Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Entrevista

“Os EUA tentam recuperar imagem de democracia e liberdade econômica”

Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP

“Os EUA não vão apoiar o Brasil [na ONU] justamente um ano depois de o país fazer o acordo tripartite sobre o programa nuclear do Irã. É preciso uma mudança mais clara da política externa brasileira para se contemplar essa hipótese.” | Divulgação
“Os EUA não vão apoiar o Brasil [na ONU] justamente um ano depois de o país fazer o acordo tripartite sobre o programa nuclear do Irã. É preciso uma mudança mais clara da política externa brasileira para se contemplar essa hipótese.” (Foto: Divulgação)

Brasília - Uma guerra interna de interpretações sobre o fracasso ou sucesso da visita de Barack Obama ao Brasil marcará o saldo brasileiro após a passagem do presidente norte-americano pelo país. Essa é a visão do sociólogo Demétrio Magnoli, para quem o evento é válido, em si, pela própria simbologia. "O mais importante da visita é a própria visita", define.

A briga mencionada por ele estaria sendo travada por setores mais liberais do governo – como o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota – contra uma ala de esquerda comandada pelo assessor especial Marco Aurélio Garcia. Segundo ele, o discurso de Obama pode reaproximar os dois países ideologicamente. "É isso que ele [Obama] tenta no Brasil, que os brasileiros voltem a ver os Estados Unidos como um aliado com quem compartilhamos os conceitos de democracia, direitos humanos, liberdade econômica e política."

Qual a simbologia da visita de Obama para o povo brasileiro? Ela aumentará a identificação com os Estados Unidos?

Durante a era Bush o mundo inteiro se afastou bastante, do ponto de vista de valores e ideias, dos Estados Unidos. Com o Obama, os Estados Unidos procuram recuperar seu poder de atração nesse plano. É isso que ele tenta no Brasil, que os brasileiros voltem a ver os Estados Unidos como um aliado com quem compartilhamos os conceitos de democracia, direitos humanos, liberdade econômica e política.

Isso não é muito etéreo?

Hoje em dia não é nada etéreo, é até muito prático. Quer dizer o seguinte: nós [brasileiros] vamos ou não expulsar Muamar Kadafi do Conselho de Direitos Humanos da ONU? Vamos ou não apoiar os dissidentes do Irã que pedem liberdade de expressão? Isso é prático e tem consequên­­cias importantes. Se você olhar aqui na América Latina há um eixo de amigos do Kadafi. É o caso do Hugo Chávez [presidente da Venezuela] e do Daniel Ortega [presidente da Nicarágua].

Até o Lula chegou a chamar Kadafi de irmão, não?

Isso foi antes das revoltas árabes. Agora ele ficou num silêncio eloquente. Chávez chegou a pedir para o Lula ajudar numa mediação.... Mas ele foi para a praia;ninguém sabe o que o Lula falou.

Do ponto de vista prático, como o senhor coloca, é bom para o Brasil essa aproximação com os Estados Unidos?

Acho que é bom para o Brasil uma política externa que o Obama tenta implementar, em meio a muitas dificuldades, muito mais multilateralista. Também acho que a cooperação entre Brasil e Estados Unidos é um eixo da tradição da política externa brasileira que não deve ser abandonado. O que não quer dizer que o Brasil se alinhe automaticamente aos Estados Unidos, mas quer dizer que a nossa política externa não é antiamericana por princípio. É isso que ela estava se tornando nos últimos anos.

Esse temor de antimericanismo do Brasil realmente existe?

Claro que existe. Você tem um partido (PT) de sustentação do governo, cujos textos são altamente antiamericanos. Você tem um chanceler oculto, que é o Marco Aurélio Garcia, que é profundamente antiamericano, que chegou a pedir o reconhecimento das Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia]como forças beligerantes. É claro que os Estados Unidos sabem muito bem qual é a disputa que se trava na política externa brasileira.

O senhor define que há alas do governo que já tratam a visita de Obama como um fracasso e outra como um sucesso. Quem sairá vencedor?

Não sei. Acho que quem pode sair vencedor é quem tratar como sucesso. Mas isso é uma disputa de interpretações, depende muito de como a imprensa noticiar isso. Depende de a imprensa perceber que essa interpretação faz parte da disputa interna entre grupos que comandam a política externa do Brasil. O mais importante da visita é como ela será interpretada, já que acordos concretos não sairão. Da visita, sairão apenas declarações. Por isso, o mais importante da visita é a própria visita. Até porque há dois anos Obama foi convidado por Lula e não quis fazê-la.

Há consenso de que Obama não anunciará apoio formal ao desejo do Brasil de ter uma cadeira permanente no Con­­­selho de Segurança da ONU. Por outro lado, ele já apoiou a entrada da Índia. Qual é o problema?

Se houver alguma alteração será a entrada de dois países: Japão e Índia. Essa posição também é a de outras superpotências que não querem perder poder. Seria ainda uma contraposição à força da China. Hoje e ontem, durante o governo Bush, essa foi a visão dos Estados Unidos. Já a China é contra a entrada do Japão. Se você somar todas as posições das potências não há mudança possível. Os vetos de uns somados aos vetos de outros impedem qualquer mudança. Não será uma alteração fácil fazer o Brasil entrar no conselho. Junto com o Brasil, teria de entrar a Alemanha, a África do Sul. Não é uma mudança banal. Além disso, os Estados Unidos não vão apoiar o Brasil justamente um ano depois de o país fazer o acordo tripartite sobre o programa nuclear do Irã [a outra parte era a Turquia]. É preciso uma mudança mais clara da política externa brasileira para se contemplar essa hipótese.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.