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Cannabis

O que dizem as pesquisas que contestam o uso medicinal da maconha

  • Por Isabelle Barone
  • 24/01/2020 17:24
Imagem ilustrativa.
Imagem ilustrativa.| Foto: Unsplash

Ao mesmo tempo em que o Brasil assistiu à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permitir o registro e venda de substâncias ditas popularmente como "medicinais" à base de maconha, foi alertado pelo próprio órgão sobre a falta de estudos que assegurem a eficácia das mesmas. Razão essa que fez com que a agência decidisse por classificar esses fármacos como "produtos" e não "medicamentos". O cultivo da planta, além disso, para fim medicinal, foi integralmente vetado pela Anvisa.

A grande quantidade de componentes da planta e as interações complexas entre essas substâncias tornam o estudo da erva uma tarefa complexa. E os efeitos dos tratamentos dependem da concentração de cada composto nos medicamentos, sobretudo do tetrahidrocanabinol (THC), responsável por provocar "euforia" mas que também pode induzir psicoses e outros problemas.

Até hoje, grande parte das pesquisas conceituadas revela que existem, sim, evidências de benefícios, no entanto, os indícios são pouco encorajadores. Alguns estudos, inclusive, classificam os efeitos como "marginais" e, em outros casos, alertam que o uso de medicamentos à base da erva podem ser muito prejudiciais.

Abaixo, três pesquisas que contestam o uso da cannabis para fins medicinais:

1. Cannabis não ajuda contra dependência em cocaína

Para atestar se a cannabis poderia ajudar pacientes durante o tratamento de reabilitação da dependência de cocaína e crack, pesquisadores descobriram que o consumo da planta nessas circunstâncias, na verdade, acaba por piorar o quadro clínico dos pacientes. A análise foi publicada no periódico Drug and Alcohol Dependence.

Alguns dependentes costumam recorrer à maconha com o intuito de amenizar a ansiedade provocada por drogas como o crack e a cocaína, prática já endossada por pesquisadores, mas que foi, recentemente, contestada por membros do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA) e do Laboratório de Neuroimagem dos Transtornos Neuropsiquiátricos (LIM) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Eles acompanharam 123 participantes, ao todo. Alguns eram dependentes de cocaína e também faziam uso de cannabis, outros, dependentes de cocaína que não consumiam maconha, além de pessoas voluntárias sem histórico de uso de drogas.

A longo prazo, a associação dessas duas substâncias não ajudou os dependentes a deixar de consumir cocaína, não aliviou os sintomas de ansiedade e ainda piorou seu quadro clínico. Segundo os pesquisadores, os dependentes que já apresentavam déficits neurocognitivos antes de consumir maconha foram ainda mais afetados após fazer uso da erva.

"Um quarto daqueles que não fumou maconha conseguiu controlar o impulso de usar cocaína, enquanto só um quinto não teve recaída entre os que supostamente se beneficiariam da estratégia de redução de danos", disse o pesquisador Hercílio Pereira de Oliveira Júnior, um dos autores da análise, à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). "O uso pregresso de maconha não traz melhoras de prognóstico no longo prazo, o estudo até sugere o contrário".

2. Efeito contra muitas doenças é "marginal"

Uma revisão sistemática e meta-análise de 2015 revelou que não há efeito significativo do uso de medicamentos à base de cannabis, com quantidades idênticas de tetrahidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), componentes da planta, para o tratamento de doenças ligadas ao sistema nervoso. Um estudo do Centro de Pesquisa de Abuso de Substâncias entre Jovens, da Universidade de Queensland, publicado na revista The Lancet, uma das mais conceituadas de medicina, endossa a revisão.

A pesquisa classifica os benefícios dos produtos à base da erva como "marginais", e revela que evidências sobre a eficácia desses medicamentos são escassas no Canadá e nos Estados Unidos, pioneiros na permissão de venda de medicamentos feitos a partir da cannabis.

Em pacientes com esclerose múltipla, por exemplo, o uso medicinal da cannabis pode reduzir as dores causadas pela doença, mas o nível da redução é "modesto", diz a pesquisa. Para o tratamento contra a depressão, além disso, evidências de eficácia são "muito baixas", considera.

Em casos de dores e incômodos (náusea, vômito, dor e sono) enfrentados por pacientes com câncer em cuidados paliativos, são raras as evidências de que remédios à base de maconha podem ajudar, em comparação com placebos - procedimentos médicos não fármacos que atuam de forma "psicológica". São fracas, sobretudo, as evidências de que o THC sintético estimula o apetite perdido por pessoas portadoras da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida  (AIDS).

