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Animal

Se quiser ser bem-recebido em uma viagem para a França, leve seu cachorro

Além de serem aceitos facilmente em hotéis e restaurantes, a companhia do animal ajuda até o turista ser bem-recebido no país

O casal em passeio por Paris. Foto: Alex Cretey-Systermans/The New York Times.
Tivemos a ideia de levar Pip conosco para as férias na França para nos misturarmos mais facilmente. É claro que estávamos pensando nele também: Pip é o nosso cachorro, um rat terrier fujão que adotamos de um abrigo. Ele sofre de ansiedade, resquício talvez da vida pregressa, e ficamos com medo de que se estressasse demais em um canil. Porém, admitimos que nossa motivação também era egoísta: queríamos vivenciar a França mais como residentes temporários do que turistas óbvios.
Os franceses veneram os cachorros. O respeito que têm pelo animal, enorme e absoluto, é famoso no mundo inteiro. O cão faz parte da vida pública francesa, indo praticamente a todos os lugares que seu dono vai. Quando sai de casa, o francês leva a carteira, as chaves e o cachorro.
Nossa ideia era a de que Pip nos outorgasse uma credibilidade francesa, fazendo com que os gauleses nos vissem quase como um casal local. Achávamos que um cão eliminaria grande parte do inevitável comportamento turístico de nossa parte.

Pip e os tutores no metrô de Paris. Fotos: Alex Cretey-Systermans/The New York Times.

Só que tinha um problema: embora Pip seja sociável e meigo com as pessoas (exceto, por alguma razão obscura, quem esteja de tênis vermelho), ele late indiscriminadamente para outros cachorros. Falta de confiança, foi o nosso diagnóstico, a síndrome do baixinho invocado. Não queríamos levá-lo a restaurantes e/ou lojas para criar uma confusão que causasse um trauma emocional desnecessário nos franceses.

Treino para se comportar

Por isso, nós o inscrevemos no curso Bom Cidadão Canino do Abrigo Southampton, em Hampton Bays (na cidade de Nova York) e a surpresa foi perceber que o único cachorro com quem se comportava bem era um pit bull chamado Bundles. Maravilha, mas qual a probabilidade de encontrarmos um pit bull na Champs-Élysées?
Com o passar das semanas, Pip foi melhorando, ainda que não chegasse à perfeição. Havia outra questão delicada: na pronúncia francesa, “Pip” se traduz em uma palavra, no mínimo, inapropriada; por isso, enquanto em solo francês, Susan sugeriu que Pip virasse Pierre.
Ficaríamos em Paris uma semana, depois passaríamos alguns dias em Bordeaux, e voltaríamos à capital. Decidimos ir em setembro, quando os parisienses já estivessem de volta das férias de verão, descansados e dispostos a receber aqueles que se encaixassem perfeitamente em seu estilo – como nós e Pip.

A viagem

Pip entrou no avião da Air France como se fosse a coisa mais normal do mundo, enquanto nós carregávamos a caixa em que deveria viajar. Para ocupar a cabine da companhia aérea, ela não podia exceder os oito quilos. Pip estava dentro do limite, mas ninguém o pesou para verificar. Também tinha que ter um microchip, ser vacinado contra raiva e ter um atestado de saúde assinado pelo Departamento de Agricultura dos EUA.
O veterinário receitou comprimidos para a ansiedade, mas Pip capotou ao primeiro movimento dos motores. Quando acordou, já estávamos em Paris.
No hotel — o Regina, perto do Jardim das Tulherias —, os funcionários foram tão supereducados com Pip, que agora já era Pierre, como conosco. E já havia uma caminha e um prato no quarto à sua espera.
Um grande número de hotéis franceses, incluindo os mais requintados, aceita cães. Alguns cobram uma taxa, como o nosso, e permitem só raças pequenas, enquanto outros aceitam todas. Há até os que fazem plaquinhas de identificação personalizadas com informações do hotel para contato, e um oferece uma “equipe de mordomos” para acompanhar os pets em “uma jornada especial”.
Nem contamos para Pierre desse aí. Caía a tarde quando saímos para sentir o clima da cidade. Nas ruas, o ruído intenso do tráfego. Paramos em um café e prendemos a guia de Pierre em uma das cadeiras. Ele se acomodou, satisfeito em ficar ali, admirando o vaivém dos carros, motos e pessoas, até um Yorkshire desfilar na sua frente. Pierre quase derrubou a mesa, mas o pessoal ao lado pareceu achar o comportamento engraçadinho.

Nas saídas seguintes passeamos ao longo do Sena, mais pitoresco que nunca, admirando os chafarizes com água brotando dos locais mais improváveis, como a Place de Concorde.

