu pão.

Apesar dessas razões práticas, a memória fabril é a área mais desprestigiada das políticas de preservação. O motivo é de ordem cultural. Não há dificuldade em identificar uma casa burguesa que mereça ser conservada. O mesmo não se pode dizer de um velho e cinzento barracão, que ocupa metros quadrados demais e tem requinte de menos. O raciocínio é correto – mas, a contar pela opinião das fontes consultadas pela reportagem, pode ser uma barbárie. Ao privilegiar apenas bens com virtudes arquitetônicas, as políticas de preservação incorrem no risco de reduzir a memória a um único tipo de experiência, em detrimento de outras.

Em tempos idos, bem que a cidade tentou ser mais plural em questões de patrimônio: fez de uma fábrica o Teatro José Maria Santos, na Rua 13 de Maio; da Fábrica Venske, na Praça do Expedicionário, um espaço cultural; e da Fundição Müeller, um shopping. Acertou no varejo. E pode errar no atacado, se deixar o Matte Leão à própria sorte.

Aos fatos

A Leão Júnior S.A. foi fundada em 1901. Sua sede ocupa uma quadra e meia na Avenida Getúlio Vargas, na altura da Rua João Negrão. Em 2007, a indústria passou a fazer parte da Coca-Cola e acabou transferida para Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba. O prédio, uma construção de 16,3 mil metros quadrados, ficou com os herdeiros do grupo, que a venderam no início deste ano para a Igreja Universal do Reino de Deus por estimados R$ 32 milhões, R$ 7 milhões acima de seu valor de mercado.

A notícia cedo caiu no ringue. Sua simples menção tem sido o bastante para deixar os envolvidos nos cascos, abortando a discussão sobre a memória fabril. Há quem resista: “O Rebouças é uma área que precisa ser preservada no conjunto, como paisagem, mas não está configurada, o que a torna suscetível. O Ippuc tem obrigação de pensar esse espaço”, protesta o arquiteto Key Imaguire Júnior, da UFPR, referência em patrimônio histórico.

Aos fatos. Desde que o zunzum da venda começou, há quatro anos, a expectativa era que, por força da marca Matte Leão, a prefeitura desenvolvesse ali um projeto cultural. Ou que transformasse a fábrica em unidade de interesse de preservação, as UIPs, de modo a garantir, pelo menos a manutenção da casquinha da fachada, como se fez com o Müeller. Nada disso aconteceu. O argumento é que não há dinheiro para comprar todos os prédios da cidade que mereçam ser preservados. A fábrica da Matte custaria, entre aquisição e restauro, pelo menos R$ 75 milhões aos cofres, calcula o supervisor de Planejamento do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, o Ippuc, Ricardo Bindo.

Paira, contudo, o espanto ao saber que o órgão público não recomendou a preservação do imóvel antes da venda, o que inibiria um comprador com ganas de demolição. Bindo acalma os mais exaltados alegando que qualquer imóvel pode ser declarado patrimônio por decreto. Mas não dá muitas esperanças. “O prédio da Matte Leão – embora importe para a história da cidade – não é dos melhores exemplares de arquitetura industrial.”

Para entender

A prefeitura acumula umas tantas tentativas fracassadas de tirar o Rebouças das sombras. Em meados da década de 70, declarou o bairro “zona de recuperação”. Nos anos 2000, criou o ousado projeto SoHo Rebouças. A proposta era atrair cooperativas, ateliês, casas noturnas e feiras para a região, agregando massa crítica criativa à área onde funcionou a primeira “cidade industrial” da cidade. Dera certo em Londres e Nova York, por que não ali? Em sinal de boa vontade, a própria Fundação Cultural se mudou para um antigo moinho da Engenheiros.

Como se sabe, o SoHo Rebouças patina. A Rua Piquiri permanece perigosa. E o ponto do bairro que vai bem, obrigado, só mesmo o trecho da Rua Chile onde reina uma faculdade – garantia de bares e costelões sempre abarrotados de gente. Mas em paralelo, uma surpresa: cresceram no bairro os investimentos imobiliários.

Talvez esteja aí a chave da questão. A prefeitura aposta na política de adensamento populacional de áreas já urbanizadas. Ou seja: quanto mais gente morando em zonas determinadas, mais fácil administrar a cidade. Desse ponto de vista, o problemático Rebouças é o paraíso. Várias incorporadoras se instalaram no bairro “ao lado do Centro”. Fim dos problemas. Não seria de estranhar que uma delas não só comprasse o Matte Leão como se dispusesse a manter suas paredes em pé, salvando a pele do patrimônio.

Como apurou a Gazeta do Povo, havia incorporadoras interessadas na área. Mas dependiam de financiamento público, o que não era um problema para a Igreja Universal do Reino de Deus. Hoje, a Matte lhe pertence e, com ela, o mal-estar em saber que os novos donos podem colocar tudo abaixo e ainda por cima contar com benefícios fiscais dado às instituições religiosas. Tiro pela culatra? “Ao ver a faixa ‘futura catedral’, me pergunto se não é melhor. Vai atrair gente, pipoqueiro, agitação. Pode salvar a região. O projeto do SoHo é uma utopia. Quantos artistas se mudariam para lá?”, provoca o arquiteto e pesquisador de patrimônio Irã Dudeque, da PUCPR.

