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Manifestantes em protesto contra o governo federal no último domingo em Curitiba. | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Manifestantes em protesto contra o governo federal no último domingo em Curitiba.| Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Ensino superior completo, identificado com o espectro ideológico de centro direita, sem filiação sindical ou partidária mas com certa simpatia pelo PSDB, o que explica o voto em Aécio Neves, e extremamente favorável ao impeachment de Dilma Rousseff porque o PT não tem mais condições de governar o país. Esse é o perfil básico de quem participou no domingo (15) da manifestação contra o governo federal de acordo com levantamento exclusivo feito pelo Instituto Paraná Pesquisas para a Gazeta do Povo. O ato reuniu cerca de 80 mil pessoas no Centro de Curitiba segundo a Polícia Militar (PM).

Protestar é legítimo; mas defender golpe não

Os cidadãos que foram às ruas nos dias 13 e 15 de março exerceram o legítimo direito de se manifestar. O fato de ir às ruas e pedir o impeachment da presidente da República não faz de ninguém um golpista. O impedimento é uma medida legítima nas melhores democracias do mundo, aplicado a governantes que cometam crime de responsabilidade. Se ficar provado que Dilma Rousseff sabia, se beneficiou, ou nada fez para conter a corrupção no governo, o instrumento é aplicável.

Entretanto, um alerta deve ser feito especialmente aos manifestantes que dizem ser favoráveis a uma intervenção militar provisória, conforme levantamento do Paraná Pesquisas e alguns cartazes vistos nas manifestações. Intervenção militar nada mais é que golpe. A história tem demonstrado que elas, no mais das vezes, conduzem à ditadura. E a ditadura, como mostra a pesquisa, é amplamente rejeitada pelos manifestantes .

É por essa razão que os pedidos de intervenção militar não têm lugar na sociedade brasileira. Atentam contra a democracia, a Constituição e a lei. O Código Penal proíbe a apologia ao crime. E golpe de Estado é um crime, assim como a sua defesa, conforme a Lei de Segurança Nacional .

Com novos protestos já marcados para abril, os manifestantes devem refletir sobre o tema, a fim de exercer o legítimo direito de manifestação e abandonar definitivamente a pretensão de pôr em xeque a democracia arduamente conquistada.

Nada menos do que 85,24% dos manifestantes entrevistados querem o impedimento de Dilma, mas apenas 10,43% dizem acreditar que a presidente praticou corrupção, motivo constitucional que poderia desencadear na abertura de um processo por parte do Congresso Nacional contra a petista –número que sobe para 24,54% quando a corrupção é ligada ao governo como um todo. As demais alegações se dividem em aspectos mais subjetivos, como críticas à administração do PT (26,99%) e também a responsabilização de Dilma na crise econômica do país (25,77%).

“Os manifestantes não têm clareza do que pode resultar o processo de impeachment. Acham que o Aécio vai assumir ou que será convocada nova eleição, não que quem assume é um vice do PMDB [Michel Temer] e que na sequência [da linha sucessória] aparece o presidente da Câmara [Eduardo Cunha], que também é do PMDB”, explica Rodrigo Horochovski, professor de Ciência Política e Gestão Pública da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “A questão econômica também chama atenção porque confirma a tendência do surgimento de movimentos deste tipo em períodos de baixo crescimento como agora”, acrescenta.

Também, de acordo com a pesquisa, não tem como desvincular a manifestação do tucano Aécio Neves, que perdeu a eleição para Dilma em outubro passado por diferença inferior a 3% dos votos. Apesar de se declarar apartidário (95,71%), o grupo demonstra preferência pelo PSDB (33,81%) e votou em massa no senador mineiro (77,62%) – o tucano conquistou 72% dos votos em Curitiba no segundo turno.

“A manifestação foi expressiva e mostra a força da oposição, de quem não absolve o governo Dilma, mas não é ligado a nenhuma legenda. Ontem [domingo] os partidos não convocaram nada, foram a reboque [do ato]”, afirma Horochovski.

Questionados sobre a participação em futuras manifestações contra a gestão de Dilma, 89,52% disseram que seguirão protestando. Apenas 3,33% pretendem encerrar a “carreira” de manifestante com o ato de domingo (15).

Metodologia

A pesquisa foi realizada no dia 15 de março com 210 pessoas maiores de 16 anos que participaram da manifestação. O grau de confiança é de 95% para uma margem de erro de aproximadamente 5%.

Em ato pró-governo, 17% também quer a saída da presidente

O instituto Paraná Pesquisas traçou também o perfil de quem participou da manifestação de sexta-feira (13), organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e que tinha como pano de fundo a “defesa da Petrobras”. De acordo com estimativas da Polícia Militar (PM), o evento reuniu entre 800 e mil pessoas. Os organizadores falaram em cinco mil participantes.

Neste caso, os manifestantes estão do lado oposto àqueles que tomaram as ruas da capital paranaense no domingo (15). Dizem se identificar com a corrente ideológica de centro-esquerda, revelando admiração por partidos como PT (58,94%) e PSol (6,76%). Relação que explica o voto em Dilma Rousseff no segundo turno da eleição presidencial (74,88%).

Essa preferência, porém, não é mais tão convicta. Apesar de a organização do ato ser ligado ao PT, quase 17% se mostrou favorável à abertura de um processo de impeachment contra a presidente. O principal motivo seria o fato de Dilma ser a responsável em grande medida pela crise econômica do país (37,14%). (CEV)

84,76% é contra a volta da ditadura militar

Um aspecto chama a atenção no levantamento feito pelo Paraná Pesquisas com os manifestantes que participaram do ato em Curitiba contra o governo de Dilma Rousseff no domingo (15): embora 84,76% dos manifestantes sejam contrários, uma fatia não desprezível deles (15,24%) se mostrou favorável à volta da ditadura. Número que salta para 45,71% quando se fala em uma “intervenção militar provisória” (veja ao lado).

O cientista político da UFPR Fabrício Tomio afirma que medidas extremas não encontram espaço na sociedade. “Essas soluções não encontram o menor apelo por parte das instituições. A maioria das pessoas é democrática, a favor do regime democrático”, afirma. “Esse tipo de resposta confirma a autoidentificação com a extrema direita. São pessoas que se manifestam de uma forma mais intensa, que aceitam soluções extremas”.

Opinião compartilhada por outro cientista político da UFPR, Rodrigo Horochovski. “Foi uma manifestação convocada pela direita, uma posição legítima dentro do espectro. Toda a sociedade é segmentada, por isso aparecem essas visões políticas”, diz. “Todo golpe é inconstitucional”, lembra Tomio. (CEV)

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