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Natureza

O verde pintou no muro

A expressão “agricultura urbana” ainda não caiu na boca do povo, mas já representa um movimento silencioso, que atinge 12 mil pessoas apenas na periferia de Curitiba

  • PorJosé Carlos Fernandes
  • 22/11/2008 21:06
Confira que a região CIC e o Piinheirinho tem o maior número de hortas e lavouras na cidade |
Confira que a região CIC e o Piinheirinho tem o maior número de hortas e lavouras na cidade| Foto:

Eles vão à roça peça calçada

"Jair 17", "Alessandra 21". As plaquinhas na quina dos canteiros não deixam dúvidas – essas hortas têm dono. Se o mato cobrir o nome do agricultor, é hora de rever o acordo e repassar os canteiros – de em média 150 metros quadrados. É justo, afinal tem fila de espera. Foi assim – pela resistência de alguém em se render aos rigores da enxada – que o casal Orlando, 48 anos, e Antônia Barreto, 50 anos, conseguiu em 2008 um canteiro para chamar de seu na horta comunitária do Condomínios Rio Bonito, Campo de Santana, instalada numa área de 6 mil metros quadrados embaixo das torres da Eletrosul.

Leia a matéria completa

  • Wílson Brito na horta comunitária que mantém no Jardim Dom Bosco, em consórcio informal com mais três moradoras: pedreiro de profissão, agricultor por vocação
  • Orlando e Antônia Barreto na horta comunitária do Rio Bonito: uma plaquinha com o nome dela bem grande
  • O caminhoneiro Hélio Barbosa e sua família, na horta comunitária do Vitória Régia, na CIC: a hora do vizinho é mais bonita

Quando o caminhoneiro Hélio Barbosa, 48 anos, conta Brasil afora que cultiva uma horta de cento e tantos metros quadrados, onde "em se plantando, tudo dá", recebe em troca olhares desconfiados. "Na cidade grande? Conte outra." Pois é, há sete anos Barbosa cuida de um lote na horta comunitária do condomínio Vitória Régia, na Cidade Industrial de Curitiba. Tomou tanto gosto que a enxada virou sua segunda boléia. Hoje, faz parte do seletíssimo grupo de agricultores urbanos. A categoria é pouco conhecida, mas já agrega, apenas na capital paranaense, 1,2 mil famílias, responsáveis por 220 hectares de área plantada e 3,5 mil toneladas verduras e legumes colhidos em 2006-2007.

O exemplo de Barbosa pode servir de estímulo para quem até gostaria de manter uns canteirinhos de cheiro-verde no quintal, mas acha que tem pouco tempo e muita dor nas cadeiras. Mesmo passando a maior parte da semana na estrada, seu minifúndio é de dar gosto. "Arrastei a mulher e os filhos para o meu hobby", conta, amenizando os elogios. "A horta do vizinho é sempre mais bonita", brinca, dando contas de um dos maiores trunfos dos programas de plantio em zonas urbanizadas: o estímulo à convivência com a turma do bairro.

Aos sábados, quando os engenheiros e técnicos agrícolas da prefeitura visitam as cerca de 150 áreas de plantio já instaladas na capital, é possível encontrar até 200 moradores carpindo a parte que lhes cabe. Lembra festa de colônia. A horta virou praça. Há quem venda verduras e legumes, lucrando até meio salário mínimo por mês, mas a maioria transforma a atividade num "clube de troca" entre parentes e conhecidos. "Com esse milho faço pamonha e curau. Se colocar na ponta do lápis, melhor comprar no mercado. Mas aqui é meu quintal, meu jardim. O que sai dessa terra não se vende, se reparte", alardeia Vílson Francisco, 41 anos, funcionário de uma importadora de alimentos e responsável, nas horas vagas, por uma área de lavoura comunitária no Campo de Santana.