Simpatia e cocô

Logo ficou claro que, em Paris, com um cachorro, você é visto com simpatia e familiaridade ou, ao contrário, nem é percebido por ser lugar comum. O animal faz com que dê a impressão de ser “de casa”. De fato, um dia encontramos uma mulher passeando com dois cachorrinhos que parou e começou a bater papo achando que morávamos nas redondezas.
Uma questão que preocupa os franceses é o cocô. Houve um tempo em que havia pequenos veículos motorizados para aspirá-lo, mas hoje em dia o dono é responsável pela remoção – e se não o fizer pode receber uma multa que chega a várias centenas de euros.

Nós estávamos sempre com um belo quinhão de sacos plásticos e fizemos nossa parte, mas deu para perceber que muitos tutores não eram tão diligentes. Será que tinha a ver com a superstição nacional que reza que pisar nas fezes de cachorro dá sorte?

Percebemos que os cães podem andar de metrô, mas resolvemos perguntar a uma funcionária para ter certeza. Insegura, ela nos dirigiu a um quadro imenso que parecia conter todo o regulamento do transporte. Acompanhando a lista com o dedo, ela foi descendo até encontrar a seção “les chiens, les animaux” – e assim descobrimos que, se ele couber dentro de uma sacola, viaja na faixa; se for grande, tem que pagar o equivalente à passagem infantil.

Barrados

A aceitação canina em Paris não é irrestrita: não são aceitos no museu, por exemplo, mas quando tivemos um problema com o celular, ele entrou conosco na loja da Apple no Louvre Carousel. O técnico que nos atendeu achou o máximo o fato de um cachorro norte-americano ter o nome de Pierre e chamou vários colegas para vê-lo. Todos em volta do pequeno, e fazendo festa. O nível do serviço foi espetacular.
Por mais estranho que pareça, eles são proibidos na maioria dos parques. Alguns dos mais gloriosos, porém, como as Tulherias e os Jardins de Luxemburgo, oferecem áreas específicas. Os mais rígidos, além de não aceitar animais, proíbem bebida alcoólica, fumo, jogar futebol e visitas durante tempestades.
Há quem diga que a verdadeira França se encontra nas províncias mais tradicionais e voltadas para o lazer, então resolvemos conferir. Pip dormiu durante toda a viagem de duas horas no trem de alta velocidade rumo a Bordeaux, a elegante cidade portuária a sudoeste de Paris. O que nos levou para lá foi sua história cultural, que remonta não só à conquista por César Augusto, mas aos homens das cavernas, a reputação de sua gastronomia e, é claro, o vinho.

Cama própria em Bourdeaux

Acontece que Bordeaux também está apinhada de cachorros, em uma proporção de um para quatro humanos. É o berço inclusive de uma antiga raça, a do Dogue de Bordeaux, o mastim pesadão e babão que apareceu ao lado de Tom Hanks em “Uma Dupla Quase Perfeita”.
Nosso hotel, o Intercontinental, ofereceu uma cama a Pierre, e a cidade, um sem-fim de distribuidores de saquinhos para as “chien déjections”. Ali, os parques são local de recreação tanto canina quanto humana.

Em uma tarde ensolarada, após uma sequência de dias chuvosos, visitamos a impressionante piscina refletora Miroir d-Eau, depois atravessamos a Pont de Pierre, a ponte que Napoleão exigiu. Lemos em algum lugar que, na fuga de Elba, ele caiu do navio que o levava para longe da ilha. Não sabia nadar e um Terra Nova teve que resgatá-lo, é claro.

Fim de jornada

Nos últimos dias em Paris, ficamos na Margem Esquerda, no Hotel Duc de Saint Simon, em St. Germain-des-Prés. Ali, Pierre teve a oportunidade de passear por novos bairros, como o Quartier Latin, com suas ruas sinuosas. Às vezes é preciso estabelecer limites práticos e, por isso, não o levamos à ópera. De qualquer forma, as almofadinhas de suas patas já estavam meio sensíveis por causa dos inúmeros quilômetros que percorrera em território francês. Tivemos, inclusive, que massageá-los com vaselina e deixá-lo de molho.
Na última caminhada antes da partida, pela Rue des Peres, o pequenino Pierre, todo pimpão, dava a impressão de ser ainda mais confiante do que quando chegou. Conseguiu superar o desafio, aplicando o treinamento que receber a uma situação totalmente inédita. A viagem ajudou a reforçar ainda mais nossa relação.
Levamos Pip conosco para sermos mais bem-recebidos, e foi o que aconteceu. Ao mesmo tempo, os franceses se apaixonaram por ele – e ele pela França.
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