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O Rebouças ainda pulsa

Estagnado há quatro décadas, antigo bairro industrial curitibano reacende ideia de SoHo local com a chegada de novos moradores

  • José Carlos Fernandes
Vista panorâmica do Rebouças com os arranha-céus curitibanos ao fundo. Bairro já passou por várias tentativas de revitalização |
Vista panorâmica do Rebouças com os arranha-céus curitibanos ao fundo. Bairro já passou por várias tentativas de revitalização
 
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O Rebouças ainda pulsa

No último ano, gestores públicos, empresários e até os padres que atuam no Rebouças, em Curitiba, pararam de coçar a cabeça a cada vez que se fala no destino do bairro. Depois de um sem-número de tentativas, a região – uma das mais antigas da cidade, o Campo da Cruz, com registros no final do século 19, quando foi implantada a estrada de ferro – passou a atrair novos moradores, dando trégua à fama de zona escura, perigosa, um corredor de passagem assombrado pelos 2 mil carros/hora que circulam nas esquinas da Getúlio Vargas, João Negrão e Engenheiros Rebouças.

Hoje, de acordo com a Secretaria Municipal de Urbanismo, há 205 alvarás em andamento, cada um com potencial para 146 residências. Fora os prédios que já beijam o céu, como o Boulevard Rebouças, endereço de 700 novos condôminos. Some-se as 1.117 unidades aprovadas em 2006. Que se faça as contas. É fato que não chega a ser um boom imobiliário. Colocado ao lado do Portão, Água Verde, Bigorrilho e Juvevê, o Rebouças permanece trançando as pernas (veja gráfico), um espanto ao se considerar que abriga 12,3 mil estabelecimentos comerciais e que está nas barbas do melhor equipamento urbano da capital, o Centro.

Apenas 15.980 moradores desfrutam da proximidade com a Rua XV ou o que valha. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), o crescimento anual do bairro é de tímidos 0,33%, contra 3,3% do emergente Portão.

Tentativas de renovação

A lentidão do Rebouças em reencontrar sua vocação se tornou uma das lendas curitibanas, ao lado do Pirata Belmiro. A reviravolta era esperada no plano-diretor de 1965. Nada. Ficou para 1973, ano da criação da Cidade Industrial de Curitiba. A CIC, acreditava-se, selaria o fim da era Rebouças como área fabril e atrairia a classe média beneficiada pelo milagre econômico. Os novos ricos, como depois foram batizados, adorariam ser vizinhos de famílias como os Munhoz da Rocha e dos empresários que viviam ali para ficar próximos de suas empresas.

Pois não aconteceu. Com a CIC veio a crise mundial de 1975. Em 2003, nova tentativa. Naquele ano, o Decreto Municipal 223 criou o projeto Novo Rebouças, dividindo o bairro em três zonas, de modo a garantir música alta, bares, oficinas e ateliês, entre outros petiscos dos bairros industriais que se transformaram em bairros culturais, à moda do SoHo (South of Huston) de Nova York. Há quem diga nem ter notado.

Para os idealizadores do projeto – os arquitetos da prefeitura Sérgio Tocchio e Fernando Canalle – um SoHo leva tempo. No que estão prenhes de razão.“Boa parte das fábricas se foram do Rebouças nos anos 70, mas o setor de serviços não. Houve restrições à poluição, mas nenhum industrial se viu obrigado a mudar para a CIC. No mais, o bairro tardou a reagir”, analisa Lourival Peyerl, supervisor de Informações do Ippuc.

Justamente desse charme passadista é que veio a tentação de reciclá-lo e transformá-lo num SoHo. Apesar do nome “metido a besta” – como teimam em acusar os desinformados – o conceito é um primor de civilidade. Voltar a essas áreas antigas costuma ser a salvação das grandes cidades.

O Brasil tem exemplos o bastante. Vale citar a Vila Madalena e a Barra Funda, em São Paulo; as zonas portuárias de Santos e do Rio de Janeiro. E o próprio Pelourinho, cuja mão de tinta e o carinho dos soteropolitanos trouxeram mais dinheiro do que a implantação de uma montadora. Ora, o Rebouças é o SoHo curitibano por direito.

Em 2003, vale recordar, o projeto Novo Rebouças foi a melhor, senão a única, novidade no movimento cultural curitibano. A Rua Chile se viu apinhada de bares da moda. E as chamadas “residências” – casas alugadas via edital da prefeitura, para que artistas se mudassem para as rebarbas da Piquiri –, deram a entender que a sociedade alternativa e criativa desceria a Rua Alferes Poli ao som de “Aquarius”.

A própria Fundação Cultural de Curitiba fez sua parte, instando-se num antigo moinho da Rua Engenheiros Rebouças. Mas algo saiu dos trilhos. Os bares da Chile nasceram na rabeira das faculdades próximas, demonstrando pouca afinidade com a ideia de SoHo. E tem o trânsito: sem gente circulando, a pé, ou indo à padaria e à farmácia próxima, não há solução. “Faltou um toque de SoHo”, reconhece Nilton Antonietto, da diretoria de Incorporações da Thá – responsável pela mudança de pelo menos mil moradores para a região. Ele é da turma dos que ainda apostam.

Tartaruga

Em 2007, a Thá, em parceria com a Rossi, mapeou o bairro e lançou o projeto Viva Rebouças, numa iniciativa rara no setor de negócios: valorizar a tradição dos locais em que aportam, fugindo ao rótulo de predadores. Cerca de 3 mil cartilhas sobre a área foram distribuídas. E os construtores avisam que estão atrás de terrenos com mais de 10 mil metros quadrados.

Mesmo com tantas possibilidades de atrair gente, três anos depois de colocar o Novo Rebouças na berlinda a prefeitura o pôs para descansar, reforçando a síndrome de tartaruga. É assunto delicado nos meios municipais, o que a venda e a destruição da Matte Leão só vem a confirmar. Sem uma política para sua paisagem fabril, o Rebou­ças pode virar um lugar qualquer e a conversa do SoHo não passar de um verniz bonito para despistar políticas refratárias à memória de Curitiba.

O Ippuc confirma que a Ambev, antiga Brahma, e a Mate Real também estão de partida. Suas paredes também podem ir abaixo. Quem fica, por ora, é a antiga Fiat Lux, cujo título retirado da narrativa bíblica da criação do mundo – o “faça-se a luz” – poderia servir de inspiração para quem gerencia o Rebouças.

“Não há dinheiro para tudo”, avisa Reginaldo Reinert, da supervisão de Planejamento do Ippuc. “A gente gostaria que mantivesse a atmosfera do reciclado. Vai depender também dos empreendedores. Talvez não esteja claro. Depen­demos de alguém que compre essa ideia”, reforça Lourival, sobre o impasse que ainda ronda o bairro.

Reinert, a propósito, está à frente da mais nova cartada da prefeitura para a região – o Tecnoparque, um conceito autoexplicativo. Na região há a UTFPR, o Unicuritiba e a Opet, e terá o novo câmpus da UFPR – na antiga sede da RFFSA – e barracões de penca. Os que não forem comprados por grandes incorporadoras imobiliárias ou por igrejas, quem sabe, poderão servir de sede para incubadoras tecnológicas. No lugar do SoHo, um grande núcleo de ciência e pesquisa. Esta é a novidade. “Mas é um projeto”, avisa Reinert.

Colaborou Oliver Altaras, especial para a Gazeta do Povo

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