Os efeitos existem, mas se mostram "marginais" e há escassez de pesquisas, defende o estudo, e, por isso, pesquisadores sugerem que, antes da recomendação de medicamentos à base de cannabis, sejam buscadas outras alternativas com eficiência já comprovada. Médicos canadenses e dos EUA, inclusive, relutam em recomendar medicamentos feitos a partir da erva, pela falta de base científica sobre sua eficácia.

3. Falta de comparação com outros medicamentos

Outro estudo publicado na revista acadêmica de medicina The Journal of Family Practice orienta, como os pesquisadores de Queensland, que medicamentos à base de maconha somente sejam recomendados caso outras opções de tratamento tenham sido totalmente descartadas. Os autores do artigo argumentam que, "embora muitas reivindicações tenham sido feitas a respeito dos efeitos terapêuticos da cannabis, poucas delas têm base científica que as fundamentem".

Pacientes que são medicados com fármacos à base de maconha em tratamentos contra náusea e vômito provocados pela quimioterapia, embora se tenha conhecimento sobre a "sedação" como potencial efeito benéfico, são mais prováveis (quando comparados a pacientes recebendo outros antieméticos - remédios que combatem o vômito) a deixar os estudos, devido a efeitos adversos, incluindo tonturas, disforia, depressão, alucinações e paranoia.

"Para as condições que se qualificam para o uso desses medicamentos, de acordo com as leis estaduais norte-americanas, como insônia, hepatite C, doença de Crohn, ansiedade e depressão, entre outros, a evidência [da eficácia de medicamentos de maconha] é de qualidade muito baixa ou inexistente", contesta o estudo. "Uma revisão sistemática de 2014 constatou que canabinoides têm eficácia desconhecida em tratamento de sintomas relacionados à doença de Huntington, síndrome de Tourette, distonia cervical e epilepsia".

Entre as pesquisas, uma revisão bibliográfica sobre o uso de cannabis contra dor crônica e neuropática descobriu efeitos positivos em vários de seus ensaios. No entanto, esse e a maioria dos outros estudos que defendem o uso medicinal da maconha não comparam, durante as análises, os efeitos da cannabis com outros analgésicos, diz o artigo.

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Comentários [ 20 ]

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  • S

    Sergio Roberto de Andrade Leite

    ± 0 minutos

    A insistência que se verifica por parte de instituições não científicas e pela mídia leiga em favor do uso medicinal da maconha, parece-me que tem origem em interesses econômicos ou na simpatia de usuários "recreacionais". Existem no Brasil milhares de espécies vegetais ainda não estudadas do ponto de vista químico e farmacológico, e se gasta tanto tempo e recursos nesta planta "privilegiada".

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  • C

    Cristian carla a. Volski cassi

    ± 186 dias

    É necessário muito estudo, parcimônia e pesquisas. As substâncias psicoativas acompanham a humanidade desde sempre contudo, eram usadas em rituais e tals. Hoje a disseminação tem servido infelizmente para a destruição individual e coletiva. Vivemos tempos sombrios. Lutar contra "a maré" não é fácil. Mas pergunto porque escolhemos colocar em nossos corpos e mentes substâncias que a médio e longo prazo não nos trazem benefícios?

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  • T

    Thomas

    ± 188 dias

    Há pessoas que utilizam o canabidiol para fazer uma associação de uma coisa positiva a outra que é destruidora. É o ativismo que prejudica crianças com problemas de saúde sérios. Seria a mesma coisa dizer que a heroína não é má porque vem da papoula, de onde se extrai a morfina que é um remédio. A morfina é muito usada por pacientes com câncer. Muita gente aqui ainda vai precisar. Imagine você ser prejudicado pela militância de drogados “recreativos”. Lamentavelmente alguns “cientistas” defensores/usuários da maconha preferiram pesquisar essa planta em vez de pesquisar as milhares de espécies vegetais que poderiam trazer resultados até bem melhores. É o ativismo mostrando a sua face.

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  • C

    Celito Medeiros

    ± 188 dias

    Bom seria apresentar um texto sobre o que existe na internet facilmente encontrada até no Youtube: Psiquiatria - Uma Indústria da Morte. Todos os depoimentos de médicos, psiquiatras, psicólogos e outros, incluindo a opinião do ex Presidente da Psiquiatria Mundial - Não temos diagnósticos científicos, apenas rotulagem pelos CIDs, onde todos erram e nada acertam, pois não entendemos de Saúde Mental. Nenhuma cura, o máximo seria controle de somáticos.

