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O Congresso nem reabriu os trabalhos e já está cheio de ideias. Algumas até mereceriam comparação com fabulações produzidas em cérebros rudimentares, não fosse o risco de se entrar no perigoso terreno da injustiça. Para com os irracionais de nascença.

Não bastasse a ausência do item recuperação moral do Legislativo na agenda do debate sobre a eleição nas novas presidências da Câmara e do Senado, diante do quadro de autodesmoralização galopante aos parlamentares só ocorre abrir combate contra o Poder Judiciário.

Grosso modo, as propostas visam a retirar prerrogativas do Supremo Tribunal Federal (STF) e fixar mandato para o posto de ministro, hoje assegurado até a aposentadoria aos 70 anos de idade. No detalhe, fala-se em garantir agilidade aos julgamentos de processos eleitorais, em modificar as regras de acesso ao cargo de juiz, em criar punições a procuradores que divulgarem denúncias infundadas... Enfim, uma série de providências que, à primeira vista, parecem muito bem-intencionadas.

À segunda, entretanto, revelam-se o que realmente são: uma tentativa de vingança contra o chamado ativismo dos magistrados. O Congresso faz parecido quando se sente muito criticado e ameaça endurecer a Lei de Imprensa. Para intimidar, nada mais.

Sob a alegação de impedir a usurpação de poderes, o Legislativo se propõe a interferir diretamente no processo judicial, inclusive determinando o tempo de julgamento de uma ação: oito meses da primeira à última instância, no caso de crimes eleitorais. Uma barbaridade que equivaleria ao Judiciário determinar ao Legislativo quanto tempo uma proposta deve tramitar – da apresentação à votação no plenário – na Câmara e do Senado. Não que o Poder Legislativo não possa – aliás, deve – corrigir distorções e interferir quando necessário sem que isso signifique extrapolação. Assim faz o Judiciário.

Mas o propósito aqui não é aprimorar processo nenhum, é retomar a situação anterior à qual o deputado Flávio Dino (PCdoB-MA) define como a de "um tribunal historicamente mais técnico que político". De maneira oblíqua, o deputado fala de episódios de omissão travestidos de respeito à independência dos Poderes – uma condição realmente bastante mais confortável que a fustigação permanente por parte do Judiciário, provocada não apenas pelo perfil dos magistrados, mas, sobretudo, pelo fato de o Legislativo abrir mão de suas prerrogativas de uma maneira tão leviana quanto preocupante.

O elenco de exemplos é farto e amplamente citado. Mas um que é pouco lembrado é o dos processos contra parlamentares. Critica-se o Judiciário pela ausência de punições a autoridades com foro privilegiado. Mas hoje pelo menos são abertos inquéritos e vários se transformam em processos.

Quando (até 2001) a Justiça dependia de autorização do Legislativo, na quase totalidade dos casos nem se iniciavam ações. O Congresso simplesmente não autorizava e ponto final. Esse tipo de situação pode ser melhor para os parlamentares individualmente, mas é ruim para a instituição e bem pior para a República.

Fala-se do perigo de concentração de poder. Um sofisma, pois se todos os Poderes atuarem à altura do que lhes confere (e obriga) a Constituição, não há ultrapassagem de limites. Há, sim, o cumprimento correto, e natural, do conceito de equivalência entre eles.

A ofensiva do Legislativo contra o Judiciário é uma típica tentativa de criar um caso onde não existem desavenças nem deformação institucional alguma. Trata-se apenas da defesa unilateral do retrocesso em causa própria.

Acesa a chama

Ao que parece, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) se candidata a presidente da Câmara por motivos semelhantes aos que o levaram a se candidatar a prefeito de São Paulo, no ano passado, até tornar-se vice de Marta Suplicy.

No início de 2008, o deputado do PCdoB justificou sua candidatura a prefeito dizendo que "a esquerda" não tinha muito mais o que fazer na base de apoio a Lula depois que o presidente optou por uma aliança preferencial com o PMDB, a "centro-direita", no jargão vigente.

Quando os pemedebistas aderiram ao prefeito Gilberto Kassab, Aldo – muitíssimo a contragosto, diga-se – foi convencido a fazer o caminho de volta e ficou com o PT, sabendo que seu grupo acabaria engolido e continuaria sendo tratado como prata da casa, fava contada.

Se o critério agora for o mesmo adotado na época, a candidatura de Aldo Rebelo à presidência da Câmara tem a finalidade de preservar espaços dos pequenos, tradicionais, mas não necessariamente eternos aliados do PT.

Quanto ao desfecho, pode haver dois: se a disputa no Senado provocar um rompimento entre PT e PMDB, Rebelo será chamado a reforçar a tropa petista; na hipótese mais provável do entendimento entre os dois principais parceiros da coligação, fica mantida a candidatura.

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