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Requião (ao centro) em cavalgada: se a suspeita ficar comprovada, responsáveis podem ter de devolver dinheiro aos cofres públicos e ser expulsos da polícia | Divulgação
Requião (ao centro) em cavalgada: se a suspeita ficar comprovada, responsáveis podem ter de devolver dinheiro aos cofres públicos e ser expulsos da polícia| Foto: Divulgação

Requião não se pronuncia

A assessoria de imprensa do senador Roberto Requião (PMDB) não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem da Gazeta do Povo. O contato com a assessoria foi feito na última quinta-feira por telefone e, posteriormente, com o envio de um e-mail. Na sexta-feira, por volta de 18 horas, a assessoria respondeu que não havia conseguido fazer contato com Requião.

Rapidez

Resposta da PM ficou pronta em um mês

O pedido de informação a respeito dos cavalos do ex-governador Roberto Requião (PMDB), protocolado pelo ex-deputado José Domingos Scarpellini, levou pouco mais de um mês para ser respondido pela Polícia Militar (PM). Foi protocolado em 8 de abril e respondido pelo comando da PM no dia 15 de maio. A rapidez chama a atenção e não costuma ser a regra da aplicação da Lei de Acesso à Informação no Paraná. A Gazeta do Povo, por exemplo, tenta há nove meses obter os dados dos voos já realizados pelo governador Beto Richa (PSDB) custeados pelo poder público. O pedido já foi negado duas vezes pela Casa Militar, órgão responsável pelas informações. Há três meses, a reportagem aguarda que uma comissão analise um novo recurso administrativo a respeito do caso.

A Polícia Militar (PM) do Pa­raná vai investigar a utilização de pessoal, estrutura e recursos do seu regimento de polícia montada para tratar cavalos que seriam de propriedade do senador Roberto Requião (PMDB) durante o período em que ele governou o estado (2003 a 2010). Um inquérito policial militar (IPI) foi aberto nesta semana para apurar o caso.

O inquérito é um desdobramento de um pedido de informação protocolado em abril pelo-ex-deputado José Domingos Scarpellini, atualmente no PSB. Em seu pedido, Scarpellini pede informações sobre a atuação da Polícia Militar na "manutenção e cuidados" de cavalos de propriedade de Requião durante os dois últimos mandatos dele como governador. O documento questiona se animais de Requião ficaram alojados nas baias da PM, se foram tratados por policiais e se foram alimentados e medicados com verba do regimento de polícia montada.

Para responder ao pedido, a PM fez diligências iniciais no regimento de Po­lícia Montada e no Centro Veterinário, localizados no bairro do Tarumã, apreendendo uma série de documentos e fichas de dezenas de animais.

São os indícios apreendidos nesses documentos que embasaram a criação do IPI. O assunto, no entanto, ainda é tratado com reservas pela cúpula da PM. "É a investigação que vai determinar o que houve e as eventuais responsabilidades", diz o coronel César Vinícius Kogut, comandante-geral da PM. Em tese, se comprovadas, as acusações poderiam resultar até em expulsão dos oficiais responsáveis e em um pedido de devolução do dinheiro aos cofres públicos.

Dezenas

A reportagem da Gazeta do Povo teve acesso a arquivos do regimento de polícia montada e conversou com policiais responsáveis pelo cuidado dos animais.

Segundo um dos policiais ouvidos, ao longo de oito anos a PM cuidou de 88 cavalos pertencentes ao governador ou a pessoas próximas a ele. "Os cavalos foram chegando e de repente eram dezenas. A determinação dos oficiais é de que fossem tratados e cuidados por nós porque eram do governador", diz.

A PM estima que o gasto mensal para cuidar de cada animal gire em torno de R$ 1.000 a R$ 1.500 mensais. Cálculos não oficiais de policiais que trabalhavam no regimento indicam que até R$ 5 milhões podem ter sido gastos no trato com os animais da cota de Requião.

Rotina

Os cavalos do então governador viviam uma rotina semelhante à dos animais pertencentes à corporação. Eles eram abrigados no regimento; no Parque da Ciência, em Pinhais (ao lado da Granja do Canguiri, imóvel do governo utilizado como residência oficial por Requião); no Haras Palmital, também em Pinhais; e no Haras Barigui, em Almirante Tamandaré.

"Parte deles servia à corporação, isso é verdade. Mas os preferidos, os que iam ser utilizados pelo governador na semana, ficavam nas baias improvisadas no Parque da Ciência. Os outros ficavam no regimento ou iam para os haras quando estavam doentes ou esgotados."

Os documentos do regimento comprovam a movimentação dos animais. "In­formo a V.Sª. que nesta data deu entrada do Canguiri nesta OPM dois pôneis prenhas do governador, que foram estabulados nas baias 311 alexander a baia da PUC ao lado da ferraria", diz uma circular do regimento, do dia 30 de dezembro de 2008.

"Informo a V.Sª que nesta data o equino Kielse, pertencente ao Exmo. Sr. Gover­nador do Estado e que estava em tratamento médico no Centro Veterinário teve alta, e foi transportado novamente ao Haras Barigui em Almirante Tamandaré", informa outra circular, de 25 de janeiro de 2010.

Segundo outro oficial ouvido pela reportagem, também lotado no regimento à época, a justificativa dada para o abrigamento dos cavalos era de que, ao final do mandato, eles seriam doados para a cavalaria da PM, o que não ocorreu. "No final do mandato dele, dos 88 animais, 29 foram doados para a corporação. Os outros 59 foram levados para um haras particular em Campo Largo. Todo o transporte foi feito por policias militares com equipamento da corporação, como um serviço normal", diz o policial.

Desafeto deu início à apuração

Autor do pedido de informação sobre os cavalos do senador Roberto Requião (PMDB), José Domingos Scarpellini é um desafeto declarado do ex-governador. "Fui um dos fundadores do MDB no Paraná. Saí do partido por causa do Requião. Ele fala uma coisa, mas prega outra. Fala em opção pelos pobres, mas faz o estado pagar por seus cavalos", diz. Ex-prefeito de Apucarana e ex-­deputado estadual, em 2008 Scarpellini chegou a ser preso em flagrante por receptação de um carro que havia sido roubado em São Paulo. "Aquilo foi uma armação", diz. O Ministério Público não ofereceu denúncia sobre o caso.

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