Caso você use redes sociais já se pegou criticando colegas, amigos e amigos de amigos que, apaixonadamente rasos, têm opinião formada sobre qualquer coisa na política. Já se pegou desistindo de expor sua opinião, para não ser jogado no redemoinho da platitude dos debates, evitar receber um xingamento, ser qualificado como coxinha ou petralha, ou ficar constrangido com a virulência alheia.

As disputas políticas infantis parecem não ter fim. E, por mais bem-intencionado que você seja, quando percebe está no meio de uma guerra de egos, completamente desestimulante. Daí você pensa que é mais fácil odiar a política e cair na alienação. Ou então, sem mesmo perceber, com um simples curtir ou compartilhar, passa a ser vetor do vírus do infantilismo político.

Há uma solução extremamente eficaz para o problema dos pueris debates de jovens e adultos nas redes sociais. Começa por você. Trate todos aqueles com quem fala como adultos. Se numa discussão perderem as estribeiras e partirem para o relincho ou a trolagem, continue a tratá-los como adultos. Se não entenderem e continuarem a zoação, novamente trate-os como adultos. Se não for pedagógico, ao menos será um castigo merecido.

Em entrevista ao Estadão no fim de semana, o eminente sociólogo Richard Sennett, com sua peculiar sabedoria, afirma que a grande conquista de Barack Obama foi elevar o nível do debate político nos Estados Unidos, ao falar como um adulto para um público adulto. É uma análise bastante lúcida a respeito de um país que oscilava entre análises aprofundadas e o debate de fácil consumo, a partir de grupos como o Tea Party.

A contribuição de Obama pode ser considerada como uma “pedagogia do debate público”, bastante apropriada para o ambiente de debates brasileiro. Só que falar como adulto para outros adultos pressupõe o desenvolvimento de algumas habilidades, como consciência de que as pessoas variam na interpretação de diferentes papéis ao longo do tempo, se posicionam conforme o público ouvinte e reagem a estímulos decorrentes das relações comunicativas. Há gente que estuda isso há mais de cinquenta anos em um ramo da psicologia, desenvolvido por Eric Berne, que é conhecido como análise transacional.

Pela análise transacional o ego pode assumir três estados – pai, criança, adulto – numa relação comunicativa. Numa conversa, debate ou discussão, o pai se manifesta como autoridade, prescreve condutas e valores. Já quando o estado do ego está no “modo” criança, a pessoa se coloca numa posição emocional, age e reage a partir da emotividade. O adulto, por sua vez, é o estado do ego que trabalha com fatos e dados.

Esses estados afetam as relações comunicativas das pessoas, mas não são estruturas rígidas imutáveis. Podem variar de acordo com o contexto, com as pessoas envolvidas, até mesmo, e aqui está o pulo do gato, no meio de uma discussão. Demagogos gostam de desempenhar o papel de pai – disciplinador da conduta alheia –, mas ainda com mais frequência apelam para o estado de ego criança, produzindo discursos emocionais, com a intenção de receber a adesão de um público infantilizado. É o pior dos mundos. Crianças tratando o público como criança.

Agir como adulto e tratar os outros como adultos significa discutir com base em fatos e dados, sem falseá-los para defender os próprios interesses. Eis a chave para melhorar as discussões políticas. Requer maturidade, honestidade intelectual e um mínimo de inteligência emocional para evitar, ao sinal da primeira provocação, deixar o estado de ego adulto e retornar para a posição de pai ou criança. Quando a gente deixa isso acontecer, contribui para piorar o nível do debate.

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