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Campo Largo

Nas terras polacas do imperador

A Colônia Dom Pedro II bem que tentou ser diferente, mas ser polonesa lhe era natural. Região assumiu suas tradições e firmou-se como comunidade rural

  • José Carlos Fernandes
Lúcia Kmiecik mora há 33 anos na Dom Pedro II: ela assumiu o museu da comunidade e a já tradicional “Festa da Batatinha” |
Lúcia Kmiecik mora há 33 anos na Dom Pedro II: ela assumiu o museu da comunidade e a já tradicional “Festa da Batatinha”
 
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Nas terras polacas do imperador

Dias atrás, durante uma excursão de escolares à Colônia Dom Pedro II, em Campo Largo, Região Metropolitana de Curitiba (RMC), uma criança perguntou à moradora Lúcia Kmiecik, 52 anos, se o pessoal ali vivia como os índios. Lúcia – uma “polaca de Contenda, dos Patczyk”, como gosta de se apresentar, eslava até a última porção de pierogi – caiu na gargalhada. Depois se aprumou. E respondeu: “Acho que sim – pensando bem, somos um pouco como os índios”.

VÍDEO: Conheça um pouco mais sobre a Colônia Dom Pedro II

SLIDESHOW: Veja algumas fotos da Colônia

A moradora da colônia – habitada por 180 famílias de origem polonesa – conta essa história tendo ao fundo um cenário típico, bem diferente dos bairros de sobradinhos ou de prédios altos. Dá para entender a pergunta inocente do visitante. Não só. Diferentemente de outros núcleos rurais da RMC, como Muricy ou Rebouças – a Dom Pedro II tem um “centrinho” ainda mais diminuto, que em muito lembra a estrutura das antigas vilas de imigrantes do século 19. Tem uma igreja, uma escola, uma venda, algumas poucas vivendas em volta. A maior parte das pessoas mora em chácaras de, em média, dez alqueires, distantes de três a cinco quilômetros uma da outra.

A Dom Pedro II é zona rural, ainda que fique a apenas 15 quilômetros da capital, o que tende a impressionar os visitantes, de qualquer idade. Um cruzeiro, logo na entrada, permite uma vista impressionante de Curitiba, o que pede fotos a granel e frases de espanto. “Como é que os moradores conseguiram não virar um bairro a mais?”

Está aí uma pergunta que não se furtam de responder, com sotaque carregado. Uma das hipóteses é a de que, por ironia, a colônia sobreviveu justamente por estar perto da capital e de Campo Largo. Por mais contraditório que pareça, os jovens saem dali para ir à faculdade e seus pais para irem às compras, com a mesma facilidade de quem mora no Atuba ou na Boa Vista.

Voltar para casa não implica o mal-estar comum a moradores das cidades muito pequenas: a sensação de estar privado dos avanços do século. Tablets, notebooks, TV a cabo, produtos do supermercado, nenhum desses quitutes modernos é estranho à turma que vive em Dom Pedro II. “Não saio dessa terra por nada”, avisa Alessandra Alex, 21 anos, moradora na divisa com outra colônia, a Figueiredo. “A conexão é melhor aqui do que em outras bandas”, diverte-se, sentada na sacada de uma casa polonesa secular.

Caso a proximidade amigável com a cidade não sirva de argumento para justificar a sobrevivência de Dom Pedro II, os moradores têm outras respostas ensaiadas. A colônia é uma Área de Proteção Ambiental (APA), gasodutos, torres da Copel, conjunto que ajudou a afugentar aventureiros, que adorariam erguer condomínios fechados à beira da BR-277, vendendo janelas com vista para os pinheirais, ainda comuns na região. Os próprios herdeiros de terras encontram restrições legais na hora de fatiar sua herança para venda, costume que descaracterizou áreas tradicionais, a exemplo do curitibano Umbará.

Recanto sim, parque não

Resta uma dúvida: nada impede que a colônia se transforme logo-logo numa divisa de chácaras incrementadas, com todos os dissabores do gênero: som alto nos fins de semana, festas de arromba, muros, cachorros ferozes e, o pior, desprezo pela comunidade local, como já acontece em outros municípios. Viraria um recanto tão bonito quanto artificial, enfim.

Católicos praticantes – com encontro obrigatório na frente da Matriz de Nossa Senhora da Anunciação, aos domingos – os moradores só faltam se benzer diante dessa hipótese. Nessas horas, recorrem ao último e mais forte dos argumentos. “A turma daqui é unida. A gente não deixa a nossa amizade morrer. Esse é nosso segredo”, conta o veterano José Ukasinski, 73 anos. “Quando um cachorro late avisando que tem estranho, os latidos vão se dando em cadeia. A gente se socorre”, conta, sobre o sistema de segurança da colônia. Lúcia prefere uma versão mais divertida: “É que polaco é teimoso, por isso não vamos embora”. Gargalha mais uma vez.

Há quem seja mais direto. O empresário Aleixo Kmiecik, 56 anos, marido de Lúcia, conta que não se faz de rogado diante dos “forasteiros”, interessados em fazer da Dom Pedro II um recanto de fim de semana. Dono de uma farinheira à moda antiga, com 60 anos de funcionamento, e muito procurado por curiosos, lembra aos interessados que morar ali é viver com a turma da colônia. Dom Pedro II não é um parque temático polonês. E ponto. Se for para fazer de conta que não existem, melhor não virem. A fala de Aleixo traduz o estado de espírito dos “pedro-segundenses”, protagonistas de uma espécie de “resistência natural”.

Como é próprio da zona rural, os moradores cuidam do local onde moram. Cometeram erros, como substituir a igreja antiga por uma nova, na década de 1980, e derrubar a maioria dos antigos casarões com lambrequim. Compensaram a barbeiragem criando um museu, com habitações de encaixe e em carvalho. O polonês falado em família ficou reduzido a poucas palavras, mas os mais velhos veem um súbito renascer de interesse da mocidade pela cultura polônica. Dom Pedro II se assume como colônia.

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Vida e Cidadania | 2:32

Conheça a colônia polonesa Dom Pedro II, em Campo Largo

Reduto polonês procura adaptar-se à modernidade, mas evita tornar-se paraíso de chácaras e condomínios fechados. Região resiste com agricultura familiar e adesão paulatina à cultura da soja.

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