A mãe, Ivete Bonato, surpreende Gustavo Fruet durante a entrevista | Antônio More/Gazeta do Povo
A mãe, Ivete Bonato, surpreende Gustavo Fruet durante a entrevista| Foto: Antônio More/Gazeta do Povo

Candidato à reeleição, o prefeito Gustavo Bonato Fruet passou a vida pendendo ora para um lado, ora para outro. Não é que mude de opinião. Pelo contrário: passa a imagem de ser um homem de convicções. É que em certas ocasiões fala mais alto seu lado Bonato (mais disciplinado e de pés no chão); em outras, quem grita é o sangue Fruet (mais expansivo e que não recua de desafios). Conquistou seu equilíbrio a partir dessas oscilações.

A porção Fruet falou mais alto em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Em 1998, Gustavo era vereador de Curitiba e ajudava ativamente na campanha do pai, o ex-prefeito Maurício Fruet, que disputava uma vaga a deputado federal. A 35 dias da eleição, Maurício faleceu em decorrência de problemas cardíacos. Ainda atordoado pela perda, Gustavo começou a ser cobrado a assumir a candidatura do pai. Foi uma das decisões mais delicadas de sua vida, em um dos momentos mais doloridos.

“Foi uma decisão dificílima, porque se eu saísse [candidato], corria o risco de parecer oportunista. Se não saísse, pareceria covardia. Nessa hora, fui mais Fruet que Bonato”, disse Gustavo, que acabou se elegendo à Câmara Federal.

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O sangue Bonato vem de uma família ligada às causas sociais. A mãe, Ivete Ana Bonato Fruet, gosta de tocar piano ao cair da tarde e prepara um raviolli de se comer ajoelhado. Enquanto a Gazeta do Povo conversava com Gustavo, em um café do Mercado Municipal, ela apareceu de surpresa. “Eu vim comprar umas coisas e me disseram que você estava aqui”, disse ela, abraçando o filho.

Início

Até os três anos de idade, Gustavo morou no terceiro andar do Edifício Bonato, a uma quadra da Praça Zacarias. Desta época, lhe marcaram as tardes de sábado no Passeio Público. Em seguida, a família se mudou para uma casa no Rebouças, vizinha ao tio. O jardim da residência virava um estádio de futebol para os meninos. Era também a época das aventuras de bicicleta e das brincadeiras de rua.

“Meu irmão e eu subíamos no telhado e pulávamos lá de cima. Nem havia le parkour... Eu quebrei algumas telhas. Tinha um santo muito forte”, aponta Gustavo.

Polêmicas-clichês

Paraná, Coxa ou Atlético?

Coxa. Sofredor. Eu invadi o Maracanã em 1985 [ano em que o Coritiba foi campeão Brasileiro]. Tenho um pedaço da rede. Mas que fique registrado que não fui eu que puxei a rede. Quando cheguei, já tinha pedaços de rede no chão [risos].

Qual seu pensamento em relação à descriminalização da maconha? Já usou?

Não. Sou contra. Nós abrimos 12 CAPS [Centro de Atenção Psicossocial], sendo sete 24 horas. Estima-se que temos quase 100 mil pessoas com algum tipo de dependência. É um tema complexo, desafiador e no trabalho de prevenção é uma preocupação que só aumenta e vai absorver cada vez mais a prefeitura. Acho que não estamos preparados pra isso.

Em relação ao aborto?

Contra também. Os dados mais importantes que conseguimos é a diminuição da gestação de adolescentes. E um dos trabalhos mais bonitos da equipe de saúde é o planejamento reprodutivo. Esse é o conceito novo. Toda a rede na atenção, mas também nas consequências.

A inclinação para a liderança já dava as caras no primeiro ano de escola. Aos sete anos, Gustavo foi eleito representante da sua turma, no Colégio Santa Maria – posto que ocupou pelos anos subsequentes. Aos dez anos, escreveu uma redação em que criticava duramente o governo federal – em época de ditadura. Ainda hoje, guarda a dissertação, como lembrança. “Eu já tinha inclinação à política, mas nunca fui incentivado. Minha mãe não queria. Ela sofreu, primeiro por ser mulher de político, depois por ser mãe”, avaliou.

Gustavo cresceu em um ambiente político. Ao longo da década de 1970, o pai, Maurício Fruet, era um advogado e jornalista que se empenhava para articular o MDB no Paraná. A casa vivia cheia de lideranças e intelectuais, que se estendiam em reuniões longas. Além disso, Maurício corria o interior a bordo de seu Fusca, atuando em prol do partido de oposição à ditadura militar. “Eu ia muito com o meu pai, nessas viagens. Eu conheci o Paraná por causa da política. Na adolescência, acompanhava muito de perto”, relembra.

