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Comportamento

“O feminismo conquista espaço para mulheres e para homens na sociedade”, diz Leticia Sabatella

Para a atriz curitibana, uma sociedade machista impede que mulheres e homens ajam naturalmente

"A gente sabe que, na pirâmide social, quando a gente vai para o nível mais baixo da sociedade, de maior exploração, ainda é a mulher que se encontra em pior condição", diz a atriz, que comemora seu aniversário no Dia da Mulher. Foto: Reprodução/Fabio Audi

Leticia Sabatella tinha 12 anos quando sofreu seu primeiro assédio. Foi em Curitiba, na Rua Raphael Papa, quando ela voltava de uma aula de balé no Teatro Guaíra. Assim ela contou em uma postagem feita em 2015, em seu Facebook, como contribuição à campanha #PrimeiroAssédio, criada pelo coletivo feminista Think Olga. Assim como tantas outras mulheres, ela relatou sua experiência como forma de conscientização pelo fim do assédio sexual.

A atriz, que cresceu em Curitiba, é conhecida por seu posicionamento firme e aberto pelas causas em que acredita. Uma dessas causas é a feminista. Não foram raras as vezes em que Leticia criticou as muitas situações de abuso que mulheres continuam enfrentando em todo o mundo. Ela conversou especialmente com o Viver Bem sobre as atuais circunstâncias da temática feminista. A entrevista faz parte da série de homenagens do Viver Bem ao Dia da Mulher, data em que Leticia comemora seu aniversário.

Viver Bem: Em relação às conquistas femininas, o que você avalia que mudou nas últimas décadas e quais os desafios atuais para as mulheres?

Leticia Sabatella: Eu sou de uma geração que colhe frutos de décadas de opressão. Pelo menos no meu lugar de voz e de fala, quando vejo a geração da minha mãe, de mulheres que, por exemplo, se separam e não conseguem jantar sozinhas num restaurante sem serem mal vistas. Isso eu presenciei com mães de amigas minhas que se separaram na geração delas e não podiam aproveitar um espaço público sozinhas.  Isso é uma das coisas que eu vejo que mudou em parte, com muita luta, mas não mudou extremamente.

Esse espaço público, esse espaço social, esse espaço do convívio social da mulher sozinha ainda exige um temperamento forte, exige uma colocação, não é uma coisa natural. Digamos que tem mulheres que ocupam muito bem isso sozinhas, que são super pró-ativas, independentes, mas elas se valem de um temperamento muito específico.

Mas é da nossa geração o reconhecimento por esse espaço conquistado por lutas anteriores que ainda ecoam. Quando a gente fala das sufragistas, a gente vê que em 2015 ainda estava se defendendo o voto feminino em [alguns] países do mundo. A gente vê que acontece um retrocesso imenso agora no país e o quanto as mulheres ainda têm que estar lutando e sendo “xingadas” de feministas.

“Sua feminista!”, como se fosse um xingamento. Em um momento de retrocesso de direitos dos cidadãos, as mulheres sempre têm que estar, como diz Simone de Beauvoir, sempre têm que estar lutando por seus direitos.

Foto: Reprodução/Tomas Arthuzzi

VB: Você muitas vezes já se posicionou abertamente a favor de pautas feministas. Do seu ponto de vista, esse tipo de posicionamento é uma responsabilidade diante do seu público?

LS: Eu não gosto de falar nesse sentido. Quem sou eu para ser um exemplo? A minha prática é porque eu acredito que a gente tem que construir uma saúde social boa para homens e mulheres. O que estou querendo dizer é que homens também não têm plena existência numa sociedade que é machista. Eles não têm liberdade de exercer o feminino deles, de exercer o cuidado, também. O feminismo conquista espaço para mulheres e para homens na sociedade. Porque ele quebra tabus, ele quebra regras que são segregadoras, que são compartimentadoras, que te impedem de agir naturalmente. Eu não acho que é biológico você ser machista. Eu vejo que é uma coisa social, porque existem temperamentos individuais. Então acho que é uma conquista do feminismo a gente ter uma sociedade que dê uma diluída nessa compartimentação dos gêneros e torne mais simétrica a existência na sociedade, tanto no espaço doméstico quanto no espaço social.

Em 2016, Leticia ensaia para o Festival de Curitiba. Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo

VB: Por que, na sua opinião, as pessoas ainda classificam a causa feminista como “mimimi”? E o que fazer para mudar essa visão?

LS: Eu atribuo ao desconhecimento, atribuo ao preconceito, também. E para mudar isso é compreender, estudar a história, estudar as relações humanas, é observar. Não é mimimi, acho que da parte de muitas pessoas chega a ser até bastante leviano acusar dessa maneira. É uma falta de percepção mesmo. Até uma falta de percepção de que aquilo está atingindo. Eu vejo mulheres, às vezes, que se posicionam assim, que eu vejo que não percebem, ou não percebem o que está acontecendo em torno. Acho que é uma questão de olhar.

VB: Para você, qual o fator que mais contribui para a perpetuação do machismo?

LS: É o preconceito, o medo, acho que a necessidade, ainda, de que a sociedade seja uma sociedade que oprime. Eu acho que não é nada muito positivo o que contribui para a perpetuação do machismo. Porque o feminismo fala de igualdade, ele fala de justiça, ele fala de um equilíbrio, de reequilibrar a sociedade, os direitos. Então acho que, quando a gente fala do machismo, existe uma preponderância da força, do poder estar sempre nas mãos de homens, geralmente homens brancos, enfim. Eu vejo que é um conservadorismo que preserva as coisas como elas estão.

VB: Você acha que ser mulher no Brasil é mais difícil que em outros países?

LS: Comparado com alguns países, sim. Comparado com outros, não. Acho que comparado com o Haiti é bem melhor, agora se a gente for para outros lugares, acho que não. Mas acho que a gente ainda tem problema de machismo em muitos lugares.

Foto: Reprodução/Fabio Audi

 

VB: Em 2014 você foi criticada por fotos em que aparecia deitada no asfalto depois de sair de um restaurante. Como você vê o fato de que uma mulher tenha que dar explicações sobre uma situação como essa?

LS: Eu, na época, nem reconheci como machismo, mas como pentelhação. Mas o que eu vejo ali… depois eu fui reconhecendo. Eu não tinha entendido. Falei “caramba, qual foi o crime que eu cometi aqui?”. Eu estava realmente rindo com amigos, foi uma mulher que fez aquela foto e mandou pro colunista. Mas eu lembro que uma menina fez uma página no Facebook promovendo um “deitaço”. Aquilo gerou um movimento de todo mundo deitando na rua, meninas e meninos, jovens, homens e mulheres. Lá em Brasília a gente fez um show da Caravana [Caravana Tonteria, grupo musical de que Letícia faz parte] e todo mundo deitou. Gerou uma repercussão muito anti-machista, sabe? Muito pela igualdade, muito bonito. Foi uma performance linda, no fim. E eu lembro que as mulheres ficaram indignadas com isso. “Por que ela não pode beber e deitar no asfalto?” E todo mundo começou a deitar. E aí eu percebi “é, pode ter também um cunho machista, ali”.

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