A geração de maquinistas curitibanos que ajudou a Maria Fumaça Mallet a rodar

A passagem da locomotiva por Curitiba reacendeu o interesse pelas estradas de ferro e animou toda uma geração de maquinistas

As viagens de Antônio com o pai pelas ferrovias o fascinavam. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

O retorno de uma tradição natalina de 40 anos atrás resgatou o interesse pelos trilhos dos trens em Curitiba: a Maria Fumaça Mallet 204, que foi restaurada e circulou enfeitada para o Natal por Curitiba em dezembro (nessa semana, encantará os moradores do litoral), fez com que famílias inteiras se reunissem para acompanhar a passagem da locomotiva a vapor nas estradas de ferro.

Mas as ferrovias também são construídas de histórias de pessoas que trabalharam boa parte de suas vidas nesse setor. É o caso de Antônio Carlos de Campos, 68 anos, que atuou em três diferentes funções na RFFSA.

Atualmente aposentado, ele foi influenciado pelo pai (que também se chamava Antônio), que trabalhou como maquinista no Paraná na segunda década do século 20 e começou como  (jogando lenha na fornalha do trem). Mais tarde, ele conduziu a primeira versão da Mallet 204. “Naquela época, o freio ficava no teto do trem, então era necessário controlar bem a velocidade, senão, a descida pela Serra do Mar era perigosa. Um outro funcionário que  fazia as viagens junto com o meu pai tinha que subir no vagão para frear a locomotiva”, recorda.

Nesse período, a Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA) ainda não existia (foi instituída em 1959) e as estradas de ferro do Paraná eram administradas por diversas empresas.

Viagens com o pai

Após a passagem pela função de foguista, o pai de Antônio foi para departamento de tração, como maquinista. Era lotado em Curitiba, mas fazia viagens da capital para Ponta Grossa e para Paranaguá, conforme conta o filho. “Quando criança eu viajei com ele. Eu me encantava com a ferrovia que vai para Paranaguá. Eu tinha fascinação”, diz Antônio, que ficava impressionado com a altura na qual o trem passava.

Início como torneiro mecânico

Mesmo com a morte precoce do pai, aos 58 anos, Antônio, então com apenas oito anos, já tinha paixão pelas estradas de ferro. Ele e toda a família. Dos seis irmãos, quatro trabalharam na RFFSA. Antônio entrou na década de 1970. Entre 1971 e 1973 teve uma curta passagem pela rede, e retornou após fazer concurso público em 1976 como torneiro mecânico na sede da Vila Oficinas, no bairro Cajuru.

“Eu trabalhava na manutenção de peças e pequenos concertos”, diz. De lá, foi transferido para o Jardim Paranaense, no Alto Boqueirão, onde passou a fazer manutenção de locomotivas. Na década de 1980 se graduou na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e migrou para o cargo de Operador de Computadores, na sede da empresa, que ficava na Rua João Negrão.

O pai de Antônio conduziu a primeira versão da Maria Fumaça Mallet:  e o filho também seguiu a profissão de maquinista. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

O pai de Antônio conduziu a primeira versão da Maria Fumaça Mallet: e o filho também seguiu a profissão de maquinista. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

“A Rede Ferroviária era interessante. Passei por vários setores lá e por último pude conhecer a parte mais administrativa. Quando eu trabalhava como torneiro mecânico, não imaginava quem fazia isso, nem como se fazia”, comenta.

E a influência dos trilhos continuou para as novas gerações. Seu filho Elton Felipedes Bertoja de Campos, 38 anos, trabalhou durante seis meses na América Latina Logística (ALL) (hoje Rumo).

Recordações bem guardadas

Antônio deixou a empresa no ano de 1995, quando se aposentou. Até hoje se lembra de sua matrícula como funcionário da empresa: 35053.

Antônio ainda guarda antigos documentos e a carteira de trabalho do pai.  Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Antônio ainda guarda antigos documentos e a carteira de trabalho do pai. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

E recordar de seu trabalho nas ferrovias de Curitiba e da história do pai e familiares em suas atividades  é algo que Antônio faz com detalhes. Tanto que ainda guarda com ele o último contracheque do pai, do mês de julho de 1959. “Era uma época muito boa e as pessoas se interessavam bastante pelo trabalho nas locomotivas”, relembra.

LEIA TAMBÉM

8 recomendações para você

Deixe seu comentário