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Em tempos de uma crise política sem precedentes, coube ao deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) segurar a caneta mais pesada de Brasília. Está nas mãos dele o relatório do orçamento da União de 2016, ano dramático para o bolso de todos os brasileiros. Enquanto os presidentes da República, Dilma Rousseff (PT), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), se engalfinham e paralisam o Legislativo, Barros rouba a cena com propostas como o corte de 35% do Bolsa Família e o aumento de R$ 0,40 no litro da gasolina.

Ambas as propostas assustam. Por isso há quem diga que, na verdade, são um pretexto para a aprovação do que o Palácio do Planalto realmente deseja, a volta da CPMF. Um recado na seguinte linha para os parlamentares: se vocês acham o imposto do cheque um remédio amargo, quero ver explicar nas bases que ninguém mais vai entrar no Bolsa Família ou que o combustível vai subir (de novo) mais de 10%.

Barros não deixa claro o assunto. “Se você me perguntar se eu vou votar a favor da CPMF, pode dizer que sim”, responde, quando confrontado sobre a ligação entre uma coisa e outra. Na Comissão Mista de Orçamento, porém, o discurso dele é de defesa institucional da Câmara: “Se o governo não nos envia uma proposta de orçamento capaz de acalmar o mercado, é nosso papel fazê-lo”.

Ideologia à parte, não é fácil posar de exterminador do Bolsa Família (está mais do que óbvio que o programa vai para o vinagre se perder R$ 10 bilhões dos R$ 28,8 bilhões previstos). O fato é que o paranaense aceitou uma missão árdua, seja se for para jogar o jogo do governo, seja se for para destruí-lo. Tanto que, nas eleições de 2014, houve um consenso sobre a continuidade do projeto entre os candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves (PSDB).

O tucano, aliás, chegou a brigar pela “paternidade” do projeto. “Se nós fizermos um DNA do Bolsa Família, o pai será o presidente Fernando Henrique e a mãe será a dona Ruth Cardoso, porque foi ali que nós mudamos a compreensão em relação às necessidades das pessoas”, chegou a dizer, durante debate eleitoral. A estratégia, obviamente, era evitar o papo de que o PSDB iria simplesmente acabar com o programa.

Atualmente, o programa tem quase 14 milhões de beneficiários. Na ponta do lápis, atinge diretamente um a cada quatro brasileiros. Mas a abrangência é ainda maior, levando-se em consideração pequenos municípios espalhados pelo país cuja economia só gira por causa desses recursos.

Barros não é exatamente de blefar, mas é um político “multitarefas”. Foi vice-líder na Câmara dos governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff. Apesar da defesa dos petistas em Brasília, foi candidato a senador na chapa de Beto Richa (PSDB), em 2010 e conseguiu emplacar a esposa, Cida Borghetti (Pros), como atual vice-governadora do Paraná.

Ao longo dos próximos três anos, o deputado vai ocupar qualquer vácuo de poder (nas praças dos Três Poderes e na Nossa Senhora de Salete) para ganhar força política. Já lançou a filha, a deputada estadual Maria Victoria (PP), para a prefeitura de Curitiba, em 2016, além de Cida para a sucessão estadual, em 2018. Na Câmara, soma à caneta do orçamento uma cadeira no Conselho de Ética, que dentro dos próximos dias começa o julgamento do processo de cassação de Eduardo Cunha.

No momento, Barros é o político paranaense que mais soube fazer da crise uma oportunidade. A questão está nos riscos desse arrojo. Em um cenário cada vez mais polarizado, quem se arrisca tanto com um pé em cada canoa tem grande chance de acabar à deriva no mar, sem colete salva-vidas.

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