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João Pedro Stédile, um dos principais líderes do MST, comemorou a operação chamando-a de “revolução”.
João Pedro Stédile, um dos principais líderes do MST, comemorou a operação chamando-a de “revolução”.| Foto: Divulgação/PT

Por essa nem Che Guevara esperava. Apesar de se apresentar como crítico ferrenho da economia de mercado, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), se rendeu à bolsa de valores. Isso mesmo. O movimento conhecido pela tradicional bandeira vermelha, foices, enxadas e facões vai tentar agora ocupar outras terras, as do mercado financeiro.

Desde terça-feira (27), qualquer pessoa pode financiar o movimento por meio de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), uma espécie de título de renda fixa. Os títulos têm valor inicial de R$ 100 e prometem uma remuneração pré-fixada de 5,5% ao ano. O pagamento aos investidores será feito com os lucros de produção de cooperativas do MST.

No total, o MST espera arrecadar com a venda dos CRAs R$ 17,5 milhões, que serão destinados a sete cooperativas de assentados, localizadas nos estados do Paraná (Copacon, Coana e Copavi), Santa Catarina (Cooperoeste), São Paulo (Coapar), Rio Grande do Sul (Cootap), e Mato Grosso do Sul (Coopaceres), produtoras leite, milho, arroz, soja, açúcar mascavo e suco de uva.

Em sua página oficial, o MST ressalta que a captação de recursos será para o “financiamento da produção de alimentos saudáveis de cooperativas integrantes de assentamentos da Reforma Agrária Popular, ligadas ao MST”. Para um movimento social que nunca escondeu seu alinhamento com a ideologia de esquerda, e sempre incensou Marx, Lênin e afins, recorrer ao mercado financeiro não deixa de ser contraditório.

Financiar a revolução

No ano passado, o MST já havia buscado no mercado financeiro recursos para a Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), no Rio Grande do Sul. Mas a oferta de títulos foi direcionada a grandes investidores, que deveriam aplicar pelo menos R$ 100 mil. Os bons resultados com a operação, que movimentou R$ 1 milhão, fizeram o MST buscar novas formas de angariar recursos no mercado de capitais.

Na época, João Pedro Stédile, um dos principais líderes do MST, comemorou a operação chamando-a de “revolução”. “Daqui em diante, quando vocês forem comprar arroz orgânico, carnes de qualidade, entre outros produtos, você saberá que ajudou a produzir”, disse em entrevista aos órgãos de comunicação do MST. Ele foi ainda mais longe ao defender a estratégia, argumentando tratar-se de uma mera etapa para a conquista do sonho esquerdista de fim do capitalismo. “Nós queremos criar mecanismos de um mundo novo e derrotar o sistema financeiro, não alimentá-lo”, justificou.

Agora, focando nos pequenos investidores, o MST pode atingir diretamente seus simpatizantes, que, comprando títulos a partir de R$ 100, poderão se ver como financiadores da “revolução”.

Mas se na propaganda se exalta a questão ideológica como um motivo para adquirir os CRAs, a realidade é outra. A adesão ao mercado financeiro muda o perfil histórico dos assentamentos do MST – ao menos aqueles bem-sucedidos: locais que deixam a economia solidária e de subsistência para se tornarem cooperativas de produção alinhadas às demandas do mercado. Com uma diferença: o lucro se alcança por meio de terras ocupadas. No discurso, o MST pode até ser comunista, pero no mucho na prática. Assim como qualquer outro agente do agronegócio, tão demonizado pelos esquerdistas, os assentamentos fundados pelo MST usam o capital e suas táticas para sobreviver e prosperar.

A opção pela agricultura agroecológica, por exemplo, se mostra muito bem pensada para atender o consumo cada vez maior de alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos e químicos. Hoje, o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, alimento que, além de abastecer o mercado nacional, também é exportado para países da União Europeia, Américas e Oceania. Trata-se um mercado que ainda tem muito a crescer. Segundo estimativas da consultoria BCC Research , o mercado global de alimentos e bebidas orgânicos deve aumentar pelo menos 11,5% até 2024, chegando a valer 211,3 bilhões de dólares.

Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), até 2017, o Brasil contava com 972.289 famílias em 9.374 assentamentos, num área total de 87.978.041 hectares destinados a reforma agrária. Levando-se em conta a informação disponibilizada pelo próprio MST de que 350 mil integrantes do movimento já deixaram de ser sem-terra, os assentamentos ligados ao movimento podem ter cerca de 31 milhões de hectares de área total.

Para conseguir essas terras, uma das estratégias mais conhecidas para adotada pelo MST é a invasão de terras e fazendas, supostamente improdutivas. Segundo informação da Secretaria de Comunicação do Governo Federal, a Câmara de Conciliação do Incra registrou de 1995 a 2021, 5.447 casos de invasões a áreas agrícolas, a maioria liderada pelo MST.

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