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Aproveite o Dia do Trabalho para refletir: você é vítima de um líder tóxico?

Nem toda atitude tóxica vem de assédio. O líder tóxico pode ter boas intenções e ainda assim adoecer a equipe

O líder tóxico é aquele que contamina emocionalmente seu liderado e causa um descontrole emocional na equipe. Foto: Bigstock.O líder tóxico é aquele que contamina emocionalmente seu liderado e causa um descontrole emocional na equipe. Foto: Bigstock.

Dias após começar um novo emprego, Fernanda*, 42, notou que algo não estava indo bem. Achou que era um problema com seu comportamento. Como seu chefe não dava espaço para diálogo e não aceitava críticas, decidiu observar o ambiente e alterar suas atitudes. Foi só após começar a adoecer que percebeu qual era a grande questão ali.

A profissional foi vítima de um líder tóxico, situação ainda comum em ambientes de trabalho. “Fui muito maltratada por essa pessoa, me sentia humilhada e chorava todos os dias. Aquilo foi me destruindo e aconteceu como uma bola de neve, estava ficando cada vez mais doente até chegar à depressão”, relembra.

O líder tóxico é aquele que contamina emocionalmente seu liderado e causa um descontrole emocional na equipe. Entre as características mais comuns está a falta de comunicação, nenhuma abertura para a opinião do funcionário e feedbacks sempre negativos. Com isso, ele gera um ambiente sem clareza e segurança para o time.

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Esse gestor gera insegurança no liderado, que pode ser emocional ou concreta, como ameaças de demissão. Então a pessoa nunca sabe se as coisas estão indo bem”, diz Carolina Walger, psicóloga especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho e membro da diretoria do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRPPR).

Roberta*, 40, também sofreu as consequências da liderança tóxica. Seu antigo chefe fazia jogos de poder, não se comunicava de forma clara com a equipe e criava conflitos entre os funcionários.

“Ele contava uma coisa para cada um e falava que era segredo, aí quando a informação vazava uma pessoa culpava a outra”, relembra a profissional da área financeira. Ela descobriu que estava sofrendo quando começou a evitar o ambiente de trabalho — acordava sem vontade de ir até lá e estava sempre esperando o horário do almoço e de saída.

“As pessoas acreditam que um líder tóxico é o cara agressivo que faz assédio moral, mas aquele chefe legal também pode gerar angústia na equipe”, compara a psicóloga

Devido às atitudes tóxicas da chefia, o funcionário pode ter crises de ansiedade, perda de autoestima e autoconfiança, diminuição da produtividade e engajamento, taquicardia, sudorese e sensação de sufocamento. Em casos crônicos, pode gerar uma gastrite, alergias e crises de pânico. “É uma toxina emocional, então é subjetivo. Mas normalmente a pessoa nunca se sente segura do que está fazendo e não sabe se está bem ou não”, reforça a especialista.

“Ele [meu chefe] nem falava comigo, não olhava nos olhos. Às vezes apontava o dedo para mim e para a sala de reunião me chamando como se eu fosse um cachorro”, relembra Fernanda*

É possível, também, chegar à depressão, como foi o caso de Fernanda. Ela chegou ao ponto de desistir da área que amava para recuperar sua saúde mental. “Eu não via mais utilidade em nada do que eu fazia, a tal ponto que pensava que valia mais a pena o tempo do meu filho com qualquer outra pessoa do que comigo”, recorda, pesarosa.

Devido às atitudes tóxicas da chefia, o funcionário pode ter crises de ansiedade, perda de autoestima e autoconfiança, diminuição da produtividade e engajamento.Foto: Bigstock.

Devido às atitudes tóxicas da chefia, o funcionário pode ter crises de ansiedade, perda de autoestima e autoconfiança, diminuição da produtividade e engajamento.Foto: Bigstock.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nem tudo que é tóxico vem do assédio

Esqueça o estereótipo da pessoa tóxica que vêm à mente. Ela nem sempre é rude, agressiva ou autoritária. Alguns líderes tóxicos são boas pessoas, mas não sabem fazer uma boa gestão das emoções de sua equipe. Foi o caso de Alessandra Assad, jornalista professora da ISAE/FGV e autora do livro Liderança Tóxica que debate o tema. Percebeu-se enquanto uma líder tóxica apenas quando seu time a chamou para uma conversa.

