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Como a comunidade recebeu a notícia de que a disputa de poder no movimento neonazista em Curitiba resultou em dois assassinatos?

"Com preocupação. Esse pessoal quer trazer a intolerância de volta. Esse recrudescimento muito nos preocupa. Olha as lideranças deles. Não é coisa de adolescente. São pessoas com curso superior, que estão dentro das universidades, com empregos estáveis e bem remunerados. Eles estão organizados para pregar o ódio, um ódio de credo, de cor da pele, de raça e de orientação política."

Léo Krieger, vice-presidente da Federação Israelita do Paraná

"Percebemos que essas gangues, essas verdadeiras quadrilhas, continuam ativas e têm atuado com força em Curitiba desde 2005, quando um jovem gay foi atacado a tesouradas. Foram presas algumas pessoas e meses depois estavam na rua. E de lá para cá esses ataques têm sido constantes. O mais preocupante é perceber que a sociedade curitibana não reage a esse tipo de coisa."

Márcio Marins, coordenador do Centro de Referência João Mascarenhas da Aliança Paranaense pela Cidadania LGBT

"Estamos em um campo propício. A gente, que tem tentado reunir aqui a diversidade, sofre discriminação histórica e encontra dificuldades. Esses grupos parecem ter um sentimento de impunidade. Curitiba é uma cidade fechada e conservadora. Quando você é negro, isso se complica. São justamente esses elementos que dão sustentação a grupos como esses."

Jayro de Jesus, mestre em Teologia e presidente da Associação Afro-Brasileira de Estudos Teológicos e Filosóficos das Culturas Negras.

Segregação racial, economia totalmente controlada pelo Estado, militarismo, violência como forma de controle social, ódio a estrangeiros e a tudo o que é diferente, censura a produtos culturais não aprovados pelo regime, ordem e moralismo exacerbados. Mais de 60 anos depois de o regime nacional-socialista ter sido derrubado na Alemanha, ao custo de pelo menos 60 milhões de vidas humanas, ideias como estas pareciam definitivamente enterradas no cemitério da História. A percepção de que este conjunto de ideias foi banido da humanidade, no entanto, fica mais fraca à medida em que se joga luz sobre movimentos políticos e fatos até então escondidos do grande público.

Na noite de 21 de abril deste ano, os holofotes que revelaram que a intolerância ainda resiste foram jogados sobre uma chácara em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba. Um casal de estudantes universitários, Bernardo Dayrell Pedroso, 24 anos, e Renata Waechter Ferreira, 21, foi assassinado a tiros na BR-476, quando voltava de uma festa. A princípio, a polícia achou que se tratava de um crime passional ou de um latrocínio (roubo seguido de morte). Menos de duas semanas depois, o motivo das execuções veio à tona: os estudantes eram neonazistas e foram assassinados em uma disputa de poder dentro do grupo. A festa era uma comemoração pelos 120 anos do nascimento ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945).

O crime revelou que a ideologia nazista – que é considerada crime e entrou para o rol das aberrações no mundo ocidental – ainda é capaz de atrair jovens brancos, educados e na maioria das vezes pertencentes à classe média. No Brasil, a origem das ideologias de extrema-direita foi o movimento Integralista, surgido na década de 1930 do século passado. O Integralismo era uma espécie de "fascismo brasileiro" e tinha como líder o escritor e jornalista Plínio Salgado (1895-1975). Defendia o ultranacionalismo e o desenvolvimento de um projeto político tradicionalista, adequado à cultura brasileira.

Com a derrota dos regimes fascistas, no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o ideário de extrema direita praticamente sumiu. Tais ideias voltaram à cena brasileira na década de 1980, com o surgimento de grupos como os Carecas do ABC, em São Paulo, skinheads (cabeças raspadas) assumidamente nacionalistas, que usavam de violência contra grupos considerados rivais, como punks e anarquistas. O movimento era formado por pessoas da classe operária, moradoras dos subúrbios. Nesta época já se notava uma divisão: havia "carecas" que atacavam nordestinos para que eles deixassem São Paulo e militantes exaltavam a cultura nordestina, já que se identificavam como nacionalistas.

O crime de 21 de abril mostrou que o movimento de ultra direita, apesar de "camuflado", cresceu e chegou à classe média. Segundo a polícia, Bernardo e Renata foram mortos a mando de Ricardo Barollo, 34 anos, economista de uma grande empreiteira em São Paulo. Barollo fala francês fluentemente e, além de economia, tinha especial interesse por Física. Já Dayrell (como mostram as comunidades do estudante na rede de relacionamentos Orkut) era leitor de poetas como o português Fernando Pessoa e os franceses Rimbaud e Baudelaire. Mais de seis décadas depois da derrocada do nazismo, o que leva pessoas instruídas a aderirem a uma ideologia de ódio e preconceito?

"A sociedade perfeita. O nazismo se compõe de pensamentos radicais para atingir um objetivo de algo idealizado, ou seja perfeito e que dê explicações perfeitas para a sociedade, onde sejam nomeados os inimigos", afirma o doutor em Psicologia Social e professor do curso de mestrado em Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Jamil Zugueib. Neste contexto, judeus, negros, homossexuais, punks e comunistas "corrompem" este imaginário de "sociedade perfeita", e por isso passam a ser odiados. "Ter um inimigo é um grande agente socializador. O ódio é socializador. Quem odeia junto, compartilha junto alguma coisa. Odiar é ação socializadora, muito mais que amar."

Para o professor de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e da Universidade Positivo Antonio dos Santos Neto, o neonazismo e outros movimentos não são fenômenos típicos "da adolescência", mas reflexos de uma sociedade que enaltece os excessos. "Olhamos para dentro de nós e não gostamos de algumas coisas que vemos, então criamos excessos para suprir isso", afirma. "Este excesso está na estrutura da nossa sociedade. Ele desmonta alguns conceitos que são universais. É como se olhássemos um espelho e não o aceitássemos inteiro. Quebro o espelho e vivo no pedaço que eu gosto."

Santos Neto avalia que esses "estilhaços" estão em todas as partes – como nas diferentes denominações religiosas e nas "tribos" que preferem determinados estilos musicais. A diferença, para ele, é que grupos como os dos neonazistas geram desequilíbrio. "Ainda conseguimos reconhecer o espelho inteiro. Mas essa prática (a do neonazismo) é de uma meia dúzia de malucos fora de qualquer propósito, que não reconhecem mais o todo."

Já o professor de Filosofia Política da UFPR Emmanuel Appel avalia que a principal forma de combate ao nazismo e à intolerância é a educação. Appel cita o filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969) para defender uma formação integral, que proporcione autonomia intelectual. "Adorno proclama como grande objetivo educacional evitar que Auschwitz se repita. Esta máxima deve ser a primeira grande exigência educacional", afirma. "É preciso combater o nazismo com uma educação que conduza à autorreflexão, proporcionar condições para a libertação de toda e qualquer tutela, para evitar adesões de forma cega aos coletivos. O semiculto, o meio formado, é perigosamente hostil ao cultura e a diálogo."

Para Appel, é uma distorção pedir a proibição de partidos de esquerda no Brasil com base na comparação entre o regime da extinta União Soviética (que matou cerca de 30 milhões de pessoas em campos de trabalho forçado) e o nazismo alemão. "No Brasil, os partidos de esquerda têm uma tradição democrática. E não têm nenhuma pregação racista em seus documentos."

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