Finalmente

Não se sabe se a nova catedral da fé vai mesmo demolir a centenária fábrica do Matte Leão. A reportagem não obteve êxito ao procurar a assessoria da instituição. A direção do Ippuc diz acreditar que a igreja de Edir Macedo pode, sim, valorizar a arquitetura do local e poupá-la de virar entulhos. E que ainda pode fazer exigências de preservação, caso uma comissão de avaliação julgue necessário.

A informação corrente é que a compra se deu sob condições de que isso não iria acontecer. Quem haveria de querer? “Todo proprietário de edifício histórico em Curitiba tem um problema na mão: um imóvel cheio de restrições e sem nenhuma ferramenta que viabilize a restauração. A alternativa que sobra é vender ou demolir, para que se torne sustentável”, lembra a arquiteta Giceli Portela, dona da Casa Artigas.

A reportagem procurou a família Leão, representada pelo senhor Luiz Otávio de Leão Júnior, para discutir preservação e incentivo. Ele informa que comentar o destino do prédio seria deselegante com os novos proprietários. E que não vê relevância arquitetônica na velha fábrica da Getúlio Vargas.

“Eu um dia trabalhei na Leão Júnior S.A”

Em 1955, ao entrar vestida de noiva na Igreja do Bom Jesus do Portão, Ondina Santana teve duas emoções em cadeia. A primeira foi a de ver o noivo – o português Orlando Ferreira, por quem se apaixonara dois anos antes no ambiente no trabalho. A segunda se deu quando percebeu entre os convidados seu patrão, o doutor Ivo Leão, presidente de uma das mais importantes empresas do país, a Leão Júnior S.A.

“Até hoje choro quando passo na frente da fábrica. Meu coração bate forte. Fui muito feliz lá. Eles eram bons para a gente”, conta Ondina, hoje viúva. Sua passagem pela Leão Júnior foi tão breve quanto inesquecível: trabalhou no socador de erva-mate e depois na cozinha entre 1953 e 1954.

Ainda adolescente, cabelos negros e dona de um par de olhos azuis cristalinos, tornou-se uma paixão secreta de muitos dos mais de 400 funcionários da firma. Mas sua escolha recaiu sobre o calado Orlando, recém-chegado da Ilha da Madeira. Se bem lembra, casando-se com ele, teria de sair do emprego. Era a norma. Lamentou. Mas a distância, há mais de cinco décadas, fez da fábrica seu espaço afetivo tanto quanto a casa da Rua Itatiaia, no Portão.

O casal José Pestana de Gouveia, 81, e Maria Hilda, 75, não foge à regra. Ele são moradores da Vila Guaíra, mas colocaram a fábrica da Getúlio Vargas no mapa das suas andanças. Mal conseguem imaginar a cidade sem ela. José em particular. Em 1953, ele imigrou de Portugal já com emprego certo no Brasil – a “caixeta”, como se chamava o setor de montagem das caixas de erva no Matte Leão.

“No começo não foi fácil. Eu me trancava no banheiro para chorar a saudade da minha terra”, conta. E havia o batente pesado: de manhã bem cedo, o operário subia num caminhão da fábrica que saía da Vila Leão – hoje dividida entre o Novo Mundo e o Portão – e seguia para o Rebouças. “A gente subia pela República Argentina. Todo mundo me chamava de português. Foi importante para mim. Eu era de trabalhar bastante. A fábrica foi uma boa oportunidade.” Idem para Maria Hilda, que trabalhava na casa dos patrões, na Avenida João Gualberto. “Ela aprendeu a fazer comida boa por lá”, diverte-se. Casados, os dois se mudaram para Alto Piquiri, no Norte do Paraná. Lá eram “os portugueses que trabalharam no Matte Leão.”

Se bem lembra, Agostinho João Ferreira, 79, trabalhava por uns tantos operários na Leão Júnior S.A. Chegou a provar que podia lixar e montar mais caixetas do que duas pessoas juntas. Não à toa, ficou nove anos no emprego. Foi pouco: ao chegar de Portugal, em 1954, achou que tinha encontrado um serviço para toda a vida. Até que as reformas trabalhistas do governo Jango, uma década depois, o levaram ao desemprego.

Virou-se, arrumou ocupação no Posto São José, da República Argentina, e ficou na saudade. “O clima na fábrica era bom e o salário, com os extras, compensava”, lembra o morador da Vila Cubas, no Novo Mundo, um dos muitos que formam a confraria informal dos ex-funcionários da Leão Júnior. “Eu montava três mil caixinhas por dia”, calcula, enquanto puxa o fio das memórias: trabalhava das 7h15 às 5h15. Quando terminava a lida, se mandava para outros departamentos, oferecer uma mão. Com sorte, encontrava o Ivinho, filho do dono, de quem era admirador.

O ex-faz-tudo ficou sabendo da venda da fábrica meses atrás. Já tem opinião formada sobre o assunto: gostaria que o prédio ficasse em pé. Se assim for, vai continuar repetindo o ritual que faz de tempos em tempos com os netos e bisnetos: pega-os pela mão e os leva ao Rebouças. Dá uma volta no quarteirão e ali conta uma história: “Foi aqui que o vovô fez a vida quando era jovem...” Ninguém esquece – Agostinho garante.

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Interatividade

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