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    • C

      Celito Medeiros

      ± 188 dias

      Psiquiatria - Uma Indústria da Morte: https://www.youtube.com/watch?v=s-JIG8xqB5s&t=6s

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  • F

    FLAVIA FERREIRA CUNHA

    ± 188 dias

    Gostaria que a Gazeta apresentasse reportagem das famílias de crianças que possuem graves doenças e que só melhoram com o uso do canabidiol. Assim, o jornalismo se torna mais imparcial.

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    TOATOA

    ± 188 dias

    esta erva faz um bem... relaxa,acalma...

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  • A

    antonio sergio ferreira baptista

    ± 188 dias

    A Gazeta está corretíssima. As evidências científicas (alguem aqui nos comentários leu o Lancet? ou outras revistas medicas com credibilidade? Ou sabe como deve ser avaliada estatisticamente a atuação de um medicamento?) mostram que os benefícios da chamada maconha medicinal são, no máximo, marginais (sem trocadilhos). Basear suas opiniões em revistas populares em nada ajuda para tentar beneficiar paciente que precisam de medicamentos com eficácia comprovada.

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  • J

    JP

    ± 188 dias

    Qual será o problema da Gazeta? Comparo esse tipo de matéria estupida e sem fundamento com o Bolsonaro dizendo que vai esvaziar o ministério do Moro. É desejo de autodestruição, tanto o presidente quanto a Gazeta estão necessitando de ajuda psiquiátrica com urgência.

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    • V

      ValmirBCardoso

      ± 188 dias

      tá doido zé droguinha de esquerda?

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  • L

    LEONARDO RIBAS GOMES

    ± 188 dias

    A Gazeta bem que poderia fazer jornalismo sério e levar uma equipe a Israel para entender porque lá a maconha é liberada para fins recreacionais (ninguém vai preso por fumar uma flor), e também porque Israel lidera em pesquisa de maconha medicinal? Lá médicos não tem preconceito em receitar, e pesquisar sobre essa planta que pode trazer diversos benefícios as pessoas.

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  • L

    LEONARDO RIBAS GOMES

    ± 188 dias

    Como todo fitoterapico, ha necessidade de pesquisas para se encontrar a dosagem certa para cada aplicação médica. A Gazeta ainda tenta lutar contra uma realidade, mas não tem como. JÁ temos remédios a base de cannabis para crianças com um tipo raro de epilepsia. Será que a Gazeta é contra? Só por uma questão religiosa? Isso é jornalismo Gazeta? Apenas para informação, temos 7 remédios a base de cannabis em fase III junto a FDA (food and drugs adm) dos EUA.

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    • A

      Astro

      ± 188 dias

      Exatamente, ótimo comentário.

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  • C

    Celito Medeiros

    ± 188 dias

    Não é pior do que Drogas Psiquiátricas Opiáceas e Benzodiazepínicas, mesmo que ambas apenas dopam e não curam nada... A Indústria Farmacêutica é poderosa e seus traficantes legais obedecem por meras esmolas...

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    • C

      Celito Medeiros

      ± 188 dias

      Posso compreender os que fazem uso de receitas dos traficantes legais, afinal, é a grande maioria, cerca de 100 milhões de Brasileiros usuários de ópio (Opiáceas) e as sintéticas (Benzodianzepínicas), onde nosso maior problema é não termos no Brasil tecnologia moderna de saúde mental que impedem que se estabeleça. Como afirmou à revista IstoÉ, um professor universitário: Todos os médicos se vendem para a indústria farmacêutica, por um lap top, diploma na parede ou viagens às Bahamas. Deveriam pesquisar na web: Psiquiatria - Uma indústria da morte.

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  • D

    Decio mango

    ± 189 dias

    Maconha só e bom para maconheiros...e aquele cheiro de merdia então..

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  • D

    Diogo

    ± 189 dias

    As pessoas acham que o canabidiol e a cannabis são a solução para todos os problemas médicos! Ledo engano. Ainda veremos muitos problemas resultantes do uso medicinal dessas drogas! E as doenças continuarão atormentando aos pacientes.

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  • M

    Marçal

    ± 189 dias

    Qual a conclusão da autora? Parem as pesquisas? Continuem as pesquisas? Vale ver o que o Dr Drauzio Varela fala a respeito. https://www.google.com.br/amp/s/emais.estadao.com.br/noticias/gente,nao-fumo-maconha-mas-tenho-uma-vivencia-longa-com-a-droga-diz-drauzio-varella-sobre-nova-serie,70002801288.amp

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    • M

      Marçal

      ± 188 dias

      É uma referência ruim? Não acho não.

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    • C

      Celito Medeiros

      ± 188 dias

      Drauzio Varela? kkkk

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