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Sobrevivente do Holocausto é campeã de natação no Brasil: “apenas uma das coisas que faço”

A histórias de vida e superação de Nora Rónai é fonte de inspiração para todas as idades

Nora começou a competir com a natação só aos 69 anos. Foi campeã brasileira e sul-americana na categoria que competiu. Foto: Gustavo Garret/Clube Curitibano/divulgação

A arquiteta Nora Rónai tem 95 anos e, na rotina, faz natação e musculação em dias alternados. “Nado duas vezes por semana. Em uma hora faço 1.200 metros. E isso me faz muito bem”, conta. Ela é sócia do Clube de Regatas Guanabara, no Rio de Janeiro, onde mora. Enérgica, ela deu entrevista por telefone ao Viver Bem, onde contou parte da sua história de sobrevivência e fôlego.

Nascida no norte da Itália – na antiga cidade de Fiume, região que hoje pertence à Croácia -, lembra de detalhes da infância. Eram as montanhas feitas de calcário que enfeitavam o Golfo do Carnaro; a água gelada nas praias de pedra (fosse verão ou inverno, era sempre 4º C); os tubarões que vinham perseguir cardumes de atum na baía. “Era muito bonitinha [a cidade]. Você via montanhas que ficavam cheias de neve, então podia esquiar, mas também ficava na beira d’água, cheia de peixinhos, e podia nadar”, conta Nora, que sempre amou se exercitar.

Ela chegou ao Brasil em 1941, quando tinha 17 anos e o nazismo dominava a Europa. De origem judia, foi proibida de frequentar a escola e se tornou autodidata.

“A atmosfera na Europa começou a ficar muito perigosa para nós. Éramos considerados como raça impura, e isso era muito perigoso”, ela explica. “Eu me lembro de um dia que chegaram vários soldados, às 3 da manhã, para levar meu pai ao campo de concentração”. Depois foi o irmão, mas ambos conseguiram escapar graças ao apelo da mãe de Nora a antigos conhecidos da família que atuavam no regime fascista. “Quem não conseguiu escapar foi queimado e morto”. Assim conta a história. Assim conta Nora.

Juntando o dinheiro que tinha, a família conseguiu um visto brasileiro e fugiu, passo a passo: primeiro foram para Roma, então Lisboa e por fim atravessaram oceano até desembarcar no Rio de Janeiro. “Chegamos com uma mão na frente e outra atrás”.

Nora conta que ela e o irmão, Giorgio, estavam tão magoados com a Itália que, na época, decidiram nunca mais falar italiano. Com um pequeno dicionário ao alcance das mãos, aprenderam português em um mês. Ela vendia cosméticos feitos em casa de porta em porta para conseguir pagar o aluguel numa pensão. Logo se sentiu acolhida pelos brasileiros. 

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Mais tarde casou com o professor e escritor húngaro Paulo Rónai, com quem teve duas filhas: a jornalista Cora Rónai e a musicista Laura Rónai. No Brasil, Nora se formou em Arquitetura e foi professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além desses títulos, também se dedica à natação.

Campeã mundial de natação 

Nora Ronai: ela sobreviveu ao holocausto e hoje é campeã de natação

Nora Ronai durante o 63º Campeonato Brasileiro de Masters de Natação, que aconteceu no Clube Curitibano em abril. Foto: Gustavo Garret/Clube Curitibano/divulgação

Quando chegaram ao Brasil, os irmãos Nora e Giorgio “foram atrás de um clube em que pudéssemos cultivar essa vida esportiva. Porque lá [na Europa] a gente podia esquiar, patinar no gelo, nadar no verão e tudo mais”, conta.

Chegou no Clube Ginástico Português, onde começou treinando esgrima. Sempre interessada por natação, logo se jogou na piscina: começou a nadar e se juntou a um grupo de saltos ornamentais.

Nora começou a competir com a natação só mais tarde, aos 69 anos. “E depois virei campeã brasileira. E depois sul-americana”, ela diz com naturalidade. De fato, só no Campeonato Mundial de Masters em Montreal de 2014, conquistou seis medalhas de ouro. Mas não se define como profissional.

“Eu nunca vivi de esporte. Vivi de ser arquiteta e professora. E por acaso, também nado. É apenas mais uma das coisas que faço. As pessoas enfatizam isso por causa da minha idade. Eu faço por gosto, por lazer. Tenho recordes, mas não é o que mais importa. Eu nado porque me diverte”, diz.

Nora continua competindo. “Mas eu tenho a tranquilidade de dizer que sou amadora, e isso não tira nenhum mérito” diz a nadadora que, entre os dias 11 e 14 de abril, participou do 63º Campeonato Brasileiro de Masters de Natação, no Clube Curitibano, na capital paranaense.

A autobiografia de Nora foi lançada em 2014.

Ela conta sua história no livro Memórias de um Lugar Chamado Onde (Editora Casa da Palavra) , lançada em 2014. O livro narra sua trajetória desde a infância de perseguições até a chegada ao Brasil. 

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