Novos estudos tentam explicar o motivo dos cães comerem cocô

Novos estudos tentam explicar porque os cães comem fezes de outros cachorros ou espécies

Hábito, apesar de considerado desagradável pelos tutores, não oferece perigo. Foto: Pixabay.

Cerca de 16% dos cachorros consumem fezes de outros cães com frequência. Esse dado foi divulgado recentemente por um artigo elaborado por pesquisadores veterinários da Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos. Segundo o estudo, vários tutores viram seus cães fazendo isso mais de seis vezes – e em geral, a preferência é sempre por fezes frescas.

Mas por quê? Se você pesquisar esse tópico no Google, você vai encontrar páginas e mais páginas de artigos que oferecem explicações seguras sobre estresse ou deficiências enzimáticas. Mas quando Benjamin Hart, um veterinário que dirige o Centro de Comportamento Animal em Davis, examinou as explicações científicas sobre cães que comem cocô (ou coprofagia), ele encontrou poucas respostas.

“Para cada pessoa que você perguntar sobre isso, você vai ter uma opinião diferente. Porque as pessoas estão tentando adivinhar o motivo, sejam veterinários ou especialistas em comportamento”, disse Hart, que é o principal autor do artigo, que foi publicado na revista Veterinary Medicine and Science (Medicina e Ciência Veterinária, em tradução livre). “Ninguém quer dizer a um cliente que não sabe porque eles fazem isso”.

E essa é uma pergunta feita constantemente porque, para muitos donos de cães, esse é um hábito sujo e difícil de tratar. Comer cocô em um parque, por exemplo, não representa um grande perigo de saúde para os cães. Mas, para os tutores, esse é considerado um costume tão revoltante que muitos deles dizem estar dispostos a se desfazer de seus cachorros por conta disso. “As pessoas podem ser bastante tolerantes até com cães que são agressivos”, disse ele. “Mas com relação a isso, eles são realmente intolerantes”.

Mas por que eles fazem isso?

Então Hart e seus coautores resolveram realizar duas pesquisas, que foram respondidas por quase 3.000 tutores. E os resultados podem fornecer alguns dados úteis sobre o problema. Os pesquisadores não encontraram evidências que permitissem ligar a coprofagia à idade, diferenças alimentares ou comportamentos compulsivos, como caçar a própria cauda. Cães que comem cocô frequentemente também eram tão facilmente treinados em casa quanto outros cães, o que descartou a ideia de que eles estavam simplesmente mais à vontade ​​com a “caca” que os colegas com gostos mais refinados.

Mas mais de 80% dos cachorros coprófagos, segundo observação dos tutores, preferem fezes com até dois dias. Hart acredita que esse gosto sugere uma causa que remonta a mais de 15.000 anos – aos antepassados ​​lobos dos cachorros.

Os lobos geralmente defecam longe de suas tocas, em parte porque as fezes podem conter ovos de parasitas intestinais. Mas, se, digamos, um lobo enfermo defecasse em casa, as fezes não seriam necessariamente perigosas imediatamente. Os ovos parasitas normalmente não produzem larvas infecciosas durante alguns dias, disse Hart.

“Então, como eles vão se livrar disso? Se as fezes não têm parasitas, então é seguro comer”, disse Hart o pensamento dos lobos.

Isso levou a revelar uma nova teoria: o fato de que os cachorros de hoje que comem cocô ainda carregam esse instinto lobo, mesmo que as fezes dos animais domésticos contemporâneos tendam a ser livres de parasitas graças a tratamentos preventivos. O caso não está fechado, ele disse, mas “é uma explicação lógica”.

Outros motivos

James Serpell, professor da escola de veterinária da Universidade da Pensilvânia e editor de um livro recente intitulado “O cão doméstico: sua evolução, comportamento e interações com pessoas”, disse que achou essa ideia “plausível”.

Mas Serpell observou que a pesquisa também descobriu que os cachorros coprófagos eram muito mais propensos a ser rotulados como “comedores gananciosos” por seus tutores, o que ele disse que poderia sugerir motivações alimentares. Pesquisas anteriores, segundo Serpell, descobriram que os cães de rua nos países em desenvolvimento, que passam bastante tempo procurando comida para encher suas barrigas, comem muitas fezes humanas.

“Esse comportamento comum de cães de rua ainda pode ser bastante difundido na população canina moderna”, disse Serpell. “Cães e gatos modernos são alimentados com dietas que são confiáveis ​​e ricas em gorduras e proteínas, e esses elementos nem sempre são completamente digeridos, tornando suas fezes potencialmente atraentes como fonte de alimento de segunda mão”.

Clive Wynne, diretor do Canine Science Collaboratory (Laboratório de Ciência Canina, em tradução livre) na Universidade do Arizona também comentou o assunto.

“O que os cães fazem é essencialmente procurar um meio de ganhar a vida com o que as pessoas descartaram – e não inclui apenas os restos do jantar, mas também fezes. Portanto, é somente da nossa perspectiva humana que a coprofagia parece estranha”, explica. Wynne disse que a pesquisa também mostrou que cães que comem cocô tinham uma maior tendência a comer sujeira e fezes de gato. Isso, ele disse, “é consistente com a ideia de que o comportamento é motivado pelo gosto e pelos desejos alimentares”.

É possível evitar?

Mas Wynne disse que a pesquisa produziu outro achado importante. Entre as perguntas do estudo, houve o questionamento se os tutores faziam algo para tentar impedir que os cães comessem fezes – seja com modificação do comportamento (colocando pimenta no cocô, por exemplo), gratificando cães que obedeciam quando disseram “não coma”, ou usando algum produto comercial com esse fim. Tudo falhou. O sucesso reportado pelos tutores envolvendo produtos comprados em petshops (muitos dos quais são comprimidos que tornam o gosto de cocô de cachorro terrível), variou de 0 a 2%.

Esta não é uma descoberta muito inspiradora para tutores desesperados, reconheceu Hart. Mas ele ofereceu um raio de esperança. Os produtos disponíveis não foram submetidos a testes clínicos, ele disse, então ele e seus colegas vão desenvolver os seus próprios.

“Vamos analisar alguns ensaios clínicos sobre tratamentos que são diferentes o suficiente para que possam ter uma chance de funcionar”, disse Hart. “Estamos buscando uma solução para isso”, finaliza.

 

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