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Manoel de Barros, um dos grandes nomes da poesia | Marlene Bergamo/Folhapress
Manoel de Barros, um dos grandes nomes da poesia| Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

Bibliografia

Manoel de Barros tinha uma velocidade bem peculiar de produção, apesar de sua intensidade dos últimos anos. Poesias Completas, 2010, abarca todo o seu percurso literário, iniciado no fim da década de 1930. Veja abaixo a relação de livros do autor que ressignificou, na poesia brasileira, um certo jeito de entender o cotidiano:

• Poemas Concebidos Sem Pecado (1937)

• Face Imóvel (1942)

• Poesias (1956)

• Compêndio para Uso dos Pássaros (1960)

• Gramática Expositiva do Chão (1966)

• Matéria de Poesia (1974)

• Arranjos para Assobio (1980)

• Livro de Pré-Coisas (1985)

• O Guardador de Águas (1989)

• Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave (1991)

• O Livro das Ignorãças (1993)

• Livro Sobre Nada (1996)

• Retrato do Artista Quando Coisa (1998)

• Ensaios Fotográficos (2000)

• Exercícios de Ser Criança (2000)

• Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo (2001)

• O Fazedor do Amanhecer (2001)

• Cantigas para um Passarinho à Toa (2003)

• Poemas Rupestres (2004)

• Poeminha em Língua de Brincar (2007)

• Menino do Mato (2010)

• Poesias Completas (2010)

Um poeta das pequenas riquezas do cotidiano. Assim poderia ser definido o escritor mato-grossense Manoel de Barros, que morreu ontem, por volta das 8h30, aos 97 anos. Ele estava internado havia mais de uma semana em um hospital de Campo Grande, após passar por uma cirurgia de desobstrução do intestino. O corpo do poeta será velado hoje, a partir das 14 horas (horário local), no Cemitério Parque das Primaveras. O enterro está marcado para as 18 horas.

Em sua carreira de mais de 70 anos e 18 obras de poesia publicadas, além de diversos livros infantis e relatos memoriais, Manoel escreveu sobre a natureza dos pássaros, o compasso das formigas, os acontecimentos de sua infância e realizou um percurso afetivo-poético inusual na literatura brasileira: um autor que se marcou por escavar a profundidade da linguagem e dos sentidos, um documentarista poeta.

Como se sua vida fosse uma grande árvore de dinastias ancestrais, narrou os matizes do cotidiano e escreveu numa cadência singular, sem pressa, embora nos últimos 15 anos tenha publicado mais – e cada vez melhor. Por onde andou, desconstruiu sentidos e formou novas combinações. "A expressão reta não sonha", dizia.

Seu grande legado literário é Poesias Completas, de 2010, que reúne de Poemas Concebidos Sem Pecado, de 1937, ao Menino do Mato, de 2010. Ao longo de quase 500 páginas, entrega uma torre heterodoxa de observação, capaz de colocá-lo ao lado de grandes nomes da poesia brasileira do século 20, como Carlos Drummond de Andrade (que o admirava muito), João Cabral de Mello Neto e Ferreira Gullar.

Sua lírica marcava-se fortemente por seu potencial de surpresa e espanto. Era capaz de dizer coisas como "No amanhecer o sol põe glórias no meu olho" e fazia das miudezas uma pequena evocação da existência. Voz que se alimentou do sonho e das raízes semânticas – como se Magritte encontrasse Rubem Braga para elaborar um concerto – seu alicerce de imagens fugia de clichês e de lugares comuns.

Nascido Manoel Wenceslau Leite de Barros, em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, Manoel vivia em Campo Grande, com sua fazenda e seus imensos silêncios. Em "Didática da Invenção", composição do Livro das Ignorãças, de 1993, há uma definição que pode bem servir de relicário e epicentro de um certo modo de sentir: "Para entrar em estado de árvore é preciso/ partir de um torpor animal de lagarto às/ 3 horas da tarde, no mês de agosto".

A morte de Manoel de Barros nos priva de novas produções, interpretações e alumbramentos, mas sua escrita seguirá vigorosa, inconteste. Muitos ainda se surpreenderão com o poder de ligar uma palavra na outra daquele que disse ser o sapo um pedaço de chão que pula.

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