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Patrimônio Histórico

Igreja sem torres não é matriz

Odisseia daquela que se tornaria a Basílica de Curitiba começou há 344 anos e, entre demolições e reconstruções, ajudou a moldar a capital

  • Pollianna Milan, com informações e infografia de Leandro Luiz dos Santos
Estágio final das obras da atual Basílica Menor de Curitiba |
Estágio final das obras da atual Basílica Menor de Curitiba
 
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A independência do Paraná, então província de São Paulo, em 1853, veio com um pedido a mais: a população que se desmembrara do outro estado agora queria ter ares de prosperidade, por isso não admitia mais uma igreja matriz sem torre. “Esta ausência mexia com o brio dos curitibanos”, afirma a historiadora Cassiana Lacerca. Sem titubear, duas torres foram encomendadas e “coladas” à estrutura da matriz existente: o problema é que a igreja já não aguentava mais ficar em pé por si só e, com a instalação das duas torres, sua estrutura literalmente começou a ruir (em decorrência dos lençóis freáticos superficiais).

As rachaduras nas paredes tornaram-se frequentes e bastou uma forte chuva para que a alvenaria do teto viesse abaixo, sobre os fiéis. Uma comissão analisou o edifício e recomendou a demolição em 1875 (138 anos depois da primeira reforma pela qual passou). Foi em meio às lamentações da população que surgiu o projeto da atual catedral de Curitiba: os fiéis temiam que a nova construção demorasse porque a falta de dinheiro sempre foi um empecilho. E estavam certos: ela levou 16 anos para ficar pronta e foi entregue sem pintura.

A história da matriz de Curitiba, porém, começa antes. A primeira igreja foi uma singela construção de pau a pique, com telhas coloniais, feita em 1668. A ideia era a de que ela ocupasse o centro da Praça Tiradentes (onde a cidade surgiu), mas, como era de uma arquitetura muito modesta, ficou decidido que ficaria na lateral. “Desde os primeiros viajantes que aqui chegaram, o comentário sempre foi o mesmo: que a igreja não ficava no meio da praça, mas na lateral. Este modelo existe na Europa, mas em número reduzido. Não é algo usual”, comenta Cassiana. As duas igrejas seguintes (a matriz e a atual catedral) mantiveram a ocupação semelhante, no entorno da praça.

Catedral

Foi com o projeto arquitetônico que começou a odisseia. O primeiro engenheiro entregou as plan­­tas em apenas 15 dias, ou seja, literalmente fez uma cópia de algum projeto que já existia porque nenhum profissional seria capaz de desenhar uma obra suntuosa em tão pouco tempo. Conforme relatou o historiador Ruy Wachowicz, no livro As moradas da Senhora da Luz, o projeto inicial imitava uma capela bizantina. “Antigamente os engenheiros tinham o costume de copiar projetos”, afirma Wachowicz no livro.

O segundo arquiteto, Alphonse Conde des Plas, foi o que desenhou (com possivelmente algumas cópias) o projeto atual. Claro que o projeto sofreu modificações diversas vezes (uma das maiores alterações foi feita pelo engenheiro Giovani Lazzarini, como o teto modificado para o formato em abóbadas e as ornamentações).

O estilo gótico da catedral, contudo, saiu dos desenhos de Plas, o que foi mantido durante toda a construção para a infelicidade de uma parte de clérigos e da elite dominante (de origem portuguesa) que defendiam que o barroco era o melhor estilo, posto que o gótico representava o imigrante “forasteiro” e também porque já existiam em Curitiba templos góticos como o luterano da Rua Trajano Reis e a Igreja Bom Jesus, da Praça Rui Barbosa, ambas edificadas por alemães.

Lei Áurea

Nos bastidores da construção, estavam sete escravos que depois foram alforriados, graças ao caráter do engenheiro Lazzarini, que não gostava de ter trabalhadores nessas condições e acabou comprando a liberdade deles. Um ex-escravo, posteriormente, foi mestre de obras. Além de trabalho escravo, a igreja teve também construtores imigrantes (portugueses e, sobretudo, alemães).

Como dinheiro sempre foi um problema para a construção da catedral, o jeito foi – por força de lei – determinar que uma parte dos lucros arrecadados com as loterias fosse destinado às obras da matriz. Segundo informações de Cid Destefani, no livro A cruz do alemão, cada extração da loteria gerava um lucro de cerca de 7 contos e 500 mil réis (para comparar, uma passagem ida e volta de Paris, nesta época, custava 290 contos).

Com verbas arrecadadas, desta vez foi possível dar duas torres à matriz. Originalmente, o projeto previa que, na torre do lado esquerdo (para quem olha a catedral de frente), ficaria o sino e um relógio e do lado direito um observatório de meteorologia e um barômetro. Esta segunda parte nunca saiu do papel, por isso a igreja ganhou, depois, mais um relógio na outra torre (porque o barômetro era caro) e foram instalados outros sinos que funcionam até hoje.

A obra foi concluída em 1893, mas ficou sem pintura interna por 16 anos. No ano de seu centenário, em 1993, a catedral de Curitiba foi elevada à condição de Basílica Menor pelo Papa João Paulo II, mas por causa de seu anexo (feito em 1947) ela não consegue ser tombada pelo Iphan como patrimônio histórico. Ela é tida como Unidade de Interesse de Preser­vação do município, mas sua arquitetura poderia estar certamente entre as mais belas a serem preservadas no Brasil.

Curiosidades

Acontecimentos inusitados permearam a história das três igrejas matrizes de Curitiba. Confira:

Pedras

Com a demolição da antiga matriz, algumas pedras foram usadas para a construção da catedral. Mas uma parte delas também foi para fazer o calçamento das ruas, principalmente por causa da chegada de dom Pedro II (em 1880) ao município, que tinha até então somente ruas lamacentas. A população ficou indignada e até alguns funcionários da comissão de obras da catedral pediram a conta porque acharam um desrespeito usar as pedras da antiga matriz para o calçamento. A grande questão é que os mortos, até então, eram enterrados dentro do pátio da igreja e, com sua demolição, os ossos ficaram inevitavelmente misturados às pedras e entulhos. Por isso se dizia que as ruas estavam sendo feitas com ossadas humanas.

Independência

Dois anos após o Paraná se desmembrar de São Paulo, a população de Curitiba tinha o seguinte perfil: a cidade cabia em 27 quarteirões, 308 casas mais 52 em construção para uma população de 5.819 pessoas, incluindo 47 estrangeiros, segundo o livro Curitiba na Província, de Edilberto Trevisan.

Câmara

Por causa dos crimes constantes e com um capitão (da segurança) já velho e doente, a população decide eleger as primeiras autoridades de Curitiba e instalar a Câmara Municipal, em 1693. Os eleitos são empossados dentro da velha matriz (a data ficou como a fundação da cidade), onde eram feitas as sessões.

Relógio

Quando a antiga matriz recebeu torres (que condenaram sua estrutura) um relógio foi instalado em uma delas. Foi a partir desse relógio que Curitiba passou a ter horas exatas (antes havia apenas o relógio do sol). Esse relógio guiava o funcionamento de tudo. Mas, como era de corda, o coveiro do cemitério teve de ficar responsável por dar a corda no equipamento todo dia.

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