Ainda não se pode chamar as hortas coletivas ou o plantio doméstico de um movimento urbano. Mas pelo andar da carroça, a alvorada se anuncia. A transformação de quintais e zonas baldias – como as inutilizadas pelas torres de transmissão de eletricidade – em áreas de cultivo cresce de forma combinada com outras ondas, como o debate sobre segurança alimentar e as práticas de consumo consciente. Dá para apostar: é improvável que alguém volte atrás depois de redescobrir o caminho da roça – mesmo que ao lado dela passe uma avenida.

Semana passada, a reportagem da Gazeta do Povo acompanhou uma oficina de horta doméstica para 20 voluntários da Pastoral da Criança, organização não-governamental que mobiliza 260 mil agentes. À frente do grupo de futuros agentes, o zootecnólogo Édson Rivelino Pereira, 37 anos, gerente do Programa de Agricultura Urbana da prefeitura, deu uma amostra do que acontece nos encontros com a população. Enquanto lidava com um canteiro de três metros quadrados, Pereira mostrou que a primeira reação dos candidatos a agricultores é de emoção. A horta é sinônimo de reencontro com a terra e com os ciclos da natureza. Enquanto aprende a pilotar o rastelo, não raro, alguém puxa pela memória os pais ou avós que viviam no campo.

O laboratório também o momento de se dar conta de que plantar na cidade é parecido, não igual à roça. A terra disponível nos espaços urbanos costuma não ser de boa qualidade – por ter sido muito remexida e por conta dos contínuos aterros, feitos com caliça ou com argila ácida, pobre em matéria orgânica. Outro desafio é encontrar o lugar adequado para plantio na frente ou atrás de casa. O espaço tem de ser arejado, iluminado, com boas condições de drenagem. Pode, porém, ser pequeno: "Dá para plantar 16 pés de alface por metro quadrado", ilustra o técnico. Por fim, é preciso vencer o preconceito de que alface e tiririca são um péssimo cartão de visitas – abrigo para bichos e para problemas.

Esses detalhes tendem a levar muita gente a optar pela grama ou chamar o pedreiro para cimentar tudo. Depois de ensinar a tratar o solo e erguer um canteiro bem bonito, mostra-se que é possível, por exemplo, consorciar jardinagem e plantação. E organizar plantio em série, para não se ver da noite para o dia com verdura para alimentar uma tropa. "O manejo é diferente. A agricultura urbana tem de ser mais estética e planejada", explica. "Ninguém deve plantar, por exemplo, o que não gosta de comer. É fracasso na certa." A agrônoma Hilda Carachenski, 32 anos, também ligada ao programa, lembra que recorrer às lições da agricultura orgânica, familiar e natural também é palavra de ordem. "Tem lições da tradição que a ciência não reconhece, mas que ajudam neste tipo de trabalho. É o caso das plantas amigas e inimigas. A agricultura urbana é uma soma de conhecimentos."

Como as necessidades urbanas são muitas, os programas se desdobram. Quem só tem espaços para vasos pode aderir ao "Horta em qualquer lugar". O programa "Nosso Quintal", da prefeitura, além de lavouras, também contempla pátios de colégios, de unidades de saúde ou de associações de bairro. Hoje, por exemplo, cerca de 40 colégios aderiram ao programa – coordenado pelo agrônomo e professor de Matemática Mário Kunio Takashina, 59 anos – um entusiasta da idéia. "Chamo de horta pedagógica", desata, ao listar o sem-número de atividades que podem ser desenvolvidas enquanto se planta – de tabuada a geometria perpendicular.

"Para a criançada, almeirão, escarola, é tudo alface", brinca Takashina, de posse do que considera a grande conquista da hortinha escolar: reatar o elo perdido com a natureza. Nos dias em que o agrônomo mostra um filme sobre a vida que há num punhadinho de terra, a criançada esbugalha os olhos. Se houver degustação da quitanda local, então, tem-se o milagre. "Já vi professora baldeando terra boa de casa para melhorar a horta. Se essa idéia tem futuro? Ora, se não."

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