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Adélia com os filhos Pedro, Julia, Helena e Francisco: ela quer ajudar outras mulheres a terem filhos em casa | Hugo Harada / Gazeta do Povo
Adélia com os filhos Pedro, Julia, Helena e Francisco: ela quer ajudar outras mulheres a terem filhos em casa| Foto: Hugo Harada / Gazeta do Povo

Com o crescimento das cidades, certas figuras antes comuns tornaram-se cada vez mais raras. É o caso da parteira. Em centros urbanos, onde há hospitais e maternidades, é difícil encontrar alguma delas em atividade ou algum jovem que tenha nascido por suas mãos. No interior rural, principalmente no Norte e no Nordeste do país, em aldeias indígenas ou quilombolas, porém, elas representam importante papel. No mês passado, aconteceu em Brasília o Encontro Nacional de Parteiras Tradi­cionais, que reuniu parteiras, profissionais da saúde e representantes de organizações não governamentais (ONGs) de 15 estados brasileiros para discutir a possibilidade de inclusão do serviço de parto domiciliar assistido por parteira no Sistema Único de Saúde (SUS).

Atualmente, as parteiras costumam atuar em regiões onde o SUS está distante. Elas não recebem pelo trabalho e têm de enfrentar preconceito por parte dos profissionais da saúde. Reivindicam, entre outras coisas, cadastro para saírem da invisibilidade dos dados, qualificação, acesso a materiais, remuneração e aposentadoria. O Minis­tério da Saúde (MS) estima que aconteçam por ano 35 mil partos domiciliares, o que representa 1% dos 2,9 milhões de partos anuais, mas segundo a coordenadora da ONG Grupo Curumim Gravidez e Parto, de Pernam­buco, Paula Viana, os números não se aproximam da realidade devido à falta de registro das parteiras e dos partos que realizam. Sobre elas, os dados são ainda mais imprecisos: o Cadastro Nacional de Estabe­lecimentos de Saúde estipula que sejam mil no Brasil todo, mas, só em Pernambuco, a Secretaria Estadual de Saúde registra 1,2 mil parteiras.

Programa

Tentativas de melhorar a situação existem. Desde 2000, o MS desenvolve, em parceria com o Grupo Curumim, o programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais, que busca melhorar a atenção ao parto domiciliar, como estratégia para redução da mortalidade materna e neonatal. As parteiras são treinadas, distribui-se material (o kit parteira) e há apoio logístico para o trabalho. Também há sensibilização de gestores do SUS e profissionais da saúde para que reconheçam parteiras como parceiras na atenção à saúde da comunidade. Em 10 anos, o programa qualificou 1.755 parteiras e 1.301 profissionais de saúde em cerca de 150 municípios de 15 estados do Brasil, incluindo o Paraná. Desde 2005, o investimento foi de R$ 2 milhões.

Índias fazem cesáreas; brancas querem parto em casa

Entre os povos indígenas do Paraná, o parto tradicional de cócoras ainda se mantém presente, mas, segundo o conselheiro nacional de saúde indígena e coordenador da Arti­­culação dos Povos Índigenas da Região Sul (Arpin-Sul), Rildo Mendes, já há um grande número de partos hospitalares e cesáreas. "A medicina atual está muito presente nas aldeias e freou o conhecimento tradicional", explica.

Contudo, a figura da parteira indígena ainda é muito viva e consolidada nas comunidades, principalmente em localidades distantes dos perímetros urbanos. As técnicas dependem muito de conhecimentos empíricos e variam de parteira para parteira.

Mas a prática não acontece apenas entre os indígenas. Segundo Thaísa Lewitzki, secretária executiva da Rede Puxirão de Comunidades Tradicionais, em Irati, por exemplo, a instituição encontrou 18 parteiras tradicionais, a maioria agricultoras aposentadas. "Diferente de outras regiões do país, onde as parteiras conseguiram institucionalizar direitos com parcerias, aqui elas não conseguem mais realizar o parto", diz.

Os motivos são dificuldades com o SUS e preconceitos dos profissionais de saúde em relação à prática, desestimulada em hospitais e postos de saúde. "Elas não reivindicam remuneração, pois afirmam que ser parteira é um dom que não há como cobrar, mas querem o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais", explica.

Em outros tempos, Curitiba era lar de parteiras, como Elfrida Taborda Siqueira, aposentada, 80 anos. Trabalhava na saúde pública, e não vivia do ofício: costumava cobrar quantias simbólicas que serviam para pagar pelo material usado no parto, entre luvas, bacias, e esterilizantes. "A parteira tem que ter noções, tem que ser bem orientada, ter higiene, saber reconhecer quando o parto é normal, quando tem que levar a grávida ao hospital", relata.

O dom ela lembra que herdou de uma tia que também era parteira. "Tive meus filhos em casa, me interessei, minha tia me incentivou e eu decidi fazer o curso", conta. A aposentadoria do ofício veio há 30 anos com as dores nas costas que sentia ao se abaixar nos partos. "Perdi a conta de quantos bebês pus no mundo, de uma só mulher fiz seis partos", rememora.

Futuro

Para o futuro, uma nova modalidade de parteira urbana: a enfermeira obstetra, que pratica partos domiciliares por escolha dos casais que preferem ter seus filhos em casa. Adelita Denipote, especializada em enfermagem obstétrica, já auxiliou nove nascimentos. "Existe um resgate da tradição do parto, da mulher. Em casa é ela quem decide como quer, como vai se mexer, como vai ficar", conta.

A ligação de Adélia Beatriz de Oliveira com o parto domiciliar começou "no susto". Em sua terceira gravidez, ela decidiu fazer apenas a preparação em casa, já que o marido resistia à ideia do parto no lar. Mas não deu tempo: Francisco não esperou. Já o nascimento de Helena foi planejado para ser domiciliar. Depois da experiência, Adélia decidiu estudar enfermagem para futuramente fazer o curso de especialização e se tornar uma delas. "Quero trabalhar para dar essa experiência a outras mulheres", conta.

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Quais direitos devem ser reconhecidos à parteiras tradicionais?

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