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O pluripartidarismo é tido como uma grande conquista democrática, mas no Brasil parece uma maldição. A vantagem de termos uma grande variedade de partidos é a opção para apoiar a sigla cuja ideologia mais se aproxima dos nossos valores e interesses pessoais. Em tese. Infe­lizmente, no Brasil impera outra ordem. A ideologia vira pó no momento em que as legendas condicionam o apoio ao governo em troca de verbas ou cargos.

Mesmo dentro de cada partido há fissuras que prejudicam a gestão pública. Alguns petistas reclamaram que a presidente Dilma Rousseff não lhes deu ou­­vidos e definiu um nome técnico para assumir o Ministério da Ciência e Tecnologia. O presidente da Agência Espacial Brasi­leira (AEB), Marco Antônio Rau­pp, sucederá Aloizio Merca­dan­te. Os descontentes do PT defendiam a indicação do deputado Newton Lima (PT-SP), ex-prefeito de São Carlos (SP). Detalhe: o nome de Raupp foi aplaudido pela comunidade científica.

Os descontentes do PT não deram as caras. Reclamam nos bastidores e não se sabe ao certo quem são. É uma pena, pois deveriam ser expostos, para todos saberem exatamente o que pensam.

Traquejo

Na Esplanada, traquejo político é fundamental, mas Raupp já tem experiência em órgãos governamentais, conselhos, institutos e afins. Além disso, quem já passou por um cargo de chefia em universidade pública já enfrentou uma espécie de "estágio" para as situações comuns de Brasília: pouca verba e muitos interesses em jogo. Parece não haver muito que criticar na escolha de Dilma, então reclamar de uma indicação técnica para um ministério como o da Ciência e Tecnologia deve ser uma das piores coisas que um político pode fazer.

Mau político

É muito ruim porque revela a essência do mau político: a sede pelo poder. Não importa se Raupp tem potencial para fazer o melhor para o Brasil. Importa que o PT não emplacou um nome no comando do ministério e por isso não terá influência direta nas nomeações de cargos comissionados.

Também perde oportunidade de direcionar verbas para aliados políticos, outra falha grave do nosso sistema. No início do ano, em meio às chuvas de verão no Sudeste, vimos que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra (PSB), priorizou seu reduto eleitoral, Pe­­­trolina (PE), na divisão de verbas para programas de prevenção a enchentes em 2011. Dilma Rous­seff fez vistas grossas à atuação de Bezerra, mas o pior é que nem a oposição cobrou muitas explicações. Afi­nal, apesar de compor a base do governo federal, o PSB também é parceiro do PSDB e DEM em alguns estados e municípios – como Curitiba e Belo Hori­zonte. Melhor não incomodar muito os possíveis aliados. É assim que funciona o nosso pluripartidarismo: as legendas se movimentam entre a situação e oposição, dependendo das vantagens que cada lado oferece. O prejuízo fica só para o cidadão.

Divisão de verba

A nomeação de um ministro cria, na região de origem, a expectativa de se obter algum benefício com isso. Mas o exemplo de Bezerra e tantos outros mostram que o direcionamento de verbas pode ser desastroso e até contribuir para que ocorram tragédias, como foi no caso da falta de prevenção às enchentes.

Como lidar com isso? Seria factível uma regra, para que cada ministério encaminhe a cada estado recursos equivalentes ao número de habitantes? Na verdade essa não é uma regra aplicável a todos os casos, até porque é dever do Estado dar mais atenção para regiões menos desenvolvidas (e menos populosas). Mas no nosso cenário tão desalentador, até inovações bizarras parecem uma boa alternativa.

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