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Grupos de desabafo nas redes sociais aumentam, mas é saudável expor situações íntimas?

As comunidades “sem razão” surgiram para relatos bem humorados entre os usuários, mas acabam reunindo desabafos de conflitos, agressões e abusos

celular-digitandoOs grupos online podem se assemelhar a outras tantas reuniões de autoajuda, como os Alcóolicos Anônimos ou os voluntários de Centro de Valorização da Vida. (Foto: VisuaHunt)

Foi-se o tempo em que procurávamos o bom e velho ombro amigo para chorar nossas mágoas. Agora, com alguns cliques na barra de pesquisa de qualquer rede social, podemos encontrar centenas de grupos para desabafar sobre os problemas e milhares de pessoas disponíveis para te aconselhar.

De mães solteiras a viúvas, usuários de medicamentos específicos ou seguidores de dietas restritivas, até ansiosos, depressivos e com ideações suicidas. Seja lá qual for o problema, a internet pode apresentar pessoas que estão passando pelo mesmo problema.

A designer de moda Sarah Prado, 30 anos, administra um desses grupos para desabafo. Inicialmente ela juntou amigos para relatar casos bem humorados do que batizou de “parentes que não têm razão”.

Os clássicos familiares que saem das festas levando marmita, até aquele cunhado que aparece no almoço de domingo e fica para o café da tarde. Não esperava, no entanto, que em pouco mais de um mês conseguiria juntar cerca de seis mil pessoas para desabafar sobre conflitos familiares generalizados.

“A ideia inicial era dar risada, mas de repente me vi com uma responsabilidade grande, porque começaram a surgir os relatos de abusos, brigas e agressões. E aí veio essa necessidade de acolher essas pessoas”, contou.

Para tentar lidar com casos em que os usuários relatam até intenções suicidas, a designer conta com a ajuda de outros membros da comunidade, para oferecer comentários positivos e aconselhar a procura de psicólogos.

“Quando surgiram as primeiras histórias mais pesadas, fiquei receosa de apagar o post e falar para a pessoa procurar algum profissional. O medo é que aquela pessoa não se sinta acolhida do jeito que esperava”, relatou.

“Mas acredito que os grupos são válidos, nesse sentido. Participo de outros onde as pessoas pedem fotos de animais de estimação, em uma tentativa de aliviar uma crise de ansiedade ou depressão, por exemplo. E nesses casos, 90% dos usuários são receptivos e falam coisas positivas”, finalizou.

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A mestre em psicologia Andrea Paula dos Santos Lara chama atenção justamente para a necessidade de uma moderação profissional para esses grupos terem um impacto positivo. Para a especialista, os grupos online podem se assemelhar a outras tantas reuniões de autoajuda, como os Alcóolicos Anônimos ou os voluntários de Centro de Valorização da Vida.

“Juntar-se a um grupo para dividir experiências e procurar no outro um apoio não é uma coisa ruim em si. O problema é quando não há um profissional da área de saúde moderando esse debate, vetando comentários improdutivos ou nocivos”, explicou.

“Temos que ter a consciência de que as pessoas estão vulneráveis e quando colocamos algo em um grupo de 6 mil pessoas, por exemplo, estamos sujeitos a receber conselhos bons, mas também não sabemos quem está do outro lado da tela. Podemos ter também o contrário, pessoas que fazem comentário tirando sarro, dando maus conselhos e até mal intencionadas, que induzem ao suicídio, por exemplo, em casos mais graves. Definitivamente, as pessoas não sabem o perigo que correm ao se expor”.

Parentes sem razão - Facebook

Grupo online “Parentes que não tem razão” reúne relatos humorísticos, mas também desabafos de abuso e agressões. Foto: Reprodução.

Especialista em terapia familiar, a psicóloga Clarice Ebert acredita que os grupos são como loterias. “Muitas vezes podemos encontrar uma pessoa que dá um conselho ótimo, abre uma luz na sua vida. Outras vezes encontramos os ‘especialistas em dar conselho’, e são péssimos.

O que funciona em um contexto familiar pode não funcionar em outro. A mesma coisa acontece com casais. A internet é como a rua. A gente não expõe um problema particular para milhares, até mesmo porque a outra parte envolvida no conflito não está ali para se defender”, comenta.

“A gente vê o desdobramento de toda essa exposição dentro do consultório. As pessoas estão intolerantes, sem repertório psíquico”, pontua.

O fenômeno dos grupos “sem razão” não termina apenas nos conflitos familiares. Unidos pela rede, os usuários juntam-se para desabafar sobre vizinhos, clientes, fornecedores, lojistas, alunos e acredite, até médiuns.

“Esse tipo de desabafo é saudável quando são situações leves, como se estivéssemos em uma festa e falamos brincando ou quando o grupo tem a intenção de promover uma discussão em torno de um desafio comum, gerando identificação das pessoas umas com as outras. Mas tudo tem ressalvas”, diz Clarice.

>>> “”Ligar o f*da-se? Especialistas falam que o melhor é encarar os problemas””

Grupos podem ser reflexo de isolamento social

Trabalhando com terapia online com 70% de seus pacientes, a mestre em psicologia Andrea Lara acompanha a proliferação dos grupos de desabafo com preocupação. “Embora eu seja uma profissional da área, eu não acredito que todos os casos de dificuldade devam ser tratados com psicologia. Às vezes a pessoa está passando por uma tristeza momentânea e quer fazer um desabafo, algo que pode ser feito com um amigo, alguém próximo. Quando as pessoas vivem certo isolamento social, procuram na internet a substituição para esse papel”, comenta.

Para quem está participando apenas como leitor, a psicóloga diz que o melhor é sempre interagir no sentido de mostrar que está presente. “Se a pessoa está falando de um fato pesado, ouvir sempre ajuda. Já dar conselhos é mais delicado.  Se fosse bom, ninguém dava”, comentou.

“Sempre que a pessoa estiver em um estado emocional mais complicado, uma tristeza mais profunda, falando em suicídio, automutilação e coisas mais sérias, a orientação é que você dê o contato de algum profissional de saúde e estimule a pessoa a procurar ajuda. Esse ombro, mesmo que virtual, é o que pode ajudar de verdade”, finalizou Andrea.

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