A jornalista tinha feito diversos cursos de liderança, perguntava o que os funcionários precisavam e acreditava estar ajudando. “Eu estava sendo tóxica e não sabia. Nunca achei que poderia estar nesse papel. Qualquer um pode ser tóxico, mesmo com uma intenção boa”, relembra.

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Em muitos casos o líder tóxico é alguém despreparado para as responsabilidades do cargo. “As pessoas são promovidas porque tinham muito tempo de empresa e bons resultados técnicos, mas não foram capacitados para fazer uma boa gestão de pessoas”, reflete a psicóloga.

Em seu livro, Alessandra propõe algumas questões para identificar se a liderança da equipe está tóxica. Entre elas, perceber se os membros estão doentes com muita frequência, se os resultados estão caindo ou se as pessoas já não respondem aos estímulos do líder. Um forte indicador é o afastamento da equipe, que passa a evitar o líder.

Líder contagiante X líder contagioso
Alessandra ainda exemplifica, no livro, as diferenças entre um líder contagiante, aquele que promove sentimentos positivos para a equipe, e um líder contagioso, que causa angústias.

Um líder contagioso geralmente manipula as emoções da equipe, cria expectativas que não podem ser cumpridas, pensa nos resultados sem levar em conta o bem-estar do time e não é claro e transparente nas decisões. “Ele [o gestor] não dá conta de criar esse ambiente muitas vezes porque nem tem autoconhecimento, nem percebe a situação”, reforça a autora.

Demandas e decisões confusas do líder geram sobrecarga na equipe, que precisa trabalhar mais para suprir as vontades do chefe. Foi o caso de Roberta*. O gestor pedia uma demanda, mas na hora da entrega afirmava ter solicitado algo diferente, o que fazia a equipe cria muitas versões do mesmo job e se sentir sobrecarregada. “Chegou ao ponto de as pessoas gravarem as reuniões para mostrar o que tinha sido requisitado”, conta, perplexa. O antigo chefe também aceitava muitos projetos sem pensar no desgaste que geraria nos funcionários.

Outra características comum é a negação das responsabilidades de suas ações — se algo dá errado, a culpa é da equipe, mas se algo dá certo, o crédito é apenas dele mesmo.

“Sentia que nunca dava conta e não conseguia entregar nada. Fazia meu melhor, mas sentia que estava perdendo tempo”, conta Roberta*

O problema é mundial. A pesquisa Tendências Globais de Capital Humano, de 2018, mostra uma discrepância entre a preocupação dos funcionários e as soluções propostas pela chefia quanto à saúde emocional. 60% dos entrevistados gostariam de ter um programa de suporte mental, iniciativa realizada por 30% das empresas. 67% dos empregados desejam um escritório com design pensado para o bem-estar das equipes, característica que apenas 27% das empresas têm. A consultoria Deloitte, responsável pelo levantamento, entrevistou 11 mil líderes de negócios e de Recursos Humanos em 124 países — 337 deles eram do Brasil.

Como lidar com a situação

O primeiro desafio do funcionário é perceber que seu problema está relacionado a um líder tóxico. A psicóloga explica que o instinto natural é se culpar, como se ela fosse a única causadora desse desconforto. A partir do momento em que o colaborador identifica que a situação envolve um comportamento da outra parte, o mais indicado é conversar com o gestor. “Muitas vezes ele não dá um feedback porque não está apto para aquele cargo, então uma conversa pode gerar um impacto positivo”, sugere. Outra alternativa é buscar o setor de Recursos Humanos da empresa ou o chefe do gestor.

Do ponto de vista individual, a pessoa pode buscar terapia, tratamento que pode ajudá-la a resgatar a segurança e autoestima, mas a especialista ressalta que “não adianta ter um apoio profissional e o ambiente de trabalho não mudar”.

Entretanto, Alessandra atenta para o aumento da percepção desses pequenos sinais. Em parte devido à atenção maior das empresas para as questões de produtividade e bem estar do funcionário. “As empresas estão amadurecendo em relação a isso. Elas estão mais preocupadas com a saúde mental e física, pois isso gera resultado”, comenta.

Segundo dados da Pesquisa Anual de Benefícios Corporativos de 2017, da Mercer Marsh Benefícios, 41% das empresas tinham alguma ação voltada à saúde emocional dos funcionários, com o objetivo de auxiliar na diminuição do estresse e na melhora dos índices de engajamento e produtividade. O levantamento analisou 690 empresas de diferentes segmentos da economia.

* Nomes fictícios criados para preservar a identidade das fontes.

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