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O esquema atrai mulheres por meio de grupos virtuais, prometendo prosperidade em troca de "presentes". Foto: Bigstock
O esquema atrai mulheres por meio de grupos virtuais, prometendo prosperidade em troca de “presentes”. Foto: Bigstock| Foto:

Imagine a seguinte situação: uma amiga se aproxima e comenta a respeito de um grupo de mulheres que busca o empoderamento feminino e a realização de sonhos. Elas lutam contra o patriarcado, a desvalorização da mulher, a ganância, e se unem para serem pessoas melhores e ajudar as demais por meio da solidariedade. Inicialmente, o discurso parece muito nobre e, ao ser apresentado por alguém próximo a você, se torna convidativo. No entanto, se trata de um esquema financeiro preparado para enganar as vítimas, roubá-las e evitar que elas percebam o golpe.

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Essa falsa corrente de cooperação é conhecida por nomes como Mandala da Prosperidade, Tear dos Sonhos, Mandala Feminina ou Flor da Abundância, e possui um único objetivo: unir conhecimentos de psicologia e espiritualidade para ludibriar as vítimas e convencê-las a investir no esquema, esperando retornos gigantes.

Essa jovem de 28 anos – que registrou Boletim de Ocorrência na delegacia de sua cidade na última segunda-feira (11) – foi convidada a participar da Mandala por uma colega da faculdade. “Ela chegou falando que o grupo estava lhe fazendo muito bem porque são mulheres que realizam o sonho de outras por meio de uma economia solidária e crescem emocionalmente e espiritualmente. Parecia algo muito bonito”.

Essa ideia a encantou e ela começou a frequentar os encontros do grupo por meio de um aplicativo que reúne as participantes de maneira virtual. “Nos vemos no aplicativo enquanto cantamos, rezamos e ouvimos histórias que emocionam. Aí, quando estamos super envolvidas, nos falam que essa é uma revolução silenciosa entre as mulheres e que é nossa chance de participar disso ao dar um presente para a mulher que está no centro da mandala”. Segundo a moradora de Cascavel, as responsáveis pelo grupo não usam a palavra “dinheiro”, mas citam o valor de até R$ 5 mil como “presente”.

Ao depositar o valor, a convidada passa a ser chamada de “mulher fogo”, que é a primeira fase até chegar ao centro do grupo e receber R$ 40 mil. “Só que, para termos coragem de fazer essa transferência a alguém que não conhecemos e ainda escrevermos uma carta explicando que se trata de uma doação, passamos por vários rituais para vencermos nossos medos”, conta a paranaense. O principal deles, segundo ela, é escrever tudo que a amedronta em um papel e queimar com uma vela durante um dos encontros.

Imagem que aparece em um dos materiais de divulgação utilizados pelo grupo. Foto: Divulgação
Imagem que aparece em um dos materiais de divulgação utilizados pelo grupo. Foto: Divulgação

Depois que a mulher é convencida a fazer a transferência, ela precisa convidar as amigas mais próximas para que também participem da mandala. “Elas dizem que você se torna ‘mulher vento’ para soprar a oportunidade para outras. Só que, na verdade, você passa a fazer parte do esquema criminoso e está enganando as pessoas que você mais ama, enviando dados bancários para que elas também façam o depósito e influenciando para que sejam roubadas como você foi”, afirma a especialista em saúde.

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E todas as informações são transmitidas pelas amigas mais próximas, o que desmotiva as participantes a denunciar o golpe. “Você fica com medo de incriminar sua irmã, mãe ou melhor amiga. Sem contar que as pessoas como eu, que decidem sair do esquema, sofrem perseguição das outras porque elas dizem que estou contra as mulheres e a favor do nosso sistema financeiro. É algo absurdo e, agora que estou fora, percebo isso”, relata a jovem.

A professora de comunicação Sheilly Caleffi, de 36 anos, também percebeu o golpe e saiu dele. “Achei os encontros muito estranhos, percebi que só queriam dinheiro e consegui fugir antes de fazer a transferência dos R$ 5 mil”, conta No entanto, ainda que tenha desistido antes de se tornar “mulher fogo”, ela também recebe insultos.

Diante da situação, ela gravou um vídeo para alertar outras mulheres a respeito do esquema e tem recebido inúmeros pedidos de ajuda. “Muitas pessoas me procuram desesperadas porque a filha, a esposa ou a aluna caíram no golpe e não acreditam quando alguém tenta alertá-las”, afirma.

A psicologia explica

De acordo com a psicóloga Semíramis Maria Vedovatto, do Conselho Regional de Psicologia do Paraná, a maioria das vítimas de golpes como esse são pessoas solitárias. Isso faz com que se sintam bem na rede virtual de amizade e recebam, com facilidade, o auxílio emocional e espiritual oferecido pelos golpistas.

Além disso, ser convidado por alguém muito próximo e receber as diretrizes dessa pessoa também influencia no convencimento. “É um golpe tão elaborado que, apesar das denúncias, ele continua existindo, assim como outras pirâmides que exigem valores a partir de R$ 100 e atraem homens e mulheres”.

Por isso, a psicóloga orienta as mulheres que participam a avaliarem, principalmente, o investimento oferecido. “O que você vai comprar com esses R$ 5 mil ou qualquer outro valor? Ao colocar nessa pirâmide, você não estará comprando nada. Só terá promessas”, alerta a terapeuta, que aconselha uma conversa com o cônjuge, pais e com o gerente do banco antes de transferir o valor. “Não existe nada fácil e não há nenhuma aplicação financeira que renda 800%. Então, pare e pense”.

Já para quem conhece vítimas que não ouvem suas opiniões, a dica é persistir. “Você tem que orientar e chamar a pessoa para a realidade”. Além disso, é necessário se aproximar dela, oferecer apoio, amizade e confiança. “Ela está indo atrás de um pacote de felicidade, de autoajuda. Talvez a prosperidade que ela tanto procura seja ter saúde, trabalho ou uma família harmônica. Então, pense em como essa pessoa está frágil e a ajude”, finaliza a psicóloga.

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