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Como “domar” crianças de personalidade forte
| Foto: Gazeta do Povo

 

Vicenzo Salviato Guariente, de 4 anos, acabou se tornando o assistente-mirim de sua professora, Alessandra Silva Elias. Na turma do Jardim I A da Escola Atuação, em Curitiba, ele recolhe os brinquedos após as atividades, distribui papéis para os colegas, termina sua lição rapidamente e ajuda os amiguinhos, mesmo que ninguém peça. Tudo por vontade própria. “Ele é um verdadeiro líder. Quando percebe que tem alguém com dúvida, vai lá e explica, nem espera o outro perguntar”, conta a professora. No entanto, tamanha proatividade precisa ser, por vezes, podada. “Se deixar, ele invade até o meu espaço e quer dar a aula por mim.”

O pai, o designer gráfico Cézar Augustus Guariente, de 40 anos, se orgulha de ter um filho com tanta iniciativa. “Ele é muito participativo, sempre quer ajudar, trabalhar junto”, diz ele. Guariente é síndico do edifício onde mora. Se há problema em algum dos apartamentos, Vicenzo acompanha o pai com sua maletinha de ferramentas de brinquedo. “Todos os prestadores de serviço do prédio o conhecem.” Quando o menino passa dos limites e chora por querer fazer algo que não pode, o pai recorre ao “cantinho do pensamento”, onde Vicenzo reflete sobre suas atitudes.

Genética e criação

De acordo com especialistas, crianças como Vicenzo, consideradas de “personalidade forte”, são comunicativas, competitivas, questionadoras ou têm espírito de liderança. Ou tudo isso junto. Mas o que explica esse comportamento? Segundo a psicóloga da escola Recanto Infantil, Angela Fleischfresser de Souza, a personalidade é definida por uma somatória: o temperamento, que herdamos geneticamente; mais o caráter, que é o conjunto de valores que recebemos por meio da educação dos pais, da escola e dos grupos de convívio. “O médico psiquiatra Içami Tiba costuma dizer que somos 50% cromossomos e 50% ‘como somos’. O temperamento [tímido, extrovertido, colérico] é hereditário, e o caráter é ensinado através da criação”, explica a especialista.

Dependendo de como os pais e a escola guiam a educação do filho, uma característica boa pode se transformar em algo negativo. “Certos comportamentos que seriam qualidades, como o empreendedorismo e a competitividade saudável, se conduzidos para o lado negativo, farão com que a criança nunca aceite perder e sofra mais tarde”, alerta Angela.

Para não transformar uma criança de personalidade forte em um pequeno monstrinho, é imprescindível dar limites, explica a psicóloga infantil Priscila Badotti. “Desde que a criança nasce, ela mostra seu temperamento. Quando o bebê solicita a mãe para a mamada fora de hora, berrando e chorando, e ela o atende prontamente, ele vê que a estratégia deu certo. À medida que o filho vai crescendo, se os pais continuam dando resposta imediata a birras e manhas, ela aprende que é batendo o pé que se consegue o que quer.”

Má educação é frequentemente confundida com personalidade forte, por isso é importante diferenciar as duas coisas. “Qualquer criança, de personalidade forte ou não, se for mal educada, será chata, inconveniente”, diz Priscila. Para ela, a receita infalível é o limite com o amor. “Se as regras são estabelecidas com carinho, a criança se sentirá amada e não verá as normas de forma autoritária. É preciso ter flexibilidade, usar o bom senso para decidir quando ceder, sempre conversar e explicar contextos para o seu filho e dizer ‘não’ na medida certa”, orienta ela.

Dupla do barulho

As irmãs Valentina Soares Vieira, de 8 anos, e Caterina Soares Vieira, de 5, têm personalidades que não passam despercebidas. Gostam de deixar bem claro suas opiniões, e quando algo as desagrada, elas argumentam, negociam e insistem em seus pontos de vista. “Mas não fazem birra”, garante a mãe, a professora e coreógrafa Andréa Soares Vieira, de 43 anos.

Cada uma a seu modo, as meninas mostram habilidade para liderar e cativar os demais. “A Valentina é falante, criativa, tem ideias originais, inventa brincadeiras e persuade os colegas. A Caterina é mais observadora, carinhosa e charmosa, acaba ganhando os outros pelo afeto”, compara Andréa.

Ambas guiam os amigos, se destacam na escola e tomam a frente em jogos e apresentações. “A Valentina às vezes fica meio mandona, e tenho que puxar o freio do protagonismo”, conta a mãe. Por isso, ela explica à filha que um bom líder dá espaço para os outros participarem e respeita opiniões diferentes. “Trabalhar o ego é importante para não deixar que a vaidade apareça mais que as qualidades.”

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