Ela achou que estava passando mal por conta da comida, mas descobriu o câncer mais letal

Apesar de o câncer de pâncreas ser um dos mais agressivos, Priscila Domingues se curou após a retirada cirúrgica da área lesionada

Curada de câncer do pâncreas, Priscila Domingues, mãe de dois filhos, extraiu o câncer cirurgicamente e hoje está curada. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.Curada de câncer do pâncreas, Priscila Domingues, mãe de dois filhos, extraiu o câncer cirurgicamente e hoje está curada. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

“Estou morta”, pensou Priscila Domingues, de 37 anos, quando recebeu o diagnóstico de câncer no pâncreas, no dia 30 de dezembro de 2017. Hoje, ela vive sem a doença há um ano e dois meses —contados cuidadosamente. À época, porém, a notícia foi um choque para ela e para toda a família. “O réveillon virou um velório”.

Foi exatamente no dia de Natal que ela resolveu procurar o pronto-socorro depois de passar o dia todo enjoada e com dores que nenhum sal de frutas aliviava. Atendida, tomou soro na veia e, por recomendação médica, voltou para casa e foi dormir.

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Acordou vomitando e voltou para a emergência. Lá, novos exames foram pedidos e uma ecografia mostrou que alguma coisa não estava certa. “O médico disse: ‘Pelo que você está sentindo, não encontramos nada. Mas tem uns achados, uma lesão no pâncreas'”.

Saiu do hospital com uma requisição para fazer uma tomografia e, quase que por mágica, sem dor alguma. Em questão de dias, fez o exame e recebeu o resultado assustador. “Com tudo aquilo escrito [nos resultados], você vai procurar no Google e você morre”, brinca, bem-humorada. Ela tinha um câncer no pâncreas e uma metástase no fígado, um quadro sério.

Ameaça silenciosa

Ao contrário do cérebro ou do coração, o pâncreas, assim como o baço ou as amígdalas, é um daqueles órgãos do nosso corpo ligeiramente esquecidos: só pensamos neles quando há algum problema.

Poucos meses antes do diagnóstico, Priscila tinha feito exames de rotina que não apontaram nenhum tipo de problema e, até aquele momento, nunca tinha sentido nenhum tipo de mal estar relacionado à doença.

Quando descobriu a lesão no pâncreas, Priscila Domingues pensou que não teria saída. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

Quando descobriu a lesão no pâncreas, Priscila Domingues pensou que não teria saída. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

O câncer acontece quando há um crescimento descontrolado de células em órgãos ou tecidos, que viram um tumor e afetam o seu funcionamento normal. No pâncreas, ele normalmente só mostra sintomas em seus estágios mais avançados — o que é um dos motivos para que sua detecção seja tão difícil e sua mortalidade tão alta.

A localização do órgão, que mede aproximadamente 15 centímetros, também não ajuda: atrás do estômago, perto da bexiga e ao lado do fígado.

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O câncer no pâncreas, apesar de raro, é um dos que têm as mais altas taxas de letalidade. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), vinculado ao Ministério da Saúde, ele é responsável por cerca de 2% de todos os tipos de câncer diagnosticados no Brasil e por 4% do total de mortes causadas pela doença.

O tipo mais comum e mais letal de tumor no pâncreas é o adenocarcinoma, responsável por 85% a 90% dos casos. Alguns fatores de risco ligados a ele são a faixa etária (mais de 60 anos), tabagismo e obesidade.

“Para o adenocarcinoma, a chance de cura — 5 anos sem doença — no paciente que opera e faz quimioterapia, ou seja, um paciente selecionado, é de em torno de 10%, no máximo 20%, dependendo de quão avançado era o quadro”, explica o cirurgião do Hospital Nossa Senhora das Graças Eduardo Ramos, especialista em aparelho digestivo e responsável pela operação da empresária.

Esse “paciente selecionado” já é uma exceção: a cada dez pessoas que têm esse tipo de tumor, apenas duas ou três são candidatas a cirurgia. Para os outros, que não podem operar pela gravidade da doença, “a chance de cura é mínima, praticamente zero”, afirma o médico.

Nesse caso, há formas de aumentar a qualidade e a quantidade de vida do paciente, com uma sobrevida mínima média de aproximadamente um ano e meio. “Por isso ele é um câncer ruim. A maioria chega ao consultório já avançado, num diagnóstico tardio, porque boa parte dele não tem sintomas — depende de onde está”.

Caso o câncer esteja na “cabeça” do pâncreas, a região mais perto do fígado e do canal da bile, é possível que hajam sintomas como icterícia (amarelão) em fases não tão tardias. Porém, se ele estiver no centro (corpo) ou final (cauda) do órgão, como no caso de Priscila, não há sintomas. Ela, no entanto, teve um grau de “sorte” na roleta russa do organismo: o seu tumor era do tipo neuroendócrino, que oferece mais chances de cura, mesmo que o quadro já estivesse em metástase.

Para o cirurgião, a grande esperança é que a medicina encontre novas técnicas que possibilitem o diagnóstico precoce e drogas que garantam mais qualidade de vida aos pacientes. Já o tratamento, Ramos explica, é muito individualizado de acordo com cada paciente.

Alguns podem exigir quimioterapia antes que possa ser feita a operação para retirada do tumor. No caso de Priscila, a cirurgia foi o suficiente. “Ela não fez quimioterapia porque não teria um ganho de vida”, ressalta o especialista.

A recuperação do processo operatório é longa e dolorosa. “Doeu para caramba! Passei um perrengue por 40 dias”, relata a paranaense, que é mãe de um garoto de 16 anos e de uma menina de três. Mesmo assim, ela considera que, após descobrir que o seu caso era cirúrgico, as notícias só melhoraram. Desde a operação, que aconteceu um mês após o diagnóstico, ela realiza exames de acompanhamento periodicamente, para ter certeza que a doença não voltou.

“Foi muito difícil para toda a família, mas todo mundo estava sempre pensamentos positivos e com muita fé. Não pode perder a fé”, relembra. Ela considera que as dores que sentiu no Natal e que a levaram para o hospital — que não tinham qualquer relação com o câncer e estavam, mais provavelmente, ligadas a alguma coisa que consumiu na ceia — foram seu milagre, já que não teria descoberto a doença se não tivesse feito os exames à época. “[Isso aconteceu] para eu descobrir que eu tinha alguma coisa crescendo em mim que ia me matar”, acredita. “Eu falo que foi um milagre — e foi”.

Priscila, que sempre teve hábitos saudáveis, não mudou muita coisa na rotina, além da bateria de exames a cada seis meses. O jeito de olhar a vida, no entanto, mudou completamente. A lista de conselhos não é das menores. “Aproveitar a vida, contemplar o belo, crer mais ainda em Deus, curtir os filhos, não reclamar tanto”, relata. “Saúde é tudo”.

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