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Imigração

O homem que provocou o mundo

O italiano Giovanni Rossi desafiou Igreja e Estado para criar a Colônia Cecília, primeiro experimento anarquista no Paraná

  • PorDiego Antonelli
  • 05/04/2013 21:10
O pesquisador Arnoldo Monteiro Bach mostra uma maquete da Colônia Cecília, que ficava em Palmeira | Luciano Mendes/Gazeta do Povo
O pesquisador Arnoldo Monteiro Bach mostra uma maquete da Colônia Cecília, que ficava em Palmeira| Foto: Luciano Mendes/Gazeta do Povo

O fim

Colônia Cecília sumiu do mapa quando tinha 50 moradores

Diversos fatores apressaram a saída de Giovanni Rossi da Colônia Cecília, em 1893, e o consequente fim do experimento no ano posterior. Segundo o livro de Cândido de Mello Neto e o pesquisador Arnoldo Monteiro Bach, a miséria dos colonos, os desentendimentos gerados pela distribuição dos trabalhos, o ciúme causado pelo amor livre e, principalmente, a Revolução Federalista, foram alguns dos motivos que levaram ao desaparecimento de Cecília, quando ela tinha cerca de 50 moradores.

"O Rossi saiu de Cecília pela situação complicada do Brasil naquela época. Os anarquistas estavam sendo perseguidos e a vida dele corria perigo. Apesar de não ter ligação com os maragatos da Revolução Federalista, os membros da colônia eram perseguidos. Rossi era tido com uma pessoa indesejável", explica Bach.

Além disso, a historiadora Helena Mueller lembra que houve épocas em que chegaram muitas famílias e que faltou comida e terra para todos.

Para saber mais

Livros e exposição tratam mais da Colônia Cecília. Confira:

Prateleira

- O Anarquismo Experimental de Giovanni Rossi , de Cândido de Mello Neto

- Um Amor Anarquista, de Miguel Sanches Neto

- Colônia Cecília, de Arnoldo Monteiro Bach

Visite

- O Memorial da Colônia Cecília fica no Museu Sítio Minguinho em Palmeira (PR), na Rua Jesuíno Marcondes, 1.549. É preciso agendar as visitas pelo telefone (42) 3252–3362.

  • O pesquisador Arnoldo Bach mostra fotos de membros da Colônia Cecília
  • Réplica mostra como era o ‘caixa comum’ da comunidade
  • Alguns objetos que fizeram parte de Cecília
  • Giovanni Rossi morreu em 1943 na Itália, aos 86 anos

Quando Giovanni Rossi embarcou no porto de Gênova, na Itália, em fevereiro de 1890, o plano já estava traçado. Doze anos antes, o agrônomo e médico veterinário havia escrito a primeira edição do livro Uma Comuna Socialista, que idealiza a criação de uma comunidade nos moldes do anarquismo. O plano era colocar a ficção na prática, algo que ele até tentou em 1886. Mas o receio dos camponeses atrapalhou a primeira investida de Rossi.

Veja mais fotos do Memorial da Colônia Cecília

O fracasso na terra natal, entretanto, não o desanimou. Ele e outros cinco companheiros – quatro homens e uma mulher – embarcaram no navio a vapor com a ideia de transformar a utopia em realidade. A ideia inicial era instalar uma colônia experimental anarquista no Uruguai. Mas o marear da longa viagem, que afetou dois membros do grupo, fez Rossi e sua trupe mudarem os planos e desembarcarem no Paraná em março de 1890.

O Brasil estava movimentado. Em novembro de 1889, o Império havia sido substituído pelo regime republicano; e dois anos antes ocorrera a abolição da escravatura.

Em Palmeira, ele e seu grupo constituíram a primeira e a mais importante experiência anarquista no estado. Ao chegarem a Curitiba, entraram em contato com a Inspetoria de Terras e Colonização e compraram alguns alqueires perto da cidadezinha. No dia 2 de abril de 1890, Rossi declarou oficialmente a formação da Colônia Socialista Cecília, que existiu até 1894.

No entanto, há 120 anos, em abril de 1893, a colônia já mostrava sinais de cansaço. Nessa época, o próprio Rossi acompanhou a debandada de diversos integrantes e tentou se estabelecer em Curitiba. Depois, foi trabalhar como agrônomo e veterinário no Rio Grande do Sul. Mais tarde, transferiu-se para Santa Catarina, onde colaborou na criação das primeiras cooperativas agrícolas. Em 1906 regressou definitivamente à Itália, onde morreu em 1943, aos 86 anos.

Desafio

Ao instalar o seu "novo mundo", Rossi desafiou de uma só vez igreja, família e estado. Na Colônia Cecília, a religião não tinha vez: os membros eram ateus, e as datas religiosas eram ignoradas. Os casamentos não existiam oficialmente e as propriedades privadas eram negadas.

Rossi passou por cima de leis federais, estaduais e municipais. O italiano também defendia o amor livre, experiência que ele provou entre o final de 1892 e começo de 1893, quando dividiu a mesma mulher com outro morador da colônia. "Ele desafiou as três principais instituições da época. Só por isso podemos dizer que a experiência foi genial", ressalta o pesquisador Arnoldo Monteiro Bach, que lançou em 2011 o livro Colônia Cecília e montou em seu museu um memorial à colônia, com maquetes e objetos que fizeram parte da época.

Origens

Desigualdade social despertou o sentimento anarquista em Rossi

A ousadia de Giovanni Rossi, influenciada pelos ideais socialistas, começou ainda na adolescência. Nascido em Pisa, ele não se conformava com a situação vivida pela maioria das pessoas. "Rossi estava indignado com a situação dos camponeses, que viviam na miséria, sendo explorados pelos patrões", conta o pesquisador Arnoldo Bach.

Enquanto vivia na Colônia Cecília, Rossi também ia à Itália fazer propaganda do experimento instalado no Paraná e atrair simpatizantes – Cecília começou 1890 com apenas seis pessoas. "O duro contraste entre teoria e prática se apresentou nos primeiros dias ao grupo de pioneiros idealistas. Traziam pouca experiência para cumprir os ideais de sobrevivência de uma colônia agrícola", constata o pesquisador Cândido de Mello Neto, autor do livro O Anarquismo Experimental de Giovanni Rossi.

No ano seguinte, mais de 200 pessoas desembarcaram em Palmeira. Porém, nem todos eram adeptos dos ideais anarquistas, e o resultado não foi dos melhores. Um grupo roubou o dinheiro mantido no caixa comum (qualquer um poderia ter acesso ao dinheiro mantido na Colônia) e fugiu. Em 1892, a população foi reduzida a 64 habitantes.

No ano seguinte, após manter a primeira relação de amor livre na Colônia, Rossi ainda viu um segundo casal poliândrico surgir no local. Em seguida, partiu para Curitiba com a convicção de que era possível, sim, estabelecer um novo estilo de vida.

Para a historiadora Helena Mueller, o experimento de Rossi traz outra mensagem. "Um dos legados que ele nos deixou é de que é possível lutar para tentar construir um mundo mais justo e igualitário".

Memorial da Colônia Cecília

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