Formação

Em 1979, aos 16 anos, Gustavo se mudou a Brasília com o pai, que havia sido eleito à Câmara Federal. Na capital, o jovem começou a praticar esportes com afinco. Acordava às cinco horas para remar no Lago Paranoá, onde fazia canoagem de velocidade. Também jogava vôlei – e garante que se saía bem. “Sempre gostei de competição, mas não entrei para o esporte visando competição”, aponta.

Pouco depois, passou no vestibular para cursar direito na Universidade de Brasília (UnB), onde foi presidente de centro acadêmico. Lá, se meteu indiretamente em uma confusão que, hoje, lhe arranca risadas. Durante a visita do então secretário americano, Henry Kissinger, estudantes abordaram uma Kombi que forneceria alimentos ao restaurante universitário, pegaram ovos e atiraram no político. Gustavo chegou a presenciar o episódio, mas jura não ter tomado partido na “manifestação”. Quando chegou em casa, no entanto, tomou um puxão de orelha do pai.

“Eu cheguei e ele já veio perguntando: ‘você estava envolvido nisso?’. Eu estava vermelho, porque tinha passado o dia no sol, mas não tinha feito nada... Hoje eu dou risada”, disse.

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Márcia

Gustavo concluiu direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Aqui, acabou se aproximando do direito criminal. Acompanhava perícias, exames balísticos e até autopsias no Instituto Médico-Legal (IML). Nesta época, também gostava de fazer churrasco com os amigos e promover disputas de fliperama e sinuca. Diz que “não era galã, mas não fazia feio”. Teve dois namoros longos. “Eu era de levar a sério”, assevera.

A jornalista Márcia Oleskovicz entrou indiretamente na vida de Fruet em 2000, quando foi contratada para editar um jornal do partido, que era presidido por Gustavo. “Ela se encantou por mim”, brinca o político, que diz ter se admirado pela alegria, entusiasmo e beleza de Márcia. A aproximação ocorreu em um jantar sindical promovido no Clube Curitibano. “Lá, aconteceu o primeiro beijo. Foi um beijo que foi uma coisa... foi muito marcante”, define Gustavo.

Em seguida, Márcia passou em um concurso em Brasília. Na capital federal começaram a conviver com mais intensidade e se descobriram. Em pouco tempo, estavam juntos e passaram a dividir o mesmo teto. Quando retornaram a Curitiba, se casaram “no papel” e Márcia passou a carregar o sobrenome Fruet.

Carneiro e outros hobbies

Gustavo herdou do pai um de seus gostos: a criação de ovelhas da raça Hampshire Down. Na chácara da família Agudos do Sul, ele mantém uma dezena de matrizes e um reprodutor. Também nessa atividade, acabou assumindo liderança: em dois anos, se tornou presidente da associação paranaense de criadores. Em cinco anos, da brasileira.

Fruet também se tornou guardião de uma famosa receita de Maurício: o “carneiro afrodisíaco”. O prato é preparado com um animal de até dez meses de idade e a carne precisa ter um tempo de maturação. Na véspera do preparo, é temperado com pó de Muchugun – que é o grande segredo da família Fruet. A iguaria foi criada por Maurício, para arrecadar fundos. “Hoje, eu só faço com muito critério, porque as pessoas criam muita expectativa”, aponta Gustavo.

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Apesar da rotina de prefeito, Gustavo procura sair todos os fins de semana. Entre os passeios, estão compras no Mercado Municipal, parques e eventos comunitários. Apesar de católico, diz que estabeleceu uma grande ligação com as igrejas evangélicas. “Toda as igrejas têm uma relação fantástica com a comunidade. Mas eu não faço da religião um projeto eleitoral. Não misturo as coisas”, atesta.

Em 2014, Gustavo concedeu uma entrevista à Gazeta do Povo, em que mostra sua coleção de discos, em que predominam exemplares de rock e MPB. Além do gosto musical, o prefeito se notabiliza pelo apoio à bicicleta como alternativa de mobilidade. Procura ir pelo menos uma vez por semana de bike à prefeitura. “Não se trata só de abandonar o carro. É um conceito de que um modal não pode prevalecer sobre outro e que envolve a ocupação dos espaços urbanos”